Romance A família Canuto

Romance A família Canuto
Romance A família Canuto e a Luta camponesa na Amazônia. Prêmio Jabuti de Literatura.

domingo, 29 de julho de 2018

Sentidos pós-modernos no universo da arte e counicação


Sentidos pós-modernos no universo da arte e da comunicação

Carlos Cartaxo
Andar pelo mundo, olhar em volta do tempo, cronometrar os sorrisos que iluminam o dia; muitos clareiam até a noite esbanjando luz onde há escuridão, é perceber que tudo é pouco diante do que há para se descobrir. Há muito tempo ouço que se faz necessário quebrar paradigmas, mas vejo que muitos dos conceitos se mantêm intactos como se mudanças fossem o inesperado diante do desconhecido. Pois bem, a semana passada participei, como convidado, do 6º Retiro Doutoral da Universidade Aberta, em Lisboa. E lá pude partilhar de momentos enriquecedores propiciado pelo DMAD - Doutoramento em Média-Arte Digital conjunto da Universidade Aberta e da Universidade do Algarve, Portugal[1].
As transformações tecnológicas, culturais, sociais e políticas desse início de século XXI estão imersas na mídia, sendo expressas através da arte virtual. As possibilidades de trabalho são muitas. A arte interativa é uma realidade que desde o final do século XX se estabeleceu nas artes plásticas, o cinema, na televisão, nos jogos virtuais, etc. O rádio, por exemplo, foi o meio de comunicação que desde cedo trabalhou com a interatividade, procedimento que foi absorvido pela televisão ainda no século XX. O século XXI iniciou com a perspectiva interativa das mídias, o que tem sido motivo de ruptura paradigmática para muita gente. A arte digital quebrou o paradigma da arte moderna como sendo um produto, digo uma “obra”, que ficava em teatros, galerias e museus, espaços elitistas, portanto seletivos da criação artística.
O fato de eu ser um dos professores que ministram a disciplina de Direção de Arte do Departamento de Comunicação da Universidade Federal da Paraíba, me fez mergulhar nesse celeiro buscando a quebra de paradigmas necessários para o avanço dessa área de conhecimento. A disciplina Direção de Arte foi criada com a intenção de contribuir, como conteúdo, para a formação profissional nos cursos de cinemas e audiovisual, e Radialismo (com pesquisa em televisão e internet), com abertura optativa para os cursos de Jornalismo, Mídias digitais, Artes Visuais e Teatro. A procura por essa disciplina tem sido intensa e vem de vários outros cursos da UFPB.
Esse interesse existe porque as transformações da mídia têm causado uma revolução no que se entende por direção de arte. Os sentidos pós-modernos ocuparam os espaços por muito tempo dominados pelo modernismo. Essa trajetória vem de longe. Em 1450 Gutemberg inventou a prensa que permitiu a impressão em escala de produções gráficas. Em 1880, a fotografia surgiu registrando a vida no tempo e espaço. O cinema teve a marcante data da primeira projeção, dos irmãos Lumière, em 28 de dezembro de 1895, em Paris. A câmera digital foi apresentada, pela primeira, vez pela Kodak em 1976 denominada de “câmera sem filme”. A evolução é continua, em passos largos e, hoje, a narrativa visual (conhecida como visual storytelling) é a realidade para se contar histórias tendo como canal o uso de mídia visual. Esse processo representa a quebra de paradigmas para quem estabelece a arte como sendo fracionada por quatro expressões (linguagens), como na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, no Brasil, que fixa o ensino de arte em apenas, Artes Visuais, Teatro, Dança e Música. 

