Romance A família Canuto

Romance A família Canuto
Romance A família Canuto e a Luta camponesa na Amazônia. Prêmio Jabuti de Literatura.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Machismo e memória

 


Machismo e memória

 

Carlos Cartaxo

 

Escrever tem sido minha primeira atividade prazerosa; a segunda é ler; a terceira é dar aulas; a quarta é proferir palestras; a quinta é viajar; a sexta é visitar museus e por aí vai. Esses fazeres é a melhor formar de haurir os imbróglios interiores que trago comigo ou que surgem no meio das nuvens escuras do interior do meu ser. Penso que essas atividades deveriam ser prazerosas para todo mundo, para todo sujeito que traga consigo um coração cambaleante para descobertas e dúvidas que ruminam na nossa consciência. Claro que não precisa ser, necessariamente, na mesma ordem de majoração do meu deleite, da aprendizagem que gosto de desfrutar. Mas no Brasil, infelizmente, nesse início de século XXI, essas atividades, principalmente a leitura, estão em baixa; estão sob o silêncio da sola de quem não sabe onde pisar. Não obstante a lógica de uma sociedade culta, onde buscar conhecimento é uma escolha cotidiana, aqui no Brasil nem todo mundo tem essas atividades como fonte de prazer. Como enfretamento a essa vazio, continuo acreditando que a formação cultural é o alicerce estrutural das sociedades desenvolvidas, tendo em vista que essa tem sido a trajetória evolutiva de transformação do ser humano desde a Grécia antiga. Infelizmente, como a chuva que se sabe que vai cair no verão, à ascensão do fascismo, neonazismo e de valores como ódio, racismo e preconceito tem surgido e difundido a propagação da violência e consequente retrocesso evolutivo da humanidade.

Em 2020 eu não pude realizar todas as atividades planejadas, como a maioria das pessoas que pretendia fazer e não viram a flor se transformar em fruto. Contudo, escrever, ler, dar aulas e viajar, sim, consegui executar mesmo de forma precária; ministrar palestras e visitar museus, não, obviamente por causa da indesejada pandemia do coronavirus que fez desabrochar a Covid-19. Aqui cabe explicar que ainda consegui viajar porque fui em dezembro de 2019 realizar uma pesquisa sobre imigrantes brasileiros nos Estados Unidos da América e só retornei em fevereiro de 2020. Ao chegar ao Brasil, logo em seguida, os aeroportos fecharam as portas e cortaram as asas das aeronaves para evitar que o vírus continuasse a adentrar as vielas do país espalhando a Covid-19, como o vento faz com as flores para semear novas vidas. Então, por ser do grupo de risco, afinal já tenho 61 anos, fiquei isolado em casa, saindo apenas para o estritamente necessário. Por esse motivo, dentre as atividades que realizei em 2020, a leitura e a escrita foram determinantes para minha profissão e meu lazer seguro no isolamento do meu ninho residencial.

Quando eu estava nos Estados Unidos da América, aproveitei parte do tempo para concluir um romance sobre violência doméstica que eu vinha trabalhando há alguns anos. Esse livro é resultado de uma densa pesquisa com vítimas de violência doméstica; e de uma revisão interior sobre a educação machista que me foi incutido desde criança. A leitura, exercício cotidiano da minha vida, tem sido responsável por essa revisão crítica dos meus procedimentos equivocados fruto da educação patriarcal a qual fui vítima. Claro que esse acúmulo de conhecimento atingiu o âmago da minha sensibilidade e tem provocado uma constante revisão da minha história de vida. Aqui, a memória tem sido um fator histórico que tem despertado em mim reflexões e a necessidade de reeducação e, consequente, ação quanto ao combate e correção do machismo incutido na sociedade brasileira.

Dentre os livros que li e contribuiu para minha reeducação, São Bernardo, de Graciliano Ramos, foi marcante porque trata da cultura machista que permeia o personagem Paulo Honório. O autor iniciou a escrita dessa obra em 1932, mas a publicação se deu em 1936, período em que a cultura machista era reconhecida e, em parte, estimulada até pelas igrejas. A grandiosidade de Graciliano Ramos demonstra que há 89 anos ele já escrevia expondo o machismo como um problema de ordem familiar e social que, pela gravidade, se tornou caso de polícia e de justiça. O outro foco que compõe a dualidade dramática do romance é o capitalismo que se consolidou na cultura do coronelismo brasileiro que perdurou, como a fortaleza e resistência do xiquexique, por séculos e que, até hoje, se mantém como elemento presente na política nacional. Poder, domínio, controle, medo, desafio são fatores que o capitalismo trás na sua essência, assim como o machismo. A relação entre machismo e capitalismo faz parte da constituição da personagem Paulo Honório, habilidosamente construído por Graciliano Ramos. O elemento que consolida essa relação é a propriedade. Na concepção da personagem, propriedade é poder, seja a posse de uma fazenda, seja posse sobre a mulher e por extensão à família. A partir da consolidação do namoro e do casamento o sentimento de posse mantém a solidez do poder, logo do domínio, como uma fortaleza de pedras, irredutível e irremovível, no seio das famílias.


                                                                                Foto: Internet

A maturidade me deu a oportunidade de me descobrir e caminhar pelo âmago do meu ser. Após essa purgação pude perceber que há 40 anos luto contra o machismo que me foi implantado quando da minha tenra idade de criança. No romance São Bernardo pude conectar o machismo de Paulo Honório com o machismo que objetivamente faz parte do conflito do meu romance, ainda inédito, com o machismo que combato ferrenhamente porque trago comigo há décadas. Esse somatório de informações me fez despertar para a consciência de que a cultura machista ainda impera no seio de muitas sociedades e, por esse motivo, devemos lutar para combatê-lo. Essa é uma luta que deve começar na infância, por conseguinte a escola é uma instituição que deve encampar essa batalha como conteúdo programático; afinal os atos machistas atentam contra a vida; contra a liberdade; e, portanto, contra os direitos humanos.

O machismo está presente em todos os seguimentos sociais, entre homens e mulheres, crianças e adultos; e vem há anos cavalgando, alimentando mentes e corações que insistem e ser regidos pelo descompasso do falso amor. Certamente muita gente trás na memória alguma experiência machista vista ou vivida. Por exemplo, ao saber o sexo do filho ou filha prestes a vir ao mundo, começa a implantação da cultura machista quando se escolhe a cor azul ou rosa para comunicar o sexo do bebê. É uma prática que se pode dizer “natural” no universo familiar conservador; isso acontece em vários países pelo mundo.

