Romance A família Canuto

Romance A família Canuto
Romance A família Canuto e a Luta camponesa na Amazônia. Prêmio Jabuti de Literatura.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

O “achismo” no universo da comunicação

 O “achismo” no universo da comunicação

Carlos Cartaxo

 

É natural a preocupação da família com relação à formação dos filhos e, consequentemente, seu futuro. A educação ética e moral deve ser a luz pedagógica que clareia essa formação, cujo objetivo é constituir e consolidar uma sociedade justa e democrática, que respeita os sujeitos sociais e suas diferenças. Em alguns casos essa abordagem educativa se dá de forma conservadora, em outros, literalmente, revolucionária. Embora esse conteúdo esteja inserido na grade curricular dos programas escolares, diretamente através da sociologia e da filosofia, ou indiretamente através de outras disciplinas, há quem considere esse conteúdo desnecessário ou indesejado, portanto desqualificado. Não obstante essa posição conservadora e indo no sentido contrário dela, eu compreendo que estudos com esse foco são de extrema importância para se alcançar a tão sonhada sociedade civilizada, logo, evoluída.

Pesquisadores da comunicação têm se voltado para essa questão com afinco, no sentido de investigar até que ponto o que é veiculado nas mídias, em especial na televisão, contribui para o equilíbrio social e consolidação de uma sociedade democrática e plural. Em contrapartida, os meios de comunicação poderosos, me refiro aos grandes conglomerados corporativos, se valem do conceito de liberdade de imprensa para veicularem excessos e com eles, desvios de valores, nas informações que colocam no ar, como sendo verdades absolutas.     

A comunicação sempre foi considerada um quarto poder, o que lhe dá uma importância significativa, por conseguinte garante a defesa da liberdade de expressão, que por vez, se entende como emissão e propagação de informações precisas, éticas e corretas. Essa compreensão deveria ser regra e princípio no universo da comunicação; todavia as pesquisas comprovam que há uma tendência ao contrário. Muito do que é veiculado como informação tem o efeito contrário de desinformar. Nesse sentido, se diagnostica a adoção massiva de conteúdos sem fundamentação teórica, o que se configura como prática do “achismo”. A constatação parece óbvia, mas não é. A afirmação de que o “achismo” é uma doença contagiosa, grave, pode parece leviana, contudo essa assertiva tem crédito e precisa ser analisada com profundidade para ser ratificada como a praga da desinformação.

Foto: Carlos Cartaxo


Em recente trabalho como professor e pesquisador da Universidade Federal da Paraíba na área de arte e comunicação pude constatar que parte dos comunicadores, muitos deles jornalistas, se baseiam em informações sem consistência científica para formar opinião e, como consequência, disseminar inverdades ou meia-verdade. É o conhecido jornalismo sensacionalista. Nesse caso recorro ao Dicionário de Comunicação para definir esse tipo de jornalismo:

Estilo jornalístico caracterizado por intencional exagero da importância de um acontecimento, na divulgação e exploração de uma matéria, de modo a emocionar ou escandalizar o público. Esse exagero pode estar expresso no tema (no conteúdo), na forma do texto e na apresentação visual (diagramação) da notícia. O apelo ao sensacionalismo pode conter objetivos políticos (mobilizar a opinião pública para determinar atitudes ou pontos de vista) ou comerciais (aumentar a tiragem do jornal). (...) 2. Qualquer manifestação literária, artística etc,. que explore sensações fortes, escândalos ou temas chocantes, para atrair a atenção do público (BARBOSA e RABAÇA, 2002).