A narrativa visual pode contar histórias usando fotografia, ilustração ou vídeo, qualquer imagem fixa ou móvel, e pode utilizar múltiplos recursos como gráficos, música, voz e composições de áudios. Quem deseja mergulhar nesse universo pode se aprofundar através dos endereços: https://wakelet.com/; https://www.scoop.it/; http://kontribune.com/; https://paper.li/; https://spark.adobe.com/home/.
O 6⁰Retiro Doutoral em Mídia-Arte Digital em Alfama aconteceu em Lisboa, de 21 a 27 de julho de 2018; foi um laboratório de ações artísticas no contexto das “novas tecnologias e os novos modos de ver e pensar arte”, como diz o programa do evento; e acrescento além da arte, no contexto da comunicação. A introdução do programa do evento define bem a visão de futuro que pesquisam “A média-arte digital é aqui definida como a arte que utiliza a tecnologia da média digital como processo (meio) e/ou como produto (resultado final) onde a tecnologia constitui uma ferramenta ao serviço do engenho criativo (artístico, cultural, educacional, lúdico, entre outros) ou como um motor para inovação ao nível da criação de novas formas e discursos estéticos que exploram a expressividade informativa, sensorial e interventiva dos conteúdos multimédia.”[2]
A pós-modernidade se fez presente nas várias conferências temáticas. Professores, pesquisadores e artistas brasileiros também fizeram parte da programação, estreitando os laços científicos entre Brasil e Portugal. Os conteúdos expressaram uma nova visão estética e técnica sobre a criação em arte e a convergência entre arte e comunicação, principalmente no que concerne a reutilização conceitual de imagens, objetos e interfaces tecnológicas da comunicação, logo, do conhecimento[3].
Muito está por se fazer; mas há muita gente nas universidades pensando a nova roupagem para a humanidade; todavia para que essa evolução signifique avanço, faz-se necessário quebra de paradigmas que dêem sentido a arte, a comunicação e a vida.


[2] http://portal.uab.pt/dcet/wp-content/uploads/sites/12/2018/04/DMAD_guiacurso_6%C2%AAed.pdf
[3] http://portal.uab.pt/wp-content/uploads/2018/07/NOT_Programa_Retiro_Alfama.jpg

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Conhecimento, a base dos valores humanos

Conhecimento, a base dos valores humanos
Carlos Cartaxo

Vejo os 24 anos da ditadura no Brasil reproduzir o arbítrio com a prisão de Lula; vejo e vivo um golpe de Estado do Legislativo, ratificado pelo judiciário; vejo 50 anos do maio de 1968 em Paris; vejo a primavera de praga; 200 anos do nascimento de Karl Marx, tudo isso como uma trilha aberta a se continuar na história. Em contrapartida vejo meus alunos inertes diante do retrocesso que passa o Brasil, inclusive da escalada de ataques ao ensino público e as leis trabalhistas; vejo esses mesmos alunos fazerem de conta que estudam, fazerem de conta de leem; vejo professores de artes, suponho profissionais bem informados e sensíveis, silenciarem diante das reformas retrógradas do ensino do Brasil.
Então, que fazer? Dormir em berço esplêndido? Desacreditar que o ser humano pensa no próximo? Esquecer a força da solidariedade? Deixar de lado a tese de que quanto menor as diferenças de classes mais equilibrada e feliz será a sociedade?
Faço uma revisão de minhas leituras e me vem à mente a peça "Mãe Coragem" de Bertolt Brecht; um libelo as ações devastadoras do Fascismo e do Nazismo na Europa; lembro o quadro "Guernica" de Pablo Picasso, trabalho cubista exposto no Museu Reina Sofia, Madrid, em que o artista expõe sua indignação com o bombardeio à cidade espanhola de Guernica no dia 26 de abril de 1937; recordo a música “Mote do navio” em que o compositor Pedro Osmar, já na primeira estrofe, expressa a força da arte no contexto social: “Lá vem a barca/ Trazendo o povo/ Pra liberdade/ Que se conquista”. É enorme a lista de trabalhos artísticos que têm como base a democracia, a luta contra as desigualdades sociais, a favor dos direitos humanos, contra a escravidão “moderna”, a defesa da justiça social, a valorização da mulher e das culturas. Então por que muitos artistas e criadores se eximem e fogem de produzir uma arte comprometida com os avanços sociais? É a arte pela arte? É o sucesso pelo sucesso? A liquidez dos valores estéticos?
Foto reproduzida da internet