O outro livro que nos leva a reflexão sobre o patriarcalismo, braço opressor e condutor do machismo, é o romance Liturgia do fim, de Marília Arnaud. Aqui a literatura também põe no discurso do narrador, principal personagem, a memória de ser um oprimido no seio da família, dentro de casa, e, posteriormente, um opressor na trajetória de sua própria vida. Os personagens do filho, Inácio e do pai, Joaquim Boaventura, são os vetores sequenciais na escalada reprodutiva do machismo, ficcionado por Marília Arnaud, que traça o fio memorial de histórias de vidas e da opressão sobre a mulher no berço da familiar. Essa avalanche hereditária da opressão patriarcal precisa ser barrada pelos caminhos da cultura e da educação. É um trabalho árduo que deve começar na família, todavia diante do pouco nível de leitura por parte da sociedade, principalmente das classes menos favorecidas, a educação é que deve adotar esse conteúdo em todos os níveis do currículo escolar, trazendo para si essa causa que é de toda sociedade.


                                                                            FotoÇ Internet

O machismo é um comportamento citado na literatura há muito tempo. Enquanto naus navegavam singrando mares entre os continentes, no final do século XV, em pleno Renascimento, início do século XVII, mais especificamente em 1603, Wiliam Shakespeare escreveu a tragédia Otelo. Nesse trabalho, o autor inglês criou a trama, cuja estrutura conflituosa foi trabalhada a partir de fuxicos criados por um assessor de Otelo, que trouxe à cena a desconfiança sobre a fidelidade de sua amada Desdêmona. O ciúme, estimulado pelo machismo, levou a um fim trágico a relação amorosa do casal. Dietrich Schwanitz sintetiza essa obra de Shakespeare afirmando: “Otelo, o negro de Veneza, marido da bela Desdêmona, incitado aos mais violentos ciúmes pelo diabo personificado em Iago, um intriguista maquiavélico cuja maldade despropositada nos inspira o mais genuíno horror” (SCHWANITZ, 2012, P. 260). Iago jogou a centelha venenosa que ateou fogo no machismo do general mouro Otelo, germinando nele um sentimento encolerizado pela sensação de empoderamento e posse que imaginava ter sobre a amada, levando-o a assassiná-la, tornando cinzas o amor que tanto lhe regozijava. A literatura shakespeariana atiça a memória e nos conduz a ilação de que a violência doméstica, o machismo, assim como o ciúme e, consequentemente, o sentimento de posse são tão antigos quanto as mais remotas lembranças passadas da humanidade.


                                                                                Foto: internet

Os diversos gêneros literários podem nos fornecer listas homéricas de obras que abordam o tema, que não vem ao caso listá-las aqui; isso fica para quem pesquisa o assunto. Não obstante, devo registrar que há movimentos sociais engajados nessa questão, que trabalham com a determinação da força do vento em uma tempestade, tornando o tema em pauta o centro de um debate que exige mudança urgente nas relações sociais no seio familiar, no que tange a violência doméstica e a eliminação do machismo através da educação. Essa é uma luta que tem alcançado vitórias, principalmente no que concerne às leis. Só que apenas leis e a judicialização da questão, que é comportamental, não são suficientes para frear esse descompasso social que há séculos assola famílias e vidas. E nós, seres machistas e vítimas do machismo, temos a obrigação moral de resgatar nossas memórias para se reeducar, superar, reconstruir conceitos e procedimentos que resistam à cultura do machismo e, consequentemente, da violência doméstica. Os índices sobre violência doméstica são assustadores, altíssimos; números que relampejam as estatísticas e põem em dúvida todo o conceito de civilidade. Os relatos e as constatações nas delegacias das mulheres e no judiciário têm sido pauta diária nos meios de comunicação e, consequentemente, revolta por parte dos mais esclarecidos. Não obstante essa realidade, a velocidade galopante da violência doméstica continua como se nada estivesse acontecendo, como se tratasse de um cavalo a lado perdido no tempo. Até parece que não há memória história na sociedade sobre essa matéria. Portanto, educação é a palavra de ordem para se espalhar, como flores na primavera, e alcançar novas vitórias, consolidando a paz nas famílias e a evolução tão almejada da humanidade.

 

Referências

ARNAUD, Marília. Liturgia do fim. São Paulo: Tordesilhas, 2016.

RAMOS. Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1989.

SCHWANITZ, Dietrich. Cultura – Tudo o que é preciso saber. Alfragide, Portugal: D. Quixote, 2012.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Essa escola não serve

 Essa escola não serve

Carlos Cartaxo

 

Eu estava em um programa de rádio em Parahyba para debater sobre o orçamento para educação no estado da Paraíba no ano de 2017 quando fui surpreendido, no intervalo, por um entrevistador que criticou a escola e queria saber minha opinião por esta não está mais reprovando os discentes, ou seja, passa todo mundo. Ele também foi surpreendido quando respondi com uma pergunta: quem disse que a escola é para reprovar? A escola é para educar, formar cidadãos e cidadãs. Contudo, se a escola não está formando com eficiência é irresponsável culpar apenas o/a discente. Esse é um dos argumentos da minha tese de doutorado publicada no Livro “Amor invisível – artes e possibilidades narrativas”. É uma tese sobre arte e educação que aborda sobre a escola na sua amplitude de conteúdos, principalmente a arte, e a realidade da educação no contexto pós-moderno. A tese situa a escola que ainda é moderna no contexto pós-moderno. É uma radiografia que detecta as contradições materiais e pedagógicas em que a educação se encontra e expõe seus discentes dificultando, porque não dizer, inviabilizando a aprendizagem.



A escola, de modo geral, não tem equipamentos técnicos como projetores e/ou equipamentos tecnológicos na sala de aula, sala de cinema, auditório e ou teatro, espaço cultural para arte, quadra esportiva de qualidade e material de trabalho. Parece surreal, mas há inúmeras escolas que não têm papel higiene e água nos banheiros; algumas não têm banheiro! Com essas condições, como exigir disciplina, motivação e aprendizagem dos alunos? As boas condições materiais são condicionantes necessárias para se alcançar os bons resultados desejados à educação. É necessário que todo material, tanto de consumo como técnico, seja de qualidade e acessível a todos os profissionais e os discentes.