A questão de proferir argumentos que, segundo o emissor, são verdades ditas e escritas, no fundo se pauta na concepção do comunicador que “acha” que determinado assunto é verdade ou mentira. O Grupo de Pesquisa Comunicação, Artes e possibilidades narrativas, do Centro de Comunicação, Turismo e Artes da UFPB, pesquisou programas policias da televisão brasileira e pôde constatar que o “achismo” é a base da fundamentação teórica que dá sustentação as opiniões emitidas por certos comunicadores. Estes profissionais desconhecem o movimento hegeliano que se resume em: tese/antítese/síntese, ou seja, a base da informação veiculada, centrada no tripé: violência, sangue e morte, não apresenta conteúdo que dê sustentação qualitativa a mensagem emitida. A base da informação veiculada é, só e somente só, “achismo”, não tem uma tese que se contraponha a antítese social, que dê sustentação teórica para que dela se tenha como resultado uma síntese. Desses programas o que fica são frases de efeitos com provocações espetaculares, sensacionalistas, como: mais um bandido tirado de circulação; bandido bom é bandido morto; aqui não tem ninguém para defender bandido; se tiver de morrer que seja o bandido; a polícia abriu fogo e meteu chumbo. Essas mensagens são proferidas constantemente, repetidas como mantra, a cada três minutos.

Essa abordagem sensacionalista que chega, ao leitor desavisado, como um petardo reluzente de verdades e soluções tem que ser abominada e contestada porque é uma fábrica que produz inverdades, por conseguinte, desinformações. A abordagem crítica em questão não deve ser focada no confronto entre bandido e polícia; mas, em narrativas que reflitam as contradições sociais do nosso cotidiano, como por exemplo: Porque existem bandidos? Que tipos de bandidos existem? O que leva um/a jovem ao mundo do crime? No combate, o bandido rico recebe o mesmo tratamento do bandido pobre? A diferença de classe é um fenômeno social e econômico gerador de bandidos? A mídia sensacionalista dá ao bandido da periferia o mesmo tratamento que dá ao bandido de paletó e gravata? Por que o tráfico de armas e drogas não é combatido, rigorosamente, pelas polícias? Por que setenta por cento dos presidiários são negros? Por trás dessas questões deveriam está abordagens à legítima defesa do Estado de Direito, do combate ao autoritarismo e ao abuso de poder. Eis a questão que precisa está viva e presente na democracia e nos meios de comunicação!

Por trás da narrativa sensacionalista há a multiplicação exponencial do discurso de ódio; por exemplo, dissemina informações inverídicas sobre direitos humanos. A tese de que bandido bom é bandido morto é uma constante subliminar que programas policiais disseminam baseada no discurso de que a salvação social não é a redução da diferença de classe, mas a morte dos bandidos. Antes de tudo, é bom definir que essa é uma questão conceitual. Como alguém ocupa o assento de um estúdio de rádio, televisão ou de gravação de vídeo e se apropria de um microfone para emitir informação que não conhece? Falar de violência, de polícia e bandido exige conhecimento, estudos científicos sobre o tema; se assim não o for, o conteúdo proferido é puro “achismo”, portanto suspeito pela ótica do bom jornalismo, da ética e da verdadeira liberdade de expressão.

Os comunicadores pesquisados demonstram que nunca leram sobre direitos humanos e se arrogam ao “achismo” denotativo que denigre o conceito de direitos humanos; se arvoram a falar de direitos sem conhecê-los. Nunca leram Nietzsche para entenderem as relações de macro e micro poder; para adquirirem a informação de que o conhecimento é uma característica nata, evolutiva, do ser humano. Consequentemente, sem encontrar neles conteúdo substancial sobre as informações por eles veiculadas, sou levado a questionar: Como um comunicador ousa falar de violência sem nunca ter lido o livro Brasil nunca mais, publicação da Arquidiocese de São Paulo ou o livro Direitos Humanos: Violência e diversidade, publicação do CCTA/UFPB? Essa é uma questão que resulta da constatação de que o desconhecimento gera a desinformação que induz a concepções inverídicas ou, no mínimo, suspeitas.

Outra reflexão precisa ser abordada aqui, que é o fato de que por trás dessa questão ética e moral está a tão almejada audiência nos meios de comunicação, o que significa dinheiro e poder; em busca dessa dita cuja, se dá um desvio na ética e se usa o “achismo” como fonte de verdades, emitindo informações que ferem a liberdade de expressão porque, em muitos casos, contribuem pouco ou quase nada, com a informação ética. Um apêndice que fortalece essa prática é o investimento que empresas fazem nesse tipo de programação. Cabe a nós pesquisadores alertarmos a sociedade sobre essa prática nefasta que emite, em forma de impropério, informações que ratificam a disseminação do ódio e a falta de ética em nome da liberdade de expressão.