Historicamente existem artistas com trabalhos focados para todas as direções: direita, esquerda, frente, atrás, cima e em baixo. Mas se a arte é uma expressão humana cuja essência é comunicar algo para alguém, por que muitos criadores, nesse processo de emissão e recepção de informações, se isentam da responsabilidade sobre o conteúdo que emitem e expressam artisticamente? Ou, de fato, essas pessoas estão do lado do consumo, da vaidade, da individualidade, do egoísmo e outros valores que se chocam com o avanço da humanidade?
A radiografia do tempo no coloca no final da segunda década do século XXI, terceiro milênio; nesse referencial temporal nos deparamos com muitos retrocessos políticos, sociais e humanitários que estão acontecendo, concomitantemente, em todo o mundo. Nesse contexto me volto à comunidade universitária no Brasil que faz parte da geração complexa e difusa fruto da sociedade líquida, seio da era pós-moderna que desponta no horizonte turvo, tema estudado com propriedade por Zygmunt Bauman no livro Modernidade líquida.
Então me vejo diante de pessoas que leem pouco, que se vão pela onda dos textos rápidos e sucintos das redes sociais. Essa questão da liquidez social e comportamental é tratada por Bauman a partir lógica dicotômica de líquido/sólido e leve/pesado, com o fim de analisar as relações sociais a partir de abordagens que considerem tempo/espaço, individualidade, emancipação, trabalho e sociedade. Esse processo individualiza os sujeitos constituindo uma sociedade de indivíduos, o que acelera a busca desenfreada do consumo tornando essa procura um ritual de incertezas e instabilidades emocionais, sociais e econômicas. A forma física passa a ser mais importante que a energia do abraço. A moda passa a ser um elemento determinante na forma de ser e viver. O comportamento passa a ser reprodutivo e consumista, ou seja, se meu amigo tem uma tatuagem, eu também devo ter. Se ela pintou o cabelo, eu também devo pintar. Se ele fuma, devo fumar. Se aquele artista faz sucesso, mesmo que impulsionado pela mídia que sobrevive a base do consumo, então também devo me tornar seu fã. Essa instabilidade recheada de dúvidas adentra nosso âmago e passa a determinar nossa forma de ser e viver. Em muitos casos essa condição impõe perdas de valores morais e éticos. Sonhar em ter um grande amor é um sonho real que é violado pela busca virtual da pseudo felicidade.
No centro dessa turbulência de ser e não ser shakespeariano, o contexto e o coletivo social deixa de ser a essência da civilidade e o ser humano se desumaniza passando a viver sem pensar o próximo e o todo. Dessa forma o que significa se comunicar sem pensar no receptor das mensagens, mas apenas em si? A resposta é complexa e pode ser argumento para uma tese acadêmica; afinal, o conhecimento é a base estrutural da sociedade porque constitui elementos que formalizam os valores humanos.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Investigação Baseada na arte, o que vem a ser isso?

Investigação Baseada na arte, o que vem a ser isso?