Como um organismo que deve ser e se manter vivo, a escola precisa alimentar seus profissionais com constantes atualizações. Exigir formação qualificada só dos professores é muito pouco; é necessário fazê-lo da gestão como um todo, passando pela merendeira, o pessoal da limpeza e manutenção até a portaria. Todo o corpo profissional deve ser atualizado anualmente. A escola deve ter missão, objetivos e metas que devem ser planejadas coletivamente e renovadas para serem cumpridas anualmente; para que esse procedimento se efetive é preciso condições materiais e recursos financeiros. Essa propositura me faz lembrar o musical, belo e primoroso, “Os miseráveis” de Victor Hugo que assisti em janeiro de 2020 em Massachusetts, nos Estados Unidos da América, produção da Framinham High School Drama Company. O detalhe memorável é que era um trabalho de ensino médio. A escola tem um teatro de primeiríssima qualidade com todos os recursos técnicos de um teatro profissional. Saí do teatro muito grato a Luiz Madrid, poeta, e sua esposa Michelle Stavola da Costa, professora e gestora escolar em Framinham, Massachusetts, que me convidaram para ver o espetáculo. Esses agradecimentos são dirigidos também aos aluno/as que comporam o elenco com qualidade técnica de intérpretes e cantore/as excepcionais. Citar um trabalho artístico dos EUA quando poderia citar um brasileiro parece um paradoxo. Cito porque os projetos desenvolvidos em escolas brasileiras deveriam ter apoio e condições materiais e financeiras que impulsionasse a escola com o fim de alcançar resultados qualitativos de excelência. Jamais conseguiremos a qualidade técnica de um trabalho daquele nível em uma escola que não tenha condições materiais, financeiras e pedagógicas para o ambiente educativo aprazível e motivador.



A arquitetura da escola é outro componente ultrapassado. Há décadas que a arquitetura escolar é projetada de forma geométrica igual a presídios. São quadrados, com as carteiras disposta em filas onde o/as aluno/as ficam um/a atrás do/a outro/a. Em muitos casos, a distribuição do/as aluno/as se dá pelo desenvolvimento cognitivo e/ou social dos discentes. Os “melhores” se sentam na frente, os bagunceiros atrás ou os mais altos atrás ou menores na frente. Esse arranjo físico é seletivo e propicia preconceitos e discriminação. A forma dinâmica que a natureza nos dá é a circular. É a forma da terra, das frutas, do sol, da lua, da nossa cabeça, dos nossos órgãos; enfim, a vida é delineada por curvas, todavia, a arquitetura da escola é quadrada. Essa geometria “curralesca” foge da lógica da visão ocular que é circular, portanto é mais um paradigma que dificulta a lógica do processo educativo. O quadrado escolar é um paradigma difícil de quebrar. Ele se apresenta como uma regra. Quando se vai construir um edifício para a prática educativa, tanto o projeto arquitetônico como o financeiro são condicionados a serem pensados de forma quadrada. São pessoas que entendem muito pouco de educação, assim como de motivação. O resultado disso é que essa escola que temos não serve!

Quanto aos currículos, os conteúdos se repetem com base em metodologias que também se repetem. Projetos são necessários à vida escolar. Não obstante a existência, são poucos e quando há, são implantados com muitas dificuldades. Em muitos casos com recursos do corpo docente. Esse emaranhado de despreparo dificulta o que é essencial no ensino-aprendizagem: inovação. Existem inúmeros estudos sobre currículo. Esse debate é constante e vertente nas universidades, faculdades, secretarias estaduais e municipais de educação. Entretanto a aplicação dessas teorias só faz sentido se existir condições materiais, financeiras e nova contextualização da escola no universo pós-moderno, caso contrário: essa escola não serve, continuará sem chegar a lugar nenhum, ou seja, apresentando índices baixíssimos desde a evasão escolar à aprendizagem.

A pós-modernidade alimenta a individualização do sujeito. O consumo, assim como a estética do olhar apenas para si, isola as pessoas do seu entorno e do pensar e viver de forma coletiva. Por conseguinte, precisamos conhecer essa realidade para compreender e colocar a diferença de classe no seio desse debate. Esses sujeitos imersos, sem autorização, no contexto pós-moderno são os mesmos que constituem a comunidade escolar. Essa realidade exige que a instituição condutora da aprendizagem debata no seu seio a diferença de classe como se fosse um componente químico que separa partículas e quebra a cadeia química do componente escolar. A sociedade está dividida em classes; essa é uma realidade irrefutável. Essa lógica econômica e social é mais um paradigma que precisa ser visualizado e quebrado na escola. A família que está situada na miséria tem uma realidade diferente daquela que está na pobreza e completamente diferente daquela de classe média que não falta comida na mesa e os filhos vão à escola de carro. Esse quadro apresenta valores morais e de conflitos familiares complexos, porém diferentes. Essa realidade chega à escola e trás consigo um notório quadro de desigualdade econômica, educativa e cultural. Então não é possível pensar, planejar e administrar a escola sem considerar a diferença real dos sujeitos ativos no ensino e na aprendizagem.

A escola deve ser o espaço para perguntas e não, necessariamente, para respostas. O sistema de comunicação existente na escola é retrógado. Em muitos casos ainda funciona o bilhetinho para os pais e alguns pais não sabem ler ou não tem tempo e interesse para ler. É como se a escola fosse um depósito de tempo para seus filho/as ficarem. Essa dicotomia que distancia a família da escola é a mesma individualização do sujeito que distancia os filhos dos pais e vice-versa. São mundos distantes e diferentes, é apartação da pós-modernidade. O contexto do pós-modernismo, digo o hoje, se caracteriza por ser plural, aberto e dinâmico, logo susceptível a questionamentos e debates, exatamente o contrário do que é a escola hoje. É como se a educação fosse uma área do conhecimento criado e alimentado por um outro mundo. O que não pode ser esquecido é que nosso mundo é simbólico; portanto essa é uma questão cultural, real, que a escola moderna não consegue trazer para si, muito menos se inserir; de modo que sou induzido à ilação de que essa escola realmente não serve. Felizmente temos profissionais que trabalham na construção de uma escola diferente. Esse é um alento utópico cuja bandeira deve ser erguida cotidianamente.   

 

 

Referências

CARTAXO, Carlos. Amor invisível: artes e possibilidades narrativas. João Pessoa, Editora do CCTA, 2015.

GOODSON, Ivor F. El cambio e El currículum. Barcelona: Octaedro, 2000.

JAMESON, Frederic. Posmodernismo y sociedad de consumo. In La posmodernidad. Barcelona: Cairos, 1986.

