Romance A família Canuto

Romance A família Canuto
Romance A família Canuto e a Luta camponesa na Amazônia. Prêmio Jabuti de Literatura.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Solha Criador e Criatura

 

Carlos Cartaxo


Quando eu iniciei na profissão de ensino de arte tive como uma das referências o livro “Recorte e colagem influência de John Dewey no Ensino de arte no Brasil“ da pernambucana Ana Mae Barbosa. É um trabalho que se volta para o desenvolvimento da percepção visual e expressão criativa. E, para minha felicidade, até hoje trago comigo estímulos para a cultura da visualidade, o que se fortaleceu com meu doutorado em artes visuais e educação na Universidade de Barcelona, na Espanha. A concepção sobre a abordagem triangular de Ana Mae, assim como o pensamento de John Dewey, me conduziram a uma conexão com a obra do multiartista W. J. Solha,  o que motivou esta publicação.



Eu sou um admirador do estado da Paraíba, como não poderia deixar de ser, afinal sou filho dele, pela significativa concentração de criadores no universo da arte e da cultura, seja nos centros de pesquisa nas universidades, nas oficinas e ateliês dos realizadores da cultura popular ou nas mesas dos escritores e pensadores da arte. Em todas as áreas encontramos artistas com criações e realizações que são motivo de admiração, dentre eles e elas, destaco W. J. Solha. Ao acompanhar o trabalho artístico e intelectual de Waldemar José Solha, o autêntico Solha, a partir do seu livro “Auto(bio)grafia de Solha”, me certifiquei do quanto admiro suas criações seja como pintor, escultor, escritor, diretor e/ou ator. Essa admiração vem, primeiramente, por causa do seu talento; segundo porque me identifico com suas realizações. Conheço algumas de suas obras literárias, no entanto, vou centrar no livro “Auto(bio)grafia de Solha” recortando e colando algumas passagens, as quais li e reli. Por ser irreverente esteticamente e convergente para com as várias expressões artísticas do autor, essa obra me contempla porque vejo a arte como expressão híbrida, tese que defendi no meu doutorado, por conseguinte me sinto representado por esse escrito de Solha.

 


Muita gente deve estar absorto com a escrita do título do referido livro, “Auto(bio)grafia de Solha”, mas, é isso mesmo! Solha é inventivo, além de artista é um pesquisador, artífice, um criador contumaz, que, até quando está parado, está em processo de plena criação. Sendo assim, sigo a radiografia de sua vida criativa e traço paralelos com meu trabalho como artista, escritor e como apreciador da arte. 

No primeiro exercício de recorte e colagem, aproximo minha história do teatro com a de Solha, fomos contemporâneos na realização de espetáculos em Parahyba. Vi em “Batalha de OL contra o Gigante FERR”, de 1986, um ensaio além da modernidade no teatro, uma quebra de paradigmas da encenação. A direção e atuação do elenco me marcaram; em especial a direção de arte, a maquinaria que pôs em cena uma nave espacial a partir das varas de iluminação. Como os recursos sempre foram, e continuam sendo, um dificultador do encantamento da realização teatral, as soluções técnicas, para quem tem pouco recurso, significa trabalhar com a subjetividade da criação, fazer do pouco ou nada a magia do encantamento cênico, soma-se a questão técnica o talento dos que constituíram e abrilhantam o elenco. Nesse sentido, Solha sempre foi um realizador exemplar.

O espetáculo “A verdadeira Estória de Jesus” foi outra realização em que o talento de Solha abriu as cortinas dos palcos paraibanos e do Brasil. No livro “Auto(bio)grafia de Solha” o autor cita:

“O cenário de “A verdadeira Estória de Jesus” era composto de duas torres e uma mesa… Quando o diálogo dos quatro evangelistas anunciavam que se ia rememorar a travessia do Mar Vermelho, havia um blecaute e, no reacender dos refletores, a cena… passa a ser vista pela plateia,… de cima, Dema e Tião já na horizontal, como se os dois canos laterais das duas torres fossem balaustradas de um par de píeres. Aí o Jorge (de repente Moisés), também na horizontal, suspenso um pouco acima da mesa, via Dema alarmando que o exército egípcio se aproximava e que eles estavam encurralados pelo Mar Vermelho (a cortina do teatro, vermelha, “abaixo” deles). Aí um tubo de luz surgia da entrada da plateia sobre o grupo, que ouça - olhando “para cima”, na verdade por cima do público, para a fonte do clarão - minha voz ampliada, dizendo as palavras de Jeová: Moisés, estende o seu cajado sobre o mar… e fende-o” Jorge fazia isso, … as cortinas do Teatro Santa Roza se abriam ao som da música imponente,... e a plateia… delirava. Acho que foi a criação mais aplaudida de meu teatro”1.