O Instituto Federal de Educação e Tecnologia do Ceará – IFCE, através do Programa de Pós-Graduação em Artes, realizou o I Seminário Práticas Artísticas e Demandas Contemporâneas, de 23 a 27 de abril de 2018, com o tema Miscigenação Poética: o lugar da pesquisa na arte. Eu preparei o artigo “Investigação Baseada na Arte: um recurso metodológico para a pesquisa em arte” para debater no evento. O tema foi foco da minha tese de doutorado, publicado no livro Amor invisível: artes e possibilidades narrativas, e é recorrente, pelo menos com meus orientados e membros do Grupo de Pesquisa Artes, Comunicação e Possibilidades Narrativas da UFPB.
Quando se trata de pesquisa em arte, muitas dúvidas despontam como água na fonte. Arte é conhecimento ou entretenimento? Arte é ciência? Pela ótica de muitos pesquisadores das Ciências Humanas e Sociais, sim. Pelo olhar das ciências exatas, não. O fato é que eu trabalho com a perspectiva de que arte gera conhecimento, portanto é ciência. Contudo essa compreensão merece atenção redobrada porque para se fazer ciência faz-se necessário rigor acadêmico. O trabalho artístico traz em si a candura e subjetividade da criação; todavia a pesquisa em arte exige a profundidade de análise científica sobre o objeto que se estuda. Por exemplo, deve-se evitar a busca do caminho mais fácil quando se trata com arte pela ótica científica. Devem-se evitar equívocos como confundir relatório com dissertação, trabalho lato sensu com stricto sensu. Quando se trata de um trabalho de conclusão de curso ou uma monografia de especialização, falamos de lato sensu, que é um trabalho de sentido amplo. Quando a pesquisa é uma dissertação ou tese falamos de trabalho stritu senso, ou seja, de sentido limitado, que exige um aprofundamento teórico mais consistente; nesse caso há que ter uma metodologia de pesquisa bem definida e rigor científico. Na dissertação de mestrado se pesquisa um objeto com o fim de aprofundamento temático, mesmo que este já tenha sido explorado em outras pesquisas. No caso da tese de doutorado, faz-se necessário um aprofundamento científico, um tratamento diferenciado, inovador, inédito para o objeto pesquisado.
A convivência com essa questão no seio da universidade me faz trazer a pesquisa em arte para o foco da ciência com essa atenção mais apurada porque o fazer artístico, infelizmente, é muito tecnicista. Ainda o é! A pós-modernidade está dando um puxão de orelha em quem insiste pela ótica tecnicista no fazer e no ensinar arte. Diagnostico que na universidade se está lendo muito pouco. O grupo de pesquisa que atuo “Artes, comunicação e possibilidades narrativas” também diagnostica a mesma deficiência de leitura contextual. Poucos alunos conhecem sobre a cultura do espetáculo citada por Guy Debord, a arte no contexto da sociedade líquida e individualizada tratada por Zygmunt Bauman. O que é mais grave, nunca ouviram falar de Elliot Eisner.
Eisner foi quem pensou a Investigação Baseada na Arte e provocou essa área de conhecimento questionando se existe outro lugar mais adequado para ousar na pesquisa em arte que não seja a pós-graduação nas instituições de ensino superior. Esse é um campo a ser explorado, todavia precisa-se quebrar o paradigma da arte tecnicista. Como sugestão para esse rompimento, sugiro a arte híbrida como caminho a ser trilhado.
Set de filmagem na Time Square. Nova Iorque, EUA.
Minha escolha por trabalhar com a IBA se deu quando descobri que sua finalidade é
utilizar a arte como método, uma forma de análise, de diagnóstico, um tema, ou todos esses propósitos dentro da investigação qualitativa. A pesquisa baseada na arte parte da compreensão de que as artes, da mesma forma que as ditas ciências, geram conhecimentos, portanto podem ajudar-nos a compreender o mundo no qual vivemos.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A primeira vista