 

Foto : https://www.metrowestdailynews.com/photogallery/WL/20200109/NEWS/109009978/PH/1 (Os miseráveis)



This school does not serve

 

Carlos Cartaxo

 

 

               I was on a radio program in Parahyba to discuss the education budget in the state of Paraíba in 2017 when I was surprised, at the break, by an interviewer who criticized the school and wanted to know my opinion because it is no longer failing students students, that is, everyone passes by. He was also surprised when I answered with a question: who said the school is to fail? The school is to educate, train citizens. However, if the school is not training efficiently, it is irresponsible to blame only the student. This is one of the arguments of my doctoral thesis published in the book “Invisible love - arts and narrative possibilities”. It is a thesis on art and education that addresses the school in its breadth of contents, mainly art, and the reality of education in the postmodern context. The thesis places the school that is still modern in the postmodern context. It is a radiography that detects the material and pedagogical contradictions in which education is found and exposes its students, making it difficult, why not say, making learning unfeasible.

        The school, in general, does not have technical equipment such as projectors and / or technological equipment in the classroom, cinema room, auditorium and or theater, cultural space for art, quality sports court and work material. It seems surreal, but there are countless schools that lack toilet paper and water in the bathrooms; some don't have a bathroom! With these conditions, how to demand discipline, motivation and learning from students? Good material conditions are necessary conditions to achieve the good results desired for education. It is necessary that all material, both consumer and technical, be of quality and accessible to all professionals and students.

        As an organism that must be and stay alive, the school needs to feed its professionals with constant updates. Requiring qualified training only from teachers is very little; it is necessary to do this from the management as a whole, passing through the lunch box, the cleaning and maintenance personnel to the concierge. The entire professional body must be updated annually. The school must have a mission, objectives and goals that must be planned collectively and renewed to be met annually; for this procedure to take effect, material conditions and financial resources are needed. This proposal reminds me of the musical, beautiful and exquisite, “Os miserables” by Victor Hugo that I watched in January 2020 in Massachusetts, in the United States of America, produced by the Framinham High School Drama Company. The memorable detail is that it was a high school job. The school has a top quality theater with all the technical resources of a professional theater. I left the theater very grateful to Luiz Madrid, a poet, and his wife Michelle Stavola da Costa, a teacher and school manager in Framinham, Massachusetts, who invited me to see the show. These acknowledgments are also addressed to students who compose the cast with exceptional technical quality of interpreters and singers. Citing a US artwork when it could quote a Brazilian seems like a paradox. I mention why the projects developed in Brazilian schools should have support and material and financial conditions that would boost the school in order to achieve qualitative results of excellence. We will never achieve the technical quality of a job at that level in a school that does not have material, financial and pedagogical conditions for the pleasant and motivating educational environment.



            The school's architecture is another outdated component. For decades, school architecture has been designed in a geometric way like prisons. They are square, with desks arranged in rows where the student is one behind the other. In many cases, the distribution of the student is due to the cognitive and / or social development of the students. The "best" sit in the front, the messy in the back or the tallest in the back or the smallest in the front. This physical arrangement is selective and provides prejudice and discrimination. The dynamic form that nature gives us is circular. It is the shape of the earth, the fruits, the sun, the moon, our head, our organs; in short, life is outlined by curves, however, the school's architecture is square. This “curralesque” geometry differs from the logic of ocular vision, which is circular, so it is yet another paradigm that hinders the logic of the educational process. The school square is a difficult paradigm to break. It presents itself as a rule. When building a building for educational practice, both architectural and financial design are conditioned to be thought out in a square way. They are people who understand very little about education, as well as motivation. The result of this is that this school we have does not serve!

            As for the curriculum, the contents are repeated based on methodologies that are also repeated. Projects are necessary for school life. Despite their existence, they are few and when they exist, they are implemented with many difficulties. In many cases with faculty resources. This tangle of unpreparedness hinders what is essential in teaching and learning: innovation. There are numerous studies on curriculum. This debate is constant and ongoing in universities, colleges, state and municipal education departments. However, the application of these theories only makes sense if there are material, financial conditions and a new contextualization of the school in the post-modern universe, otherwise: this school does not serve, it will continue without getting anywhere, that is, presenting very low rates since school dropout the Learn.

            Postmodernity feeds the individualization of the subject. Consumption, as well as the aesthetics of looking only at oneself, isolates people from their surroundings and from thinking and living collectively. Therefore, we need to know this reality in order to understand and place the class difference within this debate. These subjects immersed, without authorization, in the postmodern context are the same ones that constitute the school community. This reality requires that the institution that conducts the learning debate within the class difference as if it were a chemical component that separates particles and breaks the chemical chain of the school component. Society is divided into classes; this is an irrefutable reality. This economic and social logic is yet another paradigm that needs to be viewed and broken at school. The family that is located in poverty has a different reality from that in poverty and completely different from that of the middle class that does not lack food on the table and the children go to school by car. This picture presents complex but different moral values ​​and family conflicts. This reality reaches the school and brings with it a notorious picture of economic, educational and cultural inequality. So it is not possible to think, plan and manage the school without considering the real difference of the active subjects in teaching and learning.

        The school should be the space for questions and not necessarily for answers. The school's existing communication system is retrograde. In many cases the note still works for parents and some parents do not know how to read or do not have the time and interest to read. It is as if the school is a deposit of time for your children to stay. This dichotomy that distances the family from the school is the same individualization of the subject that distances the children from the parents and vice versa. They are distant and different worlds, it is a separation from postmodernity. The context of postmodernism, I say today, is characterized by being plural, open and dynamic, therefore susceptible to questioning and debate, exactly the opposite of what school is today. It is as if education is an area of ​​knowledge created and fed by another world. What cannot be forgotten is that our world is symbolic; therefore, this is a real cultural issue that the modern school cannot bring to itself, let alone insert itself; so I am led to the conclusion that this school does not really serve. Fortunately we have professionals who work on building a different school. This is a utopian breath whose flag must be raised daily.


References

CARTAXO, Carlos. Amor invisível: artes e possibilidades narrativas. João Pessoa, Editora do CCTA, 2015.

GOODSON, Ivor F. El cambio e El currículum. Barcelona: Octaedro, 2000.