Os trabalhos cinematográficos de Solha deixo para os leitores pesquisarem, lerem e descobrirem, mergulharem nesse mar criativo, profundo e repleto de novas emoções e ensinamentos.  

A minha admiração pelo trabalho de solha se dá por causa da identidade criativa. Vai muito além de sua criação teatral e literária. O trabalho visual “Homenagem a Shakespeare” de 1997, exposta no auditório da reitoria da Universidade Federal da Paraíba, é uma revisitação à obra do dramaturgo inglês cuja apreciação deveria ser um preceito turístico e cultural de quem passa por Parahyba. 

O trabalho de Solha o faz criador e criatura. É uma pena que a efemeridade do teatro não nos permita rever as encenações de Solha. No momento, o alento é ler seus inúmeros livros e apreciar suas obras plásticas, sejam pinturas ou esculturas, espalhadas pelo mundo. 

É uma lástima que os provedores e gestores culturais, assim como o segmento turístico, não reconheçam as potencialidades artísticas da capital paraibana. Nesse sentido, uso o blog como registro dos criadores e criaturas do universo artístico paraibano. 


1 - Solha, W. J. Auto(bio)grafia de Solha. Cajazeiras: Arribaçã, 2023, pág. 199.

2 - Imagens da obra “Homenagem a Shakespeare” de 1997, expostas no auditório da reitoria da Universidade Federal da Paraíba.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Pié, a arquiteta restauradora e poetisa

  

Carlos Cartaxo


Descobrir coisas novas é muito bom e quando é surpresa torna-se maravilhoso! Foi assim na passagem do ano 2025 para 2026 quando descobri a poesia de Piedade Farias. Eu a conheci no final dos anos setenta para início dos anos oitenta, século XX; eu cursava engenharia mecânica na Universidade Federal da Paraíba e ela arquitetura. De fato não a conheci, apenas convivi, fomos contemporâneos nos estudos e na política; digo na política porque à época o Brasil estava sob a ditadura militar que iniciou em 1964. Um dos canais de formação e resistência ao período ditatorial, foi o movimento estudantil, do qual participamos, e, por conseguinte, teve um papel importante no processo de redemocratização do país e na nossa formação intelectual e ideológica.

  

Há Teorias que separam arte da política; todavia, há criadore/as artístico/as que trazem nas suas realizações a política como conteúdo inserido ao processo criativo. Esse é o caso de Piedade Farias, poetisa que passei a admirar. Aprecio sua poesia pela ligação com a cultura popular e com as causas sociais. Sua arte é suave, ritmada e politizada, sem perder a ternura, além de que, traz também humor e docilidade, características da escritora, conforme se constata na poesia “Corre da praça minha gente que agora a praça é dos crente” (p.113 do livro Cantares de obras).


Como professor da disciplina “Técnica e estética da voz”, no Departamento de Comunicação da Universidade Federal da Paraíba, trabalhei, metodologicamente, com poemas de três livros de Pié nos exercícios de leitura, entonação e inflexão de voz. Alguns poemas que os aluno/as escolheram foram: “A cor verde”, “A cor Branca”, “A cor azul”, “A cor preta”, do livro Arco-íris de alfenim; “Dia de inscrição para futuros alunos” do livro Cantares de obras; “A roda” do livro Balaio, Sinhá. Por coincidência eu também me identifico com os textos selecionados pelos alunos. Então, eu peço licença à autora, Pié Farias, para publicar aqui os poemas citados.


A cor verde


Veio um grilo sorrateiro

Nos meus cabelos morar

Era verde, todo verde

Vivia alegre a pular


Como eu ia lhe chamar?

Alegria ou Esperança,

Esperança ou Alegria…

Que nome eu ia lhe dar?

“Alegrilo”, eu chamaria.

Alegrilo, verde, verde…


Outro, passeando,

Num jardim cheio de verde

Fui carregando Alegrilo

Com seu jeito de ousar.

Alegrilo ia pulando

Pulando pra lá e pra cá.

E pulou dentro das folhas

Se confundindo com o verde!