Alguns veículos de comunicação e, mais especificamente, comunicadores, insistem em afirmar que João Pessoa é a cidade mais verde do Brasil. A partir de algumas informações duvidosas, décadas atrás, essa inverdade se expandiu pelas redes sociais. Recentemente a célebre paraibana, Juliette Freire, falou essa inverdade no Programa do Faustão da rede Globo sem se dá conta de onde tirou essa matéria. Infelizmente essa é outra informação baseada no “achismo” porque não tem base científica alguma. Não há estudos que comprovem esse argumento falacioso, há muito divulgado por alguns comunicadores no Estado da Paraíba. Por muito tempo foi divulgado que João Pessoa, que deveria se chamar Parahyba, era a segunda cidade mais verde do Brasil. Agora se espalha que é a primeira. O “achismo” se expande como fogo no palheiro, baseado em ilações que não têm base científica, porque não são oriundas de um conteúdo cuja fonte gera o que não é criado a partir do sentido concreto e real da informação.

A ausência de informações com base científica nos programas sensacionalistas é tão acentuada que alguns comunicadores falam de fome sem entender uma vírgula do papel da assistência social. Confundem assistência social com assistencialismo. A fome é uma praga do mundo não civilizado e está diretamente ligada a diferenças sociais, a concentração renda e corrupção, mas o/as comunicadore/as senhore/as da verdade ousam falar de corrupção sem ter como base as políticas de combate a fome e a defesa da ética na política, ações fáceis de serem assimiladas porque são bem sucedidas no mundo contemporâneo.

A lógica da tão combatida desinformação do “achismo” é: quanto mais gente imbecilizada, mais dificuldades terão os desinformados de decodificar as verdades e, consequentemente, as inverdades. É incoerente pensar que a emissão de meias-verdades significa formação, ao contrário, o desconhecimento do conteúdo das matérias veiculadas gera inverdades que repetidas inúmeras vezes, cotidianamente, adquirem senso de credibilidade, embora sejam inverídicas.

Há inúmeros artigos científicos sobre o tema abordado aqui. Todavia cito o artigo “Jornalismo Policial: Influência no Pensamento de Crianças e Adolescentes” de Elisângela Marinho Bezerra e Roberia Nadia Araujo Nascimento da Universidade Estadual da Paraíba – Campina Grande, Paraíba, apresentado no Intercom pelo fato deste ser voltado para o universo pedagógico. A pesquisa realizada com crianças de 12 à 14 anos de turmas do 7º e 8º ano da Escola Maria de Socorro Aragão na cidade de Monteiro-PB. O instrumento metodológico utilizado foi a aplicação de um questionário para diagnosticar as informações e opiniões emitidas no programa policial Cidade Alerta, que tinha como âncora o jornalista Marcelo Rezende, na Rede Record. A hipótese do artigo é “que o jornalismo policial produzido no Brasil não é adequado para as crianças e adolescentes e se justifica por se constituir material capaz de provocar reflexões sobre a qualidade e questões éticas que abalizam esse tipo de conteúdo jornalístico” (BEZERRA e NASCIMENTO, 2015). Esse artigo ratifica a tese aqui defendida de que o jornalismo policial, dá forma como é gerido, fortalece a prática do “achismo” na comunicação .

O jornalismo policial sensacionalista não é errado como muitos críticos afirmam, ele pode sim contribuir de alguma forma, talvez em uma parcela bem pequena para o desenvolvimento intelectual de nossa sociedade. O grave e crucial erro está no fato de não levar a sociedade a refletir sobre os assuntos que estão por trás das notícias transmitidas. Se ater apenas a dualidade Bem e Mal, é um equívoco gravíssimo, condenar pessoas por crimes cometidos, sem ao menos mostrar ao público quais os verdadeiros motivos que levaram aquele ser - humano a cometer tal ato, é contra a ética jornalística, que nos orienta a mostrar sempre os dois lados da história, e de todos os ângulos possíveis e imagináveis (BEZERRA e NASCIMENTO, 2015).