JAMESON, Frederic. Posmodernismo y sociedad de consumo. In La posmodernidad. Barcelona: Cairos, 1986.

https://www.facebook.com/fhsdramacompany/photos/?ref=page_internal


Photograph: https://www.metrowestdailynews.com/photogallery/WL/20200109/NEWS/109009978/PH/1 (Os miseráveis)

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Livros de autoria de Carlos Cartaxo

 Livros de Carlos Cartaxo

 

  1. Amor invisível: artes e possibilidades narrativas, 2015.
  2. Contatos, 2014.
  3. Geraldeando, 2010.
  4. Teatro determinado, 2009.
  5. Teatro de Atitudes, 2005.
  6. O Ensino das Artes Cênicas na Escola Fundamental e Média, 2001.
  7. A família Canuto e a luta camponesa na Amazônia, 1999



 

Livros - participação em coletâneas

 

  1. Teatro na Educação: caminhos e desafios (Coletânea de Artigos), 2015
  2. Arte-educação: história e práxis pedagógica – territórios híbridos e diálogos entre linguagens (Coletânea de artigos), 2012.
  3. Contos de Sábado (Coletânea de contos), 2012.
  4. Histórias de Sábado (Coletânea de contos), 2008.
  5. Sonho de Feliz Cidade (Coletânea de contos), 2007.
  6. Ação Educativa para Cidadania (Coletânea de artigos), 2007.

 


 

A Família Canuto e A Luta Camponesa na Amazônia, 1999 (Romance/Reportagem agraciado com o Prêmio Jabuti de Literatura da Câmara Brasileira do Livro em 2001).



segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

O Estrangeiro e a Cidade

Carlos Cartaxo

“The Stranger and the City", O Estrangeiro e a Cidade é a performance que apresentamos essa semana em Framingham, Massachusetts, nos Estados Unidos da América. Framingham é uma cidade que tem em torno de vinte e cinco mil brasileiros; realidade brasileira com vitórias e fracassos no contexto real norte-americano. É claro que, nesse quadro, muitas personagens se tornam marcantes porque trazem consigo a cultura brasileira, inclusive regional, de desbravamento e resistência e, em alguns casos, de analfabetismo funcional que forçosamente tem que se adaptar, viver e conviver com outra realidade, na maioria das vezes, difícil, dura e árdua.

Foto; Zoe Salvucci

Então, o que faz uma pessoa que trabalha com arte, educação e comunicação no Brasil, sair de sua casa, sua zona de conforto, em pleno verão, para desbravar horizontes e tentar descobrir novos sentidos, olhares e sentimentos?
Essa questão não tem resposta pronta; só sei que essa não é a primeira vez. Em 2011 saí para trabalhar com teatro, por dois meses, em Luanda, angola. Foi uma experiência ímpar tendo em vista a gana, o talento e determinação dos irmãos e irmãs, atores e atrizes, angolano/as. Em 2015 levei para Portugal e Holanda o monólogo “Anayde Beiriz – história a ser contada” produzido pela ADUFPB e o Suspensório Produções Artísticas e agora vim fortalecer o projeto “Babel Theater Project” que montou a performance “O Estrangeiro e a Cidade” em Framingham, Massachusetts.
Foi com o ímpeto de desbravador, pesquisador que não tem medo de ir à busca de novas informações, que deixei minhas férias de verão em Parahyba para vir pesquisar sobre histórias de vidas de brasileiros nos Estados Unidos da América. Os contatos me levaram ao grupo que construiu a experiência de “O Estrangeiro e a Cidade”, cujo tema também aborda a realidade dos brasileiros nos Estados Unidos. Fui convidado para trabalhar na performance e não relutei, abracei a oportunidade de imediato.

Foto; Zoe Salvucci

A vida cotidiana dos brasileiros emigrantes nos Estados Unidos da América não é muito diferente do que acontece no restante do mundo. Há as dificuldades objetivas: trabalho, idioma, moradia, alimentação, saúde, mobilidade, formação técnica ou acadêmica etc; mas há as dificuldades subjetivas: cultura, valores morais e éticos, religião, normas e leis, educação, segurança etc. Então, a conhecida “American way of life”, a maneira, estilo e jeito norte-americano de ser, não é tão óbvio, nem fácil de viver como se imagina. Esses fatores, que muitas vezes, são comportamentais, além de culturais, se tornam muros a serem escalados de forma correta e precisa, o que não é tão fácil o quanto se pensa ser.
Os problemas que aparecem no contexto de emigração são tantas que preocupam as autoridades e as pessoas mais conscientes e preparadas que fazem parte do processo. Essa é a questão central de “O Estrangeiro e a Cidade”. O texto foi escrito por brasileiros e brasileiras que residem nos Estados Unidos da América. De fato são relatos de experiências vividas que se transformaram em literatura. Dirigido por Ana Cândido e interpretada por artistas brasileiro/as que vivem nos EUA. Eu sou a exceção que não mora na América do Norte, mas na América do Sul.
O processo começou com logo na minha chegada a Boston pela manhã do dia 07 de dezembro. Manhã muito fria, dois graus negativos e a cidade tomada de neve. Às 14 horas me agrupei com a equipe, que já estudava o texto, e iniciamos o trabalho. Para minha surpresa encontrei um grupo extremamente qualificado; um elenco repleto de talentos.
O texto, escrito a várias mãos, é rico por ir do drama denso ao humor. O principal valor está nas personagens que de reais se tornaram ficcionais. O espetáculo é itinerante; inicia no Sofá Café, ponto de encontro para se tomar um bom café com tapioca e, apesar do frio, sai em caminhada pelo centro de Framingham para a escadaria da prefeitura da cidade onde há a cena do casamento. Em seguida segue para um prédio de escritório onde há cenas na escadaria, no “hall” central e em uma sala, a cena da imigração. Retornando, em seguida, para o Sofá Café, onde acontecem as cenas finais. São 120 minutos de emoção!
— “Meu amigo você está furando a fila”. — A fala do prólogo já inicia com uma reflexão sobre ética e respeito. Nos EUA, muitos emigrantes agem com a formação cultural própria e, muitas vezes, sem o mínimo conhecimento sobre ética e, consequentemente, valores como respeito e solidariedade. Isso tem causado um descompasso com a realidade cultural do país. No final dessa cena inicial há uma fala densa — “Ô, rapaz, você é um trapaceiro mesmo. Por que você não volta para lá de onde você veio?” —. Entra uma personagem feminina para esclarecer a situação. — “Calma pessoal, o que é isso? Ficaram loucos, é? Vamos lembrar que somos da mesma terra. Somos brasileiros, estamos aqui juntos. Viemos por um motivo. Estamos nessa juntos. Eu, por exemplo, vim aqui porque quero uma vida melhor para mim e minha família.”