À primeira vista
Carlos Cartaxo

Ela chegou não sei bem de onde; nem sei bem por onde. Cheirosa, sensual e elegante, vestida como uma deusa; se é que sei como as deusas se vestem. Seu olhar profundo me hipnotizou, foi uma fonte jorrando libido no meu âmago masculino. Senti a doçura dos seus lábios; senti a ternura da sua feminilidade dócil. Fiquei encantado! Belisquei-me para ter certeza de que não era sonho. Sua respiração irradiou energia de desejo, de determinação. Veio-me à mente a sensação cálida: mulher revolucionária!
Que encanto! Nada, muito mais: deslumbre! Sonho travestido de realidade. Inspiração brotando como água vertente na fonte. Uma cachoeira de idéias libidinosas. Acreditar ou subverter a lógica da paixão e me anular? Amor à primeira vista! Que nada, apenas... Era inexplicável o que sentia. Uma sensação pulsante que vinha das entranhas do homem que sou. Uma força interior que me deixava suando, propiciando um nervosismo incontrolável. Pura excitação! Deixar a racionalidade escapar pelos olhos ou fingir que não vê? Viver, simplesmente viver foi a opção determinística de quem deveria usufruir do momento.
A deusa mudou de posição. Ela é de verdade, tem vida como todas as deusas reais. Felizmente tem vida, não é apenas um sonho. Eu não queria acreditar que aquela mulher era de carne e osso. O jeito sutil de jogar o cabelo para trás foi um estímulo a mais na minha percepção masculina que trás consigo o conceito preciso do que é ser feminina. Absorto, permaneci incrédulo. A dúvida cruel que domina milhões de pessoas, nesse exato momento, me fazia mais um, nesse universo de milhões. Acreditar ou não? Num átimo conclui que não há escolha para quem está sob o efeito de encantamento, senão mergulhar na profundeza do sonho.
Trouxe à superfície da pele a sensibilidade para concretizar a minha certeza: era o melhor dos meus sonhos. Só do meu, não, dos sonhos de muitos e muitos que poderiam estar vivendo aquele momento. A partir daí já não havia mais dúvida, era entrega total. Ser ou não ser? Sou homem o suficiente para encarar, assumir a felicidade ao lado daquela princesa.
Foram horas de insinuações; o tempo que o mundo precisava para colher a felicidade. Feminilidade à flor da pele. Como um axioma, assim não há quem resista. Até que, felizmente, ela tomou a iniciativa e partiu para encetar o diálogo. Eu nem poderia acreditar que a decisão vinha dela. A dúvida estava recheada de surpresa: o que será que uma deusa pode falar? Olhou para minhas mãos e observou o volume que eu segurava. Não hesitou e proferiu a primeira frase: não sei como alguém gosta de ler!
Foto da internet. Não foi identificado o;/a autor/a.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Formação superior em arte: bacharelado ou licenciatura?

Formação superior em arte: bacharelado ou licenciatura?
Carlos Cartaxo

Dentre as minhas preocupações como pesquisador, a temática que tem sido recorrente é a estrutura pedagógica dos cursos de artes em nível superior no Brasil. Estamos chegando ao final da segunda década do século XXI e ainda encontramos cursos de licenciaturas de arte que são apenas complemento pedagógico do bacharelado. Quem pensa por essa ótica não conhece os procedimentos pedagógicos das artes no ensino básico.
Primeiramente: a arte no ensino básico não tem a função de formar artistas. Portanto deve ser ministrado por profissionais licenciados, professores, preparados pedagogicamente para ministrarem conteúdos para formação estética e cultural dos discentes.
Segundo: o bacharel não tem formação pedagógica, apenas técnica; portanto é o profissional preparado para atuar no mercado como artista.
Os bacharelados formam profissionais que, muitas vezes, não encontram mercado de trabalho, então vão atuar como professores do ensino básico sem formação para tal. Partem do pressuposto de que o fato de ser artista lhe dá qualificação para entrar em sala de aula do ensino infantil, fundamental ou médio. Quando isso acontece, as pesquisas que desenvolvo no grupo de pesquisa Artes, Comunicação e possibilidades narrativas, constatam que falta a formação didática e a finalidade do ensino de arte no ensino básico toma outro rumo que não é o mais adequado, nem o indicado.
Então, o argumento de que a licenciatura é apenas uma complementação pedagógica do bacharelado é um equívoco de quem não conhece a estrutura pedagógica para formação docente. Não basta conhecer arte ou ser um bom artista para ser professor de arte; faz-se necessário saber como e com que recursos trabalhar a arte em sala de aula. Precisa conhecer os conceitos de Piaget e Vygotski sobre a evolução do pensamento. Precisa conhecer o método dialético de Paulo Freire. Uma coisa é dar aula para formar artista; outra é dar aula para forma cidadãos cultos, intelectualmente preparados para apreciar e partilhar o universo artístico e cultural. A pessoa que conhece arte e é consumidor de arte, necessariamente não precisa ser artista. É a mesma lógica das outras disciplinas. A matemática que se ensina na escola não é com o fim de formar matemáticos; a literatura que se ensina, não é necessariamente para formar escritores.
No universo plural, líquido, volátil e individualizado que estamos vivendo não se comporta mais o ego de artistas que se tornam professores no ensino superior, distantes quilômetros da sala de aula do ensino básico, mas que insistem em fazer dos cursos de graduação, cursos eminentemente tecnicistas. Nunca é demais lembrar a essas pessoas que o tecnicismo fruto do taylorismo e do fordismo foi há um século. O contexto atual é outro e eles, esses professores, estão inseridos nessa nova realidade.
Essa questão eu abordei no meu livro O ensino das Artes Cênicas na escola Fundamental e Média de 2000. Critico o enquadramento do ensino das artes em apenas quatro categorias: Teatro, Dança, Música e Artes Visuais. Esta última é confundida com artes plásticas. E onde fica o ensino do áudio-visual, do circo, da performance, da capoeira, da ópera? Lembro que ópera não é apenas a erudita. Os folguedos populares como: Nau Catarineta, Boi bumbá, etc., são óperas populares. O argumento é que essas expressões artísticas entram nas quatro categorias principais, ou seja, essas últimas ficam à margem, infelizmente por falta de inclusão são marginalizadas.