As considerações parciais do trabalho do Grupo de Pesquisa Comunicação, Artes e possibilidades narrativas, que motivaram esse artigo, aqui publicado, demonstram que é preocupante o que vem sendo veiculado na televisão aberta brasileira, principalmente, nos programas sensacionalistas de cunho policial. A não fundamentação do conteúdo veiculado cotidianamente, pelos comunicadores dos programas policiais, pode causar um desserviço à sociedade e a democrática porque dissemina a cultural da meia-verdade por meio da argumentação falaciosa do “achismo”.

 

Referências

 

ARNS, Paulo Evaristo. Brasil nunca mais. Petrópolis: vozes, 1986. 12 Edição.

BARBOSA, Gustavo; RABAÇA, Carlos Alberto. Dicionário de Comunicação. Editora Campus. 5 edição. 2002.

BEZERRA, Elisângela Marinho; NASCIMENTO, Roberia Nadia Araujo. Jornalismo Policial: Influência no Pensamento de Crianças e Adolescentes. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal - RN – 02 a 04/07/2015.

BRUM, José Thomas. Nietzsche: as artes do intelecto. Porto Alegre: L&PM, 1986.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985.

MELLO, Patrícia Campos. A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital. Companhia das Letras,

RABAY, Glória; BATISTA, Gustavo B. de M; OLIVEIRA, Hilderline Câmara de; ARAÚJO Jaíne; FRANÇA, Marlene Helena de Oliveira; IRELAND, Timothy Denis (Orgs). Direitos Humanos: Violência e diversidade/E-book. João Pessoa: Editora do CCTA, 2020, Vol 2.

quarta-feira, 10 de março de 2021

A sombra do ódio

 A sombra do ódio

 

Carlos Cartaxo

 

               Ao olharmos o passado da nossa história vemos conflitos em toda linha do tempo da humanidade. Seja no Império Romano, durante as Cruzadas na Idade Média ou na era moderna, as guerras e conflitos espalharam o ódio e foram exemplos suficientes para a sociedade se reinventar e procurar viver em paz e harmonia. Depois de séculos de evolução, tudo leva a crer que esta se deu de forma muito lenta, mesmo cônscios de que viver no século XXI, significa vivenciar experiências com mais qualidade de vida e segurança que no século XI. Apesar da busca incessante do amor, o ódio ainda é uma presença constante no seio social. Ainda há quem defenda e alimente guerras, o que demonstra o quanto trazemos o ranço do ódio nos pequenos e nos grandes gestos do cotidiano.

A garota atendeu ao telefone e ouviu o indesejado. O mundo desmoronou “serpenteado” por um tufão incomensurável de ira. Foi às redes sociais e viu mensagens inesperadas, indesejadas e, pasmem, inaceitáveis. Daí uma víbora balançou o chocalho repleto de aviso anunciando que seu âmago produzia um veneno que fervia os pensamentos fazendo brotar uma substância tóxica, forte, incontrolável, perigosa chamada ódio. Nesses casos de decepção, o amor pula a cerca da compreensão e cede lugar ao ódio.

               O garoto ficou absorto quando o amigo lhe confessou que viu a namorada dele beijando outro na praça ou dentro de um carro. A chave da confiança quebrou dentro da fechadura! Um galão de combustível foi despejado nas entranhas do seu ser e foi colocada uma centelha sem a mínima piedade. O sentimento de deslealdade e infidelidade gerou uma energia de repulsa que cedeu lugar ao ódio.