Foto; Zoe Salvucci

Há personagens que narram à saga de sair do Brasil e chegar à terra de Tio Sam. Descrevem os sonhos de: chegar aos Estados Unidos da América, aprender o idioma, ter o Green Card, abrir uma empresa, ser rico e ser feliz. A felicidade é tratada como sendo a materialidade da vida. Essa concepção leva a equívocos como “o jeitinho brasileiro” que rompe com valores como ética e respeito. Esse comportamento é real, inclusive, sobrevive com base em atitudes como ter que derrubar o outro para se “dar bem”.
Em contrapartida a esse comportamento cultural refutado, há as personagens que trabalham com afinco em serviços diversos, doze, quatorze horas por dia, sem direitos trabalhistas, férias, seguro saúde, etc., de segunda a segunda. As cenas de ausência da família e de trabalho escravo, como “au pair”, emocionam porque tratam de questões que vêm de experiências reais; situações que envolvem até suicídio. Há brasileiros que se passam por médicos e exercem a profissão de forma irregular, inclusive provocando a morte de pacientes conterrâneas.   
O Estrangeiro e a cidade é um espetáculo itinerante em Framingham, EUA, com texto de: Eduardo de Oliveira, Heloísa Galvão, Jaime Zimmer, Júlia Aldana, Júlia Jannuzze, Luciana Castrillo,  Luiz Madrid, Poeta Imigrante, Ninho dos Santos, Rossane Correa e Talisgean Beknap; com adaptação de texto e direção de Ana Cândida Carneiro. O elenco é formado pelos intérpetres: Carlos Cartaxo, Catarina Costa, Lucas Laguardia, Luiz Madrid, Pedro Natividade, Pedro Teixeira, Renata da Costa, Sâmia Costa e Simoneide Almeida. A ficha técnica é composta por: Sábato Visconti na Programação Visual (Filtro de realidade aumentada); Pedro Teixeira: voz e violão; Jamie Canaan e Júlia Aldana, na iluminação e áudio; Assistente de produção e realização: Brian English.


A diretora Ana Cândido Carneiro conseguiu reunir um elenco excepcional de brasileiro/as que moram nos EUA. A exceção sou eu que estou de passagem realizando uma pesquisa em Massachusetts sobre “histórias de vidas de brasileiro/as nos EUA”. Na sua página no Facebook Ana expressou sober seu trabalho: “I would like to thank everybody that made "The Stranger and the City" possible: the writers, the actors, the whole production crew, friends and supporters, and the audience that showed up and was ready to go on this "urban theatrical trip" about immigration, and the sponsors - Mass Cultural Council and Consulado-Geral do Brasil em Boston. It was very moving to see the impact of this work on everybody. And this is just the beginning...” “Agradeço a todos os que fizeram com que "O Estrangeiro e a Cidade" fosse possível: escritores, atores, toda a equipe de produção, amigos, e a plateia que embarcou conosco nessa viagem urbana sobre experiências de imigração. Foi muito comovedor ver o impacto deste trabalho na plateia e nos participantes. E pensem que é só o começo... Grande abraço a todos.”



quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Em tempos de poucos leitores

Em tempos de poucos leitores
Carlos Cartaxo

Uma olhada nas redes sociais é o suficiente para constatarmos que as pessoas não lêem mais, ou melhor, lêem muito pouco. Algumas pessoas, para minha decepção, não lêem nada. Felizmente há aqueles que ainda têm a leitura como parte do seu cotidiano. Lembro que na minha adolescência íamos para o cinema com um livro para lermos em qualquer momento livre, seja na sala de espera, seja no ponto do ônibus. É claro que os tempos são outros; ninguém solta o aparelho celular, e não é para telefonar, mas para acessar as redes sociais. Leitura é algo fora do cotidiano de muita gente. Será que estamos diante de uma geração perdida?
Essa é uma realidade que a gente não pode fugir dela. Todavia, ainda há aqueles, até entre os adolescentes, que têm a leitura como uma escada à aprendizagem, como referência ou imitação da vida. O poeta e/ou escritor se tornou um criador, aquele que cria mundos e suas novas criaturas. Em reverência aos criadores e aos criados escrevo esse artigo com zelo e afinco, tendo em vista que a literatura é a bússola que expressa e traduz épocas.
Eu tenho na cabeceira da cama o livro “Cultura: tudo o que é preciso saber” de Dietrich Schwanitz, edição portuguesa da editora D. Quixote. Dessa obra sempre tiro novas informações, o que me inspira a continuar escrevendo. Esse é um procedimento de constante aprendizagem. É o poço sem fundo, digo o ciclone, de “O mágico de Oz”. Sempre estou descobrindo algo novo e acumulando conhecimentos. Essa busca incessante tem me distanciado de muitos grupos; em contrapartida escrevo aqui o que considero importante para aqueles que constituem o universo pensante.
Quem acompanha o meu trabalho sabe que tenho mais de uma dezena de livros escritos, por mim e alguns em parcerias. Mas, tenho consciência de que o que escrevo é pouco lido; afinal não se trata de sensacionalismo, fofoca ou doutrina que imputa uma verdade absoluta. Escrevo o que de fato, eu acredito; algumas coisas do imaginário ficcional, outras fruto de pesquisas. Como ando mergulhado no universo literário, divido alguns dos meus referenciais com meus leitores. Listo aqui algumas obras literárias que considero importantíssimas para a história e o conhecimento da humanidade. Inicialmente, esse texto que tem como fundamento a obra, já citada, de Dietrich Schwanitz.
 A formação cultural que tive na minha adolescência foi fazendo teatro em Parahyba. Nessa experiência fui apresentado à dramaturgia grega; literatura que me conquistou, me arrebatou da mesmice e me fez um leitor em potencial. Isso já na minha adolescência, porque na minha infância tive pouco acesso à literatura infantil. Então, obras gregas como Lisístrata e As nuvens de Aristófanes; Édipo Rei, Antígona, e Electra primeiras peças de Sófocles que me encantaram; Andrômaca e As Bacantes de Eurípedes, autor que escreveu em torno de 95 tragédias, me influenciaram para a escrita dramática; já as peças de Ésquilo, As suplicantes e Prometeu Acorrentado foram determinantes para minha gana por leitura. Ésquilo é considerado como o fundador do estilo trágico na dramaturgia. Sua obra tem como base a mitologia grega. Sófocles além de dramaturgo introduziu tecnicamente o terceiro ator nas peças, criando assim uma importante inovação do fazer teatral à época.