Eu fiquei a lhe chamar:

Alegrilo, volte, volte…

Vê se não me faz chorar


Procurei de verde em verde

(E se quiser acreditar…)

Meus olhos ficaram verdes

De tanto verde olhar

Procurando Alegrilo.


Quem me ajuda a encontrar?


A cor branca

A cor branca vestiu roupa de fantasma

Ficando mais branca ainda.

Olhou-se no espelho:

Que susto!

Como estava branca!


Então começou a dar tapinhas

Nas suas próprias bochechas:

Por que não ficam rosadinhas?

Foi quando teve uma ideia;

E se eu me enfeitasse?

É. Talvez ganhasse um pouquinho de cor.

O espelho falou:

Quem sabe?


E ela então começou.


Pegou os sapatos da mãe

(aqueles que são bem altos),

Pegou a bolsa e o colar

E cinto igual aos sapatos.

Foi novamente ao espelho.

Nossa! Como ela é descuidada.

Pois não é que tinha posto

Sapatos brancos, tão brancos,

Bolsa, cinto... Tudo branco!

Até as continhas do colar! Coitada!

Ficou tão desapontada

Que perguntou:

E agora, que jeito eu dou?

Foi quando pensou, de leve:

一 Vou brincar de não ter cor.


E virou bola de neve.


A cor azul


Um menino estabanado

Derramou todo o tinteiro

Nas águas turvas do mar.


O mar virou espelho azul

Onde um barco deslizando

Convidava a navegar.


O céu achou esquisito

E veio olhar de pertinho

O que tinha acontecido.


Quando olhou viu refletido

Que também era azul,

De um azul muito bonito.


De azul, pintado o céu,

De azul, pintado o mar

Com um barco a deslizar.


O menino pensou rápido:

"Isso é muito divertido!"

E quis de azul se pintar.


A cor pretra


Quando é noite, a cor preta suspende pelos ares

O seu decote imenso de mistérios

E mares profundos

Onde navegam histórias antigas

De porões escuros, correntes,

Iaras, lobisomens,

Segredos de jurema, matas fechadas

E sacis pretos como a noite!


Contam que, na noite, se soltam os ventos maus,

O mar vira lamento,

A vida, engano.


A mãe pede:

一 É tarde. Dorme, filhinho.



一 Sua bênção, Papai do céu.

Sua bênção, Mamãe do céu.

Sua bênção, dindinha* Lua


A lua branca bóia no mar negro da noite.


(*"Dindinha" quer dizer Madrinha.)


Dia de inscrição para futuros alunos


Nesse tempo de agora

Chegam as meninas grávidas

Aos dezesseis ou dezessete anos

O filho pequeno lhe puxando a saia

Tudo é espanto

Em sua travessia ao futuro…

Também chegam os rapazes

De que lares?


A fila atinge rápido o fim do muro.


Sonha uma instrutora da Oficina

Com a igreja antiga enfim restaurada

E a escultura da praça novamente limpa


A forja (entre outros edifícios) resgatada.


Estranha sina:

Nem a instrutora sabe quanto aprende

Nem o aluno sabe que ensina…






A roda


Roda a roda na calçada

Sobre esse rastro de prata

Que a noite é de luar…


Anda, anda cirandinha

Uma canção vou cantar

Dê-me aqui a sua mão

Vamos todos cirandar…

Atiraram o pau no gato

Acertou em Terezinha

Credo em Cruz, que confusão!

A rosa brigou com o cravo

Naquele momento exato

Em que ela foi ao chão…


Essa é a primeira publicação do blog no ano de 2026, trabalho que me enche de regozijo porque falo da obra de Piedade Farias, poetisa, mulher engajada no universo literário e restauradora consagrada, de uma veia poética que alegra o mundo artístico. Viva Pié Farias e suas criações literárias que se multiplicam na internet através do grupo de WhatsApp Coletivo Anumará e que resultará, é o que esperamos ansiosos, em novos livros para deleite de todos nós!


Referências

FARIAS, Piedade. Arco-íris de alfenim. João Pessoa: A União, 2016.

一 Balaio, Sinhá. João Pessoa: Ideia, 2020.