Esses simples exemplos acima não são suficientes para servir de reflexão e análise sobre nosso comportamento quando nos vemos diante de situações pouco confortáveis. Ao contrário, deles surge um fogo que nos conduz à chama do ódio. Muitas vezes, o ódio surge como uma reação de defesa, uma consequência de vivências negativas que proporciona um choque entre o Eu e o Outro.  O ódio se associa, diretamente, ao narcisismo. A decepção em uma relação sentimental se torna uma experiência humana que nos trás a frustração de impulsos negativos, daí o amor ceder lugar ao ódio.

O discurso de ódio é uma realidade que circula o mundo tentando retroceder ao que tem de pior na história da humanidade. Neste artigo não pretendo traçar conceitos acadêmicos sobre o ódio, mas abordar a angústia de viver em um país, porque não dizer em um mundo, onde o ódio tem imperado; embora saibamos, pelo menos no discurso, que o amor é quem sempre vence. Vence mesmo? Claro que vence! Porque só o amor é o canal que nos traz a felicidade, a essência propulsora da vida.

Foto da internet. Mural de rua do artista Shepar Fairey

               A filosofia do espiritismo explica os conflitos entre pessoas dentro da família, no trabalho, nos grupos de amigos, enfim, onde há a convivência social humana. Mas também explica os conflitos que temos com nós mesmo. Perguntas rondam nossa consciência quando nos deparamos no cotidiano com notícias de que o marido ou namorado matou a companheira em nome do amor; que o filho matou os pais por causa de questões materiais; que o ladrão matou a vítima porque esta não tinha o que o larápio queria. Essas relações, muitas vezes, trazem ranços de diferenças que alimentam valores inferiores e plantam o germe da incompreensão e do desrespeito que afloram o ódio.

               A ética estudada, desde a Grécia antiga e escrita em livros e tratados, nos põe diante da incongruência, do desrespeito e da pouca resiliência. Essa condição rodeia a aura dos seres pensantes repletos de energia fazendo emergir valores agressivos que se tornam incompreensíveis e inaceitáveis. Em nome da “amizade” se adotam caminhos facilitadores da vida que ferem comportamentos éticos e que, se negados, sorrateiramente implantam o ódio que corrói a sensibilidade que denegri a fonte do zelo e germinando o desrespeito para com o próximo. O “jeitinho” de atender aos amigos se traveste de amor, implanta o ódio a quem se contrapor e ceifa a paz como uma chaga lógica que deságua na decepção. O “jeitinho” de quem parece bonzinho quebra os comportamentos éticos e dá lugar ao ódio que agredi frontalmente quem preserva a integridade à luz da ética e fere os procedimentos e valores corretos do comportamento humano.

               O sentimento que degenera nossa humanidade faz brotar uma seiva apodrecida, uma gosma que transforma os 70 % do líquido que compõe o organismo humano em esgoto, agride cada célula do tecido muscular fazendo-os molambos em processo de decomposição. Esse é o rastro que brota nas entranhas de quem não percebe o momento em que o ódio se apropria do seu âmago e alimenta, de forma voraz, o comportamento perverso da destruição dentro de cada um.

 

O ódio na comunicação

 

               Em recente pesquisa realizada na Universidade Federal da Paraíba através da disciplina Metodologia do Trabalho Científico, do Grupo de Pesquisa Arte, comunicação e possibilidades narrativas, foi investigado programas policiais televisivos e o conteúdo veiculado por esses meios de comunicação e seus respectivos apresentadores. A base teórica da investigação foi fundamentada na tese de que as pesquisas avançadas, desenvolvidas a partir da modernidade, chegaram à conclusão de que toda verdade é relativa, por conseguinte é científica. Não obstante essa assertiva, a pesquisa realizada sobre o tema citado acima constatou o que se pode ver cotidianamente na televisão: apresentadore/as afirmando verdades sobre temas policiais que, de fato, são opiniões odiosas, voltadas para seguimentos pouco informados dos telespectadores, e emitidas sem credibilidade científica, com base apenas no “achismo”, demonstrando completa falta de conhecimento sobre verdades enquanto condutoras da ética e do respeito nas relações humanas.  