Quando li Lisístrata me encantei pela profundidade histórica e política que o teatro grego apresenta. Nessa obra de Aristófanes, que data de 411 a.C., encontramos a primeira abordagem literária feminista, cujo foco é sobre greve, ou seja, resistência social. A personagem Lisístrata organizava as mulheres da época para que fizessem greve de sexo quando seus maridos voltassem das guerras porque o resultado daquelas lutas insanas era: 1) dar poder a quem já era poderoso e tinham que manter seu império; e 2) deixar muitas crianças órfãs; e 3) muitas mulheres viúvas.

    
Da literatura grega vou para A Divina Comédia do italiano Dante Alighieri, escrito durante a Idade Média que se tornou público em 1321. Considerada como a mais significativa obra da Idade Média e da literatura italiana, é um trabalho determinante para a formação cultural de todo leitor. Sua base é a cultura da memória, ou seja, a tradição oral porque, na época, a imprensa ainda não existia. Os valores morais eram bem definidos e bem determinados divulgados através da oralidade. Como não poderia ser diferente, Dante trabalhou com um sistema de memória para escrever A Divina Comédia. A história é uma viagem literária que começa em uma Sexta-Feira Santa de 1300. Logo de início Dante se perde na floresta do erro, momento em que se encontra com o autor de Eneida, Virgílio, que faz descer o caminho acentuado que o leva aos nove círculos do inferno. É uma alegoria à representação da maldade, centrada na figura dos mais representativos traidores da história da humanidade, no caso, Bruto e Cássio que assassinaram César e Judas, o emblemático traidor de Jesus Cristo.  Em seguida Virgílio o conduz até o cume do purgatório. Por último, Virgílio leva Dante à entrada do paraíso terreno; daí ele é conduzido por Beatriz ao tão sonhado paraíso. Aqui há o resplendor da espiritualidade, os patamares dos espíritos superiores, os anjos, e, por fim, Deus.
Ainda na Idade Média, há outros referenciais da literatura que merecem destaque, por exemplo: o poeta Francesco Petrarca, escritor que tinha a filosofia e o amor como base para suas criações e Giovanni Bocaccio, amigo de Petrarca, que notabilizou sua escrita quando morava em Florença. Seu destaque do seu trabalho é O Decameron, que é uma coletânea de histórias consideradas imorais. Esse, possivelmente, é o primeiro trabalho literário sobre histórias eróticas; referência para várias gerações de jovens que tiveram a oportunidade de, poder usufruir, através da leitura, de uma literatura sem preconceitos sexuais.
A literatura portuguesa se faz bem representada por Luís Vaz de Camões. Dentre vários escritos, principalmente sonetos, a obra que o imortalizou foi Os Lusíadas. Camões fez com que navegadores portugueses transformassem deusas em mulheres, jogando fora a tese do pecado instituída pela igreja católica na Idade Média, e estabeleceu a Ilha dos Amores como sendo um território da espontaneidade e da felicidade. Foi um escritor mais que habilidoso, foi muito talentoso.
Pouco tempo depois de Camões, o espanhol Miguel de Cervantes nos presenteou com Dom Quixote de La Mancha. Possivelmente o romance mais representativo da literatura espanhola. O talento de Cervantes faz de Don Quixote (latifundiário espanhol Alonso Quijano), seu cavalo denominado de Rocinante; seu escudeiro o camponês Sancho Pança e seu respectivo jumento; e a enigmática camponesa Dulcineia de Toboso, personagens icônicos da literatura mundial. Cervantes fez seus personagens, arquétipos de uma época, circularem a Espanha renascentista combatendo os opressores e ajudando os pobres da época, que eram muitos. O imaginário ficcional do autor faz Don Quixote ver inimigos poderosos carregados de ideologias que deveriam ser combatidas. É um misto de alucinação, ingenuidade e idealismo de um incansável cavaleiro. Depois de um desafio, perdeu o duelo e teve que pagar a promessa de desistir de sua luta por um ano. Cumpriu, momento em que reviu seus ideais e concluiu que sua empreitada não passava de uma ridícula elucubração. Desistiu de suas ilusões. Afastado de suas fantasias, passou a conviver com a lucidez, em seguida faleceu.
Ainda no Renascimento encontramos William Shakespeare, que além de autor de tragédias, dramas e comédias, tinha outras habilidades que o fez um criador eclético, afinal ele também foi excelente ator e empreendedor. Dentre as 38 peças teatrais e 154 sonetos e outras poesias, de Shakespeare, Otelo é a peça teatral que merece minha releitura. Personagens como o general mouro Otelo, sua esposa Desdêmona e seu sub-oficial maquiavélico Iago marcam os arquétipos da humanidade com suas contradições psicológicas e morais. Valores como amor, traição, ciúme, inveja e racismo são o foco do enredo. Hamlet é outra obra marcante em que Shakespeare trás à tona valores morais e comportamentais como traição, vingança, incesto e corrupção. É claro que teríamos que escrever dezenas de páginas para falar de Shakespeare e de sua obra. Peças como Macbeth, Rei Lear, Júlio César, Ricardo III, Romeu e Julieta, entre muitas outras não poderiam ficar de fora do debate; todavia, deixamos o estímulo para o/a leitor/a ir fundo na literatura shakespeariana.
Seguindo pelo universo da dramaturgia lembro o francês Jean-Baptiste Molière, memorável escritor e intérprete de comédias que teve forte influência da Commedia Dell’Arte. Escreveu clássicos memoráveis como: O Tartufo, O Avarento, Escola de Mulheres, Escola de Maridos, Médico à Força, O Amor Médico, Don Juan e O Burguês Fidalgo, entre outras obras. O Avarento foi a peça teatral que marcou definitivamente meu apreço pela comédia. A ganância exacerbada pelo dinheiro é a mola propulsora do conflito dessa peça teatral. O Tartufo é outra criação que sempre fortaleceu minha paixão pela dramaturgia. No caso de O doente imaginário há um fato pitoresco. Poderia ser uma tragédia se não fosse uma comédia. Molière interpretava a personagem principal. Na peça, o pai quer um marido médico para a filha para que este cuidasse de sua saúde cotidianamente. Ele interpretava o pai, momento em que já estava, de fato, doente. Como ele era um excelente ator além de escritor, interpretou a personagem com tanta naturalidade que a platéia delirava sorrindo enquanto ele estava sofrendo, quase morrendo, doente no palco.
O romance Robinson Crusoe de Daniel Defoe, apesar de pouco comentado, digo trabalhado na escola, e nos meios literários que convivo, merece ser citado aqui por duas particularidades. Primeiro, com base no pensamento de Dietrich Schwanitz, Robinson Crusoe pode ser considerado, no contexto da literatura universal, o primeiro romance realista. Segundo, em época de fragmentação profissional, o escritor Defoe é considerado o primeiro jornalista da história. Foi ele quem criou The Review, o primeiro jornal que tinha o fim de publicar notícias e comentários. Esse é o momento histórico em que surgiu a burguesia e a modernidade. Ratificando essa tese, Daniel Defoe escreveu em 1719 A Vida e as Surpreendentes e Singulares Aventuras de Robinson Crusoe, considerado o texto que demarcou conceitualmente a modernidade. A literatura de Defoe valoriza o quotidiano da vida associando e dando ênfase ao realismo e a literatura; é a chegada da vida moderna.
Em tempo de analfabetos funcionais, de extremismo religioso, de perdas trabalhistas e sociais e de ignorância política, me convenço de que a leitura é um bom caminho para construirmos a paz através da cultura. É um caminho para sorrirmos de felicidades acreditando que a vida vale a pena ser vivida com toda intensidade.