Esse modelo de matriz pedagógica para o ensino de arte não corresponde à dinâmica da pós-modernidade. Há muito tempo que venho combatendo esse equivoco que até hoje muitos insistem em martelar no conservadorismo. Meu livro Amor invisível: artes e possibilidades narrativas, de 2015, também aborda essa questão.

A arte se reinventa, todavia o ensino de arte no Brasil insiste e persiste dentro de um sistema de casta que faz da arte um emblema que não pode mudar muito menos avançar. Enquanto isso, os cursos nas instituições de ensino superior se distanciam da realidade e permanecem, lembrando o compositor nordestino Belchior, “como nossos pais”.

Referências
CARTAXO, Carlos. Amor invisível: artes e possibilidades narrativas. João Pessoa, Ed. CCTA, 2015.
̶ ̶ ̶ ̶ ̶ ̶ ̶̶ ̶ ̶ ̶̶ ̶ ̶ ̶ ̶ ̶ ̶ O ensino das Artes Cênicas na escola Fundamental e Média. João Pessoa, Ed do autor, 2000.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.
VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1991.


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Asas para voar com a arte
Carlos Cartaxo
O desejo humano de voar sempre foi exponencial. Ícaro, quem era mesmo? Esse personagem mitológico foi criado de forma ficcional para o ser humano poder dá forma, mesmo que conotativa, ao sonho de voar. Aqui temos a arte nos permitindo voar ou nos dando o direito de voar através da arte ou até mesmo com ela.
Pois bem, no final de 2017, vi e interagi com uma postagem na internet, de um artista plástico de Campina Grande, Paraíba, Brasil, que perguntava sobre a opinião de um vídeo de uma performance. No momento não vem ao caso a performance, mas como ele adjetivou aquela expressão artística. Ele perguntou se era arte, mas ele mesmo respondeu dizendo que não era e que aquilo era uma “merda”, palavra dele.
Diante desse quadro pintado por esse artista, me resta a dúvida: será que ele tem alguma noção sobre história da arte? Será que ele sabe sequer distinguir arte clássica, da moderna e da pós-moderna? A trajetória da arte segue a mesma trajetória da história da humanidade, ou seja, está em constante mutação.  Em muitos casos o processo é de constante transformação. Não obstante essas mudanças, muitos artista ficam apenas focados no fazer e não se dão conta de que o fazer não deve ser apenas um ato isolado, até porque ninguém está totalmente isolado sem interferência do meio que o rodeia. Nesse sentido, o artista é um sujeito, assim como todo mundo, que tem que se atualizar constantemente porque a arte, como a vida, é dinâmica, é um fluxo e refluxo de ser e não ser.
Quando o artista ou qualquer outro ser humano não se atualiza fica refém das mudanças constantes da vida. Estagnar diante do tempo e das transformações do mundo é uma opção suicida. A comunicação é um bom referencial para essa tese. “Quem não se comunica se trumbica”. Esse jargão do animador Chacrinha, Abelardo Barbosa, é a chave para a compreensão de que se isolar quer dizer se comunicar de forma estática.