 A internet é um seguimento midiático que expõe nas redes sociais trilhas do ódio, chama que tem incitado através do discurso do ódio a proliferação da ignorância com o fim de propagar a discriminação racial, social, geográfica, política e religiosa, atingindo de frente as minorias com o propósito de desrespeitar a dignidade da pessoa humana.

O ódio também é disseminado através das relações de poder. No livro Microfísica do poder, de Michel Foucault, vemos que o poder é uma prática social que pode ser identificado nas relações afetivas, na família, no trabalho e nas relações de Estado.  Em Hamlet, texto teatral de Wiliam Shakespeare, O rei é deposto do trono porque foi assassinado pelo irmão que casa com a viúva para amenizar o ódio que poderia se instalar no reinado. Hamlet, filho do rei assassinado, se revolta contra o tio, agora rei, e contra sua mãe que aceitou casar com o assassino para continuar no seio do reinado. O amor mais uma vez perdeu o lugar cedendo espaço ao ódio. Essa mesma relação de poder, que nos remete a idade média, ocupa hoje as redes sociais na internet, subsiste sob a sombra do ódio e se instalada no judiciário prendendo Lula sem crime e deixando solto Moro, Dallagnol e a família Bolsonaro acusados de crimes com provas.

               Na sombra do ódio muitos recorrem à religião para “satanizar” outrem e, como consequência, proliferar a partir de si a chama do ódio. Outros buscam na filosofia o pensamento para alimentar ideais destruidores, nefastos na sua essência condutora e reflexiva que alicerçam a maldade como forma de atingir seus desafetos. Mas há, na política, um manancial de diferenças que fazem brotar o ódio como praga que destrói um plantio inteiro. Para se ter ideia, no último dia 25 de fevereiro, houve um ataque de nazi-fascistas quando estava sendo defendida, através da internet, na plataforma Meet, uma dissertação de mestrado que abordava sobre as discriminações enfrentadas pelas mulheres jornalistas na editoria de política em João Pessoa, sob a orientação da professora Dra. Glória Rabay. Essas ações demonstram o quanto o ódio está inserido no meio da sociedade. Vejam a postagem, em maiúscula, do grupo citado acima:

BONDE DO JAVALI. SEUS COMUNISTAS VIADOS, PRIMEIRAMENTE DIREITOS HUMANOS É O CARALHO, VIADO E FEMINISTA TEM QUE MORRER À PEDRADA IGUAL NA ARÁBIA SAUDITA, VIADO NEM É SER HUMANO, TINHAM QUE COLOCAR OS GAYS EM CAMPO DE CONCENTRAÇÃO E MATAR NA FORNALHA PRA GERAR COMBUSTÍVEL, SÓ PARA ISSSO QUE SERVEM. SE TENTAR VIR ATRÁS, DIVULGAREMOS IP, CPF E OUTROS DADOS DE VOCÊS. SE BANDIDO ASSALTA TEM QUE COMER A PRÓPRIA MÃO COMO PUNIÇÃO, SENÃO LEVA TIRO NA CADA. SÓ ASSIM O BRASIL VAI PRA FRENTE.

Esse ato seria apenas grotesco se não fosse um atentado a civilidade. O fato de ser escrito em um Português chulo e repleto de erros demonstra o quanto esses seres humanos são despreparados para viverem em sociedade enquanto grupo social desenvolvido e respeitoso no que concerne às diferenças. Essa invasão a defesa de dissertação citada é uma prova cabal do quanto os meios de comunicações têm sido canais de disseminação do ódio e da capacidade humana de agredir e menosprezar o próximo.

 

O abismo do ódio

 

Não é difícil encontrar nas calçadas, corredores e, atualmente, nas redes sociais da internet, milhões de mensagens reproduzidas em série e publicadas por pessoas cujo desejo é disseminar uma poética ilustrada, repleta de intenções aromáticas porque parecem vir imersas em essências florais. Se partirmos de uma análise semiótica do que é veiculado nos meios de comunicação, em poucos instantes serão detectadas intenções repletas de mentiras, discursos conotativos, cujas mensagens subliminares demonstram que suas ações e intenções são alimentadas pela lógica do ódio.