sábado, 28 de setembro de 2019

Um pouco de tudo que vi


Um pouco de tudo que vi
Carlos Cartaxo

A vida passa como um sopro, em uma velocidade estonteante; às vezes suave dando tempo para ser admirada; outras em uma rapidez imperceptível que nem a mente consegue acompanhá-lo. Pois bem, outro dia eu tinha a inexperiência de um adolescente de 15 anos cheio de sonhos, fantasias e rebeldia, pensando que sabia tudo e por isso mesmo, era o dono da verdade e com projeto de ser do mundo; logo após, um homem de 30 anos, um aprendiz da vida; um escolhedor de momentos que pensava ter a sorte como desenhista do seu rumo; hoje, um senhor com 60 anos, um aprendiz que tem um conjunto de imagens gravadas na consciência e seladas no inconsciente, crédulo de que precisa refletir e se transformar para evoluir, enquanto há tempo, nessa rápida passagem material pela vida. Esse processo evolutivo é geométrico e inevitável. Portanto se faz necessário amadurecimento para se evoluir com sabedoria.
A coleção de passagens e vivências, pelas quais vivi, é tão grande que nem a mente consegue listá-las. Mesmo assim, como uma nuvem passageira que paira sobre mim permitindo que a sombra se aloje na memória para refrescá-la, cito algumas imagens que foram marcantes, por isso, hoje significantes para meu grau de compreensão do mundo e determinantes para meus valores morais, éticos e afetivos.
A vida é muito mais universal do que se pensa. Em minhas andanças pelo mundo tive o sabor de conhecer lugares e pessoas que trago comigo como se fossem um adendo que não larga os neurônios da aprendizagem. Em novembro de 2017, eu caminhava pelas ruas de Boston, Estados Unidos da América, quando me deparei com alguém que tentava se esconder do frio como se este fosse um perseguidor implacável. O interessante é que essa pessoa não me percebeu, não sabe de minha existência; hoje não sei da sua, mas ela está presente na minha consciência como uma chama que não se apaga e que, por muitas vezes, me trás à realidade para perceber o sentido da vida e compreender meu eu e o em torno de mim. Essas descobertas são afirmações necessárias à vida em sociedade. Alguns encontros na vida são muito mais significativos que jantares e almoços, chiques e agradáveis, que merecem até postagem nas redes sociais como auto-afirmação do significa a felicidade. É assim que vejo e enxergo o mundo; não basta ver, faz-se necessário percebê-lo.


   
Foto: Carlos Cartaxo
O encontro com esse cidadão, que prefiro chamá-lo de personagem, me impõe um grau altíssimo de ponderação sobre a amplitude da sensibilidade humana. A indignação toma conta do meu ser quando percebo que a invisibilidade desses personagens urbanos, que deveriam ser tratados como cidadãos, no máximo, não passa de um artigo esporádico de jornal. A imagem da cena retina na minha memória e o, conseqüente, tratamento dado a ela é a tradução mais cabível a sociedade do espetáculo tão bem tratado por Guy Debord no seu livro “A sociedade do espetáculo”.
Eu sou obrigado a reconhecer que o mundo continua virado de cabeça para baixo ou que o mundo está pirado, como sempre o foi. O fato é há discordâncias nessa ordem preestabelecida que leva a instabilidade humana na terra. É incontestável que o ser humano evoluiu e que a questão do relacionamento entre pessoas, entre pessoas e meio ambiente e/ou entre serres vivos na sociedade deixou de ser uma questão pessoal para ser social. Apesar dessa compreensão harmônica sobre a vida, há comportamentos muito distantes e divergentes que provocam um completo reconhecimento da irracionalidade humana. Nesse caso somos induzidos a compreender que a resiliência é compreendida como um conceito real e necessário á humanidade porque ratifica de forma correspondente a teoria da ação e reação. Infelizmente muitas pessoas que ainda pensam que dormem em berço esplêndido, não se deram conta de que agressões, desrespeito, descaso, indolência é uma doença social fruto da ausência de amor ao próximo e que, a resiliência se encarrega de devolver essa energia desfigura para seu emissor.
No mesmo período e sob o mesmo frio também encontrei em Nova Iorque, o centro mundial do consumo, que o diga o “show” que é a “Time Square”, pessoas brancas pedindo ajuda nas esquinas movimentadas da metrópole das compras. É um caso esporádico? Não me compete quantifica o fenômeno, me compete qualificar. Não defendo o positivismo para entrar na lógica da meritocracia. Defendo o amor e seu instrumento sagrado da solidariedade como elo forte que nos faz humanos e racionais. Enquanto houver uma só injustiça na face da terra, exploração desmesurado do ser humano, agressões e desrespeito transformo a luta pela vida justa e amável em imagens que porto na consciência e no coração.

Foto: Carlos Cartaxo

Minha dramaturgia publicada nos livros “Teatro de Atitudes”, “Teatro Determinado” e “Geraldeando” expressa bem meu compromisso como educador e escritor no que concerne a defesa de uma sociedade justa, igualitária e solidária; são peças teatrais e experiências cênicas que resultaram de criações fruto de tudo que eu vi na minha trajetória de vida; são visões que interpretam a lógica que justifica a defesa de propagar sempre o amor, pode parecer piegas, mas o amor constrói.