一 Cantares de obras. João Pessoa: Mídia Gráfica e Editora, 2022.


sábado, 6 de setembro de 2025

Arte erótica

                                                                                    Arte erótica

Carlos Cartaxo


Um colega professor comprou o livro Morangos mofados de Caio Fernando de Abreu e foi surpreendido com o conteúdo que, por conseguinte, causou um impacto negativo, fato que o motivou a oferecer-me o dito livro, tendo em vista que sou um leitor compulsivo. Apesar da primeira edição, da referida obra, ter sido em 1982 pela Editora Brasiliense, eu ainda não tinha lido, a doação foi uma grata surpresa. O colega ao lê-lo não passou da nona página. Li, refleti e entendi o conteúdo da escrita de Caio Fernando de Abreu porque o contextualizei na década de 80, século XX, época de ditadura, luta por direitos civis, liberdade sexual, drogas e, naturalmente, entendi o impacto positivo que o livro teve quando foi lançado. Se o livro for lido pela ótica conservadora se torna uma obra agressiva aos “bons costumes”, principalmente aos valores morais que, em muitos casos, nos é imposto e são reforçados por algumas escolas, religiões e muitos outros grupos. 

            Eu entendo muito pouco de poema, mas, ouso dizer que o livro Ilha perdida de Porcina Furtado, o qual gosto muito, dá à poesia um brilho erótico, garantindo uma narrativa que nos apresenta sensações, desejos e emoções que trazemos no corpo e na mente pelo simples fato de sermos humanos. Contudo, ratifico que Ilha perdida não se olvida de nada, ao contrário, nele me acho e mergulho na sua narrativa que conduz à liberdade e as conquistas femininas. Nesse sentido, resgato a inglesa Mary Wollstonecraft que cobrou dos revolucionários da época que na Declaração dos Direitos do Homem haviam esquecido dos direitos das mulheres; então, ela não fez por menos e, em 1792 escreveu A Vindication of the Rights of Women  (Uma Reivindicação dos Direitos das Mulheres), tema tratado por Dietrich Schwanitz quando afirmou que depois de Wollstonecraft publicar o documento em defesa das mulheres, foi no cerne da questão: “Depois chocou toda Europa insistindo no direito das mulheres à satisfação no coito” (Schwanitz, 2012, pág. 454).

 

Como contraponto vou à história da arte para alicerçar a naturalidade da sexualidade humana e sua expressão através da arte. A leitura dos livros citados suscitou mais uma reflexão sobre arte, sexualidade e erotismo. 

Perguntar é uma forma de aprender e esclarecer: até onde vai o conservadorismo, o desrespeito, a falsa moral, enfim, a rejeição ou aceitação de algo que existiu, existe e existirá, que é o comportamento moral ou amoral da sexualidade humana no contexto social? A avidez deve ser tratada com naturalidade ou com hipocrisia?

Para os desavisados, é importante ressaltar que arte erótica não é pornografia, não é uma expressão explícita de intimidade, de atos ou inconveniências sexuais. A arte erótica, nas suas mais diversas expressões, representa a beleza estética e sentimental, figurativa e simbólica, através da linguagem da arte, que traz consigo reflexões, críticas e projeções identitárias no que concerne à sexualidade sem pudor ou falsa moral.

Um bom exemplo é a perfeição da escultura David de Michelangelo, cujo original está na Galeria da Academia de Belas Artes de Florença, Itália, mas, tem reproduções distribuídas por todo o mundo.


Foto: Léia Lopes, réplica de David de Michelangelo do Instituto Ricardo Brennand, Recife - PE, Brasil.


No universo da arte existem inúmeros exemplos de trabalhos artísticos que, na essência, podem ser considerados arte erótica. Em toda linha do tempo há obras que comprovam que a arte e a sexualidade sempre andaram de mãos dadas, por exemplo, na Capela Sistina há o afresco do Juízo Final, pintura de Michelangelo, onde havia imagens nuas. A história registra particularidades com a informação de que após a morte do pintor, o Papa Pio V, em nome da pureza, ordenou que Daniele Volterra repintasse a referida obra para cobrir as genitálias à vista das personagens existentes no Juízo Final.  