Escultura de Igor Mitoraj exposta em Barcelona, Espanha. Foto: Carlos Cartaxo. 

               Felizmente existem inúmeros exemplos que fazem enfrentamentos a persistência do ódio. Em um mundo calcado na falta de ética e do respeito ao próximo, há quem vereda por pelo caminho correto, embora corra o sério risco de ser conduzido à masmorra, ao cadafalso, a fogueira ou até a cruz. A lista desses anjos de luz pode ser extensa, mas faço questão de citar alguns que fazem parte da consciência coletiva de quem trilha o caminho do bem, vejamos: Jesus Cristo, Mahatma Gandhi, Madre Tereza de Calcutá, Nelson Mandela, Chico Xavier, entre muitos outros que habitaram esse planeta terra e outros mais que ainda habitam irradiando a luz do amor.   

               Quem alimenta o ódio sonha desfocado, borrado, porque não descobriu o que é a plenitude da vida. É o que pode ser chamado de ideologia da cegueira, abordagem que me faz lembrar a obra Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, onde indivíduos são atingidos pela doença de uma cegueira que aflige toda uma coletividade que passa a viver de forma desumana em torno de um manicômio, não muito diferente do que vivemos nesse início do século XXI. Saramago faz bom uso de metáforas para representar o ódio, doença que nos assola até hoje. Mesmo nos momentos mais difíceis em que o ódio nos ronda, devemos respirar fundo e sem precipitação lembrar a máxima de Che Guevara “Há que endurecer, mas sem perder a ternura jamais”.

               Essa energia negativa, fantasma do ódio, que penetra, muitas vezes, na nossa cabeça e faz circular velozmente nas nossas veias sentimentos que sufocam e apertam a glote ao ponto de dilatar a pupila, nos entope de iria e faz ferver a bílis, é uma energia que só existe na ausência do amor. Portanto sempre que o ódio insistir em se apropriar da nossa humanidade, nos alimentemos de uma boa dose de sentimento, afeição, bondade e compreensão e partamos para a luta de edificar uma sociedade justa e igualitária construída à base do respeito, da bondade e do amor, como uma árvore frondosa cujo frescor não nos deixa ficar sob a sombra do ódio.

 

Referências

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Machismo e memória

 


Machismo e memória

 

Carlos Cartaxo

 

Escrever tem sido minha primeira atividade prazerosa; a segunda é ler; a terceira é dar aulas; a quarta é proferir palestras; a quinta é viajar; a sexta é visitar museus e por aí vai. Esses fazeres é a melhor formar de haurir os imbróglios interiores que trago comigo ou que surgem no meio das nuvens escuras do interior do meu ser. Penso que essas atividades deveriam ser prazerosas para todo mundo, para todo sujeito que traga consigo um coração cambaleante para descobertas e dúvidas que ruminam na nossa consciência. Claro que não precisa ser, necessariamente, na mesma ordem de majoração do meu deleite, da aprendizagem que gosto de desfrutar. Mas no Brasil, infelizmente, nesse início de século XXI, essas atividades, principalmente a leitura, estão em baixa; estão sob o silêncio da sola de quem não sabe onde pisar. Não obstante a lógica de uma sociedade culta, onde buscar conhecimento é uma escolha cotidiana, aqui no Brasil nem todo mundo tem essas atividades como fonte de prazer. Como enfretamento a essa vazio, continuo acreditando que a formação cultural é o alicerce estrutural das sociedades desenvolvidas, tendo em vista que essa tem sido a trajetória evolutiva de transformação do ser humano desde a Grécia antiga. Infelizmente, como a chuva que se sabe que vai cair no verão, à ascensão do fascismo, neonazismo e de valores como ódio, racismo e preconceito tem surgido e difundido a propagação da violência e consequente retrocesso evolutivo da humanidade.