Eu tenho visitado inúmeros museus e instituições de arte pelo mundo, dentre elas museus de arte contemporânea. Ao se deparar com a arte contemporânea, que prefiro denominá-la pós-moderna, temos um impacto de compreensão e admissibilidade de que “aquilo” é arte. Daí a denominação pelo artista, campinenses, de que essa arte é “merda”. Para compreendermos algo precisamos conhecer e, na maioria dos casos, estudar sobre o tema. Como estamos vivendo um momento de transição entre a modernidade e a pós-modernidade, precisamos de conhecimento sobre como essa transição acontece, o porquê dela acontecer, como os sujeitos se comportam diante dessas mudanças significativas, muitas vezes pouco perceptíveis. Para isso temos que ter humildade para aprender sobre o momento que estamos vivendo e como a arte se situa nesse contexto.
Uma das formas de entender e aprende sobre a arte no contexto pós-moderno além de leituras é visitar museus, galerias, ver filmes, performances e espetáculos. Recentemente visitei o Instituto de Arte Contemporânea de Boston - ICA, EUA, e lá a primeira pessoa a qual me lembrei foi o colega artista campinense. Esse cidadão do mundo da arte, como todos nós, precisa mergulhar no universo artístico que não seja apenas aquele que ele está inserido. É uma questão de alfabetização visual. É a importância de compreender e decodificar os processos denotativos e conotativos que são intrínsecos a arte enquanto expressão comunicativa do ser humano. No ICA há uma exposição de Mark Dion, artista norte-americano, que rompe com as formas tradicionais da arte clássica e usa elementos naturalistas no contexto da pós-modernidade para expressar, através de instalações, sua visão de mundo no final da segunda década do século XXI. Ele buscou objetos de escavações do século XIX, como garrafas, ferramentas, cerâmicas e expôs a vida passada e seus efeitos conotativos no hoje. É um trabalho fruto de pesquisa etnográfica, é um misto de ciência e arte. É um trabalho pós-moderno que tem nos elementos da natureza e do cotidiano a essência do ser humano. Para dizer que essa criação é arte não basta dizer gosto ou não gosto, muito menos adjetivar com palavras indevidas e preconceituosas. 
O ICA também tem uma agenda de performances. Aqui vem o que considero mais importante no universo pós-moderno da arte: a arte híbrida. Como escreveu Lúcia Santaella “a comunicação e arte convergem”. Essa tendência contribui para expressar o mundo hoje, a pluralidade e velocidade da veiculação das informações, a manipulação das informações e das formações. A ideologia do consumo e da dependência de algo e até de alguém.
No Brasil temos uma série de instituições que trabalham com arte no contexto contemporâneo e/ou pós-moderno, por exemplo, o Inhotim em Minas Gerais que é um referencial significativo para formação, interação e lazer. No Porto, em Portugal, temos O Museu de Serralves que é um belo exemplo de instituição que quebra paradigmas, renova conceitos e contribui esteticamente para com a alfabetização visual. O Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, Espanha, também engrandece o debate sobre o tema pela riqueza que constitui o seu acervo e por suas belas exposições programadas.
Peça em exposição no Inhotim
Portanto o debate, a leitura e estudos são importantes na formação cidadã, até porque gosto se discute, sim.  E quem tem conhecimento tem vôos mais seguros e precisos sem ser dono da verdade absoluta; até porque o conhecimento e a humildade nos possibilitam entender que toda verdade é relativa, inclusive nos relacionamentos humanos e no universo da arte e da comunicação.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O universo da arte em contextos adversos