Foto: publicação do G1 a partir do Site do Vaticano


Outro exemplo é o trabalho teatral de Zé Celso no Teatro Oficina, em São Paulo, que sempre teve muita repercussão por suas rupturas e exposições eróticas, inclusive, dividia a sociedade por onde passava. Além de criativo e profundo conhecedor do teatro, Zé Celso criou espetáculos irreverentes, com viés político, crítica social e em defesa de uma sociedade plural, justa e igualitária. Teoricamente ele transitou de Konstantin Stanislavski ao teatro experimental. Por princípio ele sempre foi um diretor polêmico. O artigo “Ponto | Zé Celso e as bananas profanas”, publicado  em: 12/11/2013 | colocava que

A cidade de Araraquara, localizada no interior de São Paulo, nunca irá esquecer o mês de junho de 1995. Naquele mês, o consagrado diretor teatral José Celso Martinez Corrêa voltou à sua cidade natal com seu mais novo trabalho: “Mistérios gozosos”, adaptação de um poema de Oswald de Andrade, “O santeiro do mangue”.

Sem mesuras, nem limites seu trabalho se pautava em ideias que propiciavam montagens que continham altas doses de ironia, sátira, crítica e muitas cenas polêmicas de nús e rompimentos de fronteiras do corpo e, por conseguinte, de gestos e expressões provocantes. Zé Celso foi mestre em trazer a arte erótica para dentro do seus espetáculos fazendo-os fontes de curiosidades de prazeres e de condenações. Soube como ninguém provocar, romper barreiras conservadoras e expor através da arte toda profundidade, aceitável ou não , da sexualidade humana.

Nesse mesmo blog, eu escrevi o artigo A arte na (de) rua de Igor Mitoraj, publicado em maio de 2024, sobre o nu da obra pública desse artista, exposta nas ruas de Barcelona, Espanha. Esse escultor polonês trabalhava com metal e levava suas enormes esculturas das galerias e museus para as ruas. Suas obras sempre impactaram por onde passou. A postagem do meu blog teve centenas de visualizações, o que ratifica a projeção e a aceitabilidade do nu nas obras artísticas, ou como queiramos, da arte erótica.

Foto: Carlos Cartaxo


Também já escrevi no meu blog sobre poetas, as quais eu tenho suas obras, destaco Porcina Furtado que escreve com alma feminina, fineza e leveza erótica, por isso merece voltar a ser citada; então, eu peço licença a autora para publicar aqui seu poema Mata:


A copa das árvores dançava enlouquecida

No jardim de cactos e espinhos

Flores caem pelo chão


A gárgula observa com a mão no queixo

A lua vigia sua chegada

Frida fareja seu cheiro


Arrepio com esse vento leste

Uma taça de vinho sobre a mesa

Os olhos do vento tocam meu corpo


Suas mãos encontraram a mata

Entrava e saia de dentro de mim.

                                              (Furtado, 2021, pág. 83)


Para quem se interessa pelo tema, sugiro ler a Francesa Catherine Millet que, além de escrever a autobiografia A Vida Sexual de Catherine M., lançado em 2001 com sucesso absoluto, pesquisou e escreveu sobre simbologias sexuais na obra do artista catalão Salvador Dali, direcionando a pesquisa às artes plásticas, contudo, com foco no erotismo explícito na obra do artista espanhol. Dali teve uma vida sexual repleta de incongruências, características expressas pela sexualidade onírica representadas na sua consagrada obra surrealista.

Diante da beleza da arte erótica e da amplitude de seus encantos e rejeições, destaco que socialmente nos têm sido imputado o medo como o bicho papão que mudará nossa rota da salvação. O medo tem servido para esconder, forjar e criar barreiras, cujas análises são ancoradas em crendices, comparações, credibilidades, desejos e até prazeres. A doutrina do medo representa valores conservadores, de falsa moral, que surgem como fragmentos de dúvidas quando representadas através da arte erótica, expressão puramente humana. Daí vem a censura, a condenação e o envio direto para o fogo do inferno. Além de estigmas e rótulos, a arte erótica ainda será e, possivelmente, sempre será álibi para sonhos, desejos e fantasias dos humanos, seres portadores da capacidade de pensamento.


Referências

Abreu, Caio Fernando. Morangos mofados.São Paulo, Editora Brasiliense, 2019.

Furtado, Porcina, Ilha Perdida. Cajazeiras: Arribaçã, 2021.

Millet, Catherine. A vida sexual de Catherine M. Rio de Janeiro, Ediouro, 2001.

Schwanitz, Dietrich. Cultura: tudo o que é preciso saber. Alfragide, Portugal, Ed. Leya, 2012.

https://www.spescoladeteatro.org.br/noticia/ponto-ze-celso-e-as-bananas-profanas

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/06/vaticano-quer-proteger-afrescos-de-michelangelo-na-capela-sistina.html