O universo da arte em contextos adversos
Carlos Cartaxo

O mundo nos expõem inúmeras imagens no nosso cotidiano. Infelizmente, na maioria das vezes, passamos despercebidos do que realmente deve ser visto. É a velha concepção de que se vê, mas não enxerga. Essa pouca percepção podemos considerar como sendo um dos elementos que compõe o analfabetismo visual, conceito inerente a educação visual e, consequentemente, ao mundo das artes. Portanto é sobre esse tema que trato agora.
É claro que essa questão é muito mais ampla, pois trata-se de leitura visual, por isso o termo analfabetismo visual; não obstante a complexidade,introduzo o debate com o intuito de ampliar esse conteúdo. Para superar essa, digamos deficiência, faz-se necessário trabalhar alguns sentidos, principalmente a visão. Todavia não basta estimular a visão, precisamos estimular a sensibilidade e a percepção para avançarmos na cognição. Só assim teremos um debate social maduro através da arte.
Pois bem, em recente visita ao Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque eu me deparei com inúmeras obras, principalmente esculturas e pinturas, com nu e fui direcionado a analisar o tratamento dado, por parte de grupos conservadores, sobre a exposição QueerMuseu realizada em Porto Alegre e a performance "La Bête" do MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo. Para os conservadores, arautos da "boa" moral, criança não pode entrar no Metropolitan e, tem mais, nem passar na calçada. Dentre as dezenas de obras com nu, talvez centenas, destaco o Sarcófago romano de mármore, datado de 220-230 d.C., e a imagem da calçada em frente ao Metropolitan. Complementando publico a imagem de um pedinte, branco, na esquina da famosa loja Macy's, considerada paraíso do consumo pela sua grandeza, preço e qualidade dos seus milhares de produtos.



Então, me resta refletir sobre o papel da arte na representatividade humana em sociedade. Nova Iorque mostra inúmeras faces da vida humana. É um espaço belo onde fervilham consumidores, trabalhadores e turistas curiosos. Nesse contexto reflito sobre que mundo a arte pode oferecer à formação intelectual, cultural e ética de uma criança. Para os conservadores e moralistas, a criança poder crescer vendo pedintes e miséria a olho nu nas ruas, mas não pode ver o nu, natural do ser humano, em museus. Lembro que museus e teatros são espaços públicos, mas fechados, onde os pais têm a liberdade e o direito sobre levar ou não seus filhos e que as obras artísticas não têm qualquer conteúdo erótico, diferentemente do que é visto cotidianamente nas televisões brasileiras.

 
Fruto dessa onda conservadora e retrógrada, inclusive na política, que vem se espalhando pelo Brasil, fui informado que um escola evangélica de Bayeux, na grande João Pessoa, reuniu os pais e mães para falar sobre o tema do nu e do cuidado que deve-se ter com a formação das crianças. Foi uma tarde doutrinária coordenada por um psicólogo evangélico. Para o debate tiveram como referência o ECA - Estatuto da criança e do adolescente. É claro que interpretaram o ECA em parte e de acordo com a concepção evangélica. A fonte da informação tem formação acadêmica e evangélica e defende, por exemplo, os homossexuais. No entanto, no final da conversa, ao falar sobre o tema, preocupada com a filha criança, condenou as ações artísticas, acima citadas, em nome da moral e dos bons costumes.
Para quem estuda e trabalha com arte, esses eventos só vêm reforçar a necessidade da arte se abrir, sair dos museus e galerias, teatros e auditórios, espaços fechados e burgueses, para permitirem uma formação plural através da educação visual. Tentar cercear as crianças de conhecerem o "mundo" naturalmente é formar pessoas com pouco conteúdo e sem leitura crítica, portanto submissas e alienadas . Aqui deixo a reflexão para os leitores e concluo que a arte é um universo cujo conteúdo nos situa e nos faz enxergar, além de ver, os contextos adversos que nos cercam.
Fotos do autor