Em 2020 eu não pude realizar todas as atividades planejadas, como a maioria das pessoas que pretendia fazer e não viram a flor se transformar em fruto. Contudo, escrever, ler, dar aulas e viajar, sim, consegui executar mesmo de forma precária; ministrar palestras e visitar museus, não, obviamente por causa da indesejada pandemia do coronavirus que fez desabrochar a Covid-19. Aqui cabe explicar que ainda consegui viajar porque fui em dezembro de 2019 realizar uma pesquisa sobre imigrantes brasileiros nos Estados Unidos da América e só retornei em fevereiro de 2020. Ao chegar ao Brasil, logo em seguida, os aeroportos fecharam as portas e cortaram as asas das aeronaves para evitar que o vírus continuasse a adentrar as vielas do país espalhando a Covid-19, como o vento faz com as flores para semear novas vidas. Então, por ser do grupo de risco, afinal já tenho 61 anos, fiquei isolado em casa, saindo apenas para o estritamente necessário. Por esse motivo, dentre as atividades que realizei em 2020, a leitura e a escrita foram determinantes para minha profissão e meu lazer seguro no isolamento do meu ninho residencial.

Quando eu estava nos Estados Unidos da América, aproveitei parte do tempo para concluir um romance sobre violência doméstica que eu vinha trabalhando há alguns anos. Esse livro é resultado de uma densa pesquisa com vítimas de violência doméstica; e de uma revisão interior sobre a educação machista que me foi incutido desde criança. A leitura, exercício cotidiano da minha vida, tem sido responsável por essa revisão crítica dos meus procedimentos equivocados fruto da educação patriarcal a qual fui vítima. Claro que esse acúmulo de conhecimento atingiu o âmago da minha sensibilidade e tem provocado uma constante revisão da minha história de vida. Aqui, a memória tem sido um fator histórico que tem despertado em mim reflexões e a necessidade de reeducação e, consequente, ação quanto ao combate e correção do machismo incutido na sociedade brasileira.

Dentre os livros que li e contribuiu para minha reeducação, São Bernardo, de Graciliano Ramos, foi marcante porque trata da cultura machista que permeia o personagem Paulo Honório. O autor iniciou a escrita dessa obra em 1932, mas a publicação se deu em 1936, período em que a cultura machista era reconhecida e, em parte, estimulada até pelas igrejas. A grandiosidade de Graciliano Ramos demonstra que há 89 anos ele já escrevia expondo o machismo como um problema de ordem familiar e social que, pela gravidade, se tornou caso de polícia e de justiça. O outro foco que compõe a dualidade dramática do romance é o capitalismo que se consolidou na cultura do coronelismo brasileiro que perdurou, como a fortaleza e resistência do xiquexique, por séculos e que, até hoje, se mantém como elemento presente na política nacional. Poder, domínio, controle, medo, desafio são fatores que o capitalismo trás na sua essência, assim como o machismo. A relação entre machismo e capitalismo faz parte da constituição da personagem Paulo Honório, habilidosamente construído por Graciliano Ramos. O elemento que consolida essa relação é a propriedade. Na concepção da personagem, propriedade é poder, seja a posse de uma fazenda, seja posse sobre a mulher e por extensão à família. A partir da consolidação do namoro e do casamento o sentimento de posse mantém a solidez do poder, logo do domínio, como uma fortaleza de pedras, irredutível e irremovível, no seio das famílias.


                                                                                Foto: Internet

A maturidade me deu a oportunidade de me descobrir e caminhar pelo âmago do meu ser. Após essa purgação pude perceber que há 40 anos luto contra o machismo que me foi implantado quando da minha tenra idade de criança. No romance São Bernardo pude conectar o machismo de Paulo Honório com o machismo que objetivamente faz parte do conflito do meu romance, ainda inédito, com o machismo que combato ferrenhamente porque trago comigo há décadas. Esse somatório de informações me fez despertar para a consciência de que a cultura machista ainda impera no seio de muitas sociedades e, por esse motivo, devemos lutar para combatê-lo. Essa é uma luta que deve começar na infância, por conseguinte a escola é uma instituição que deve encampar essa batalha como conteúdo programático; afinal os atos machistas atentam contra a vida; contra a liberdade; e, portanto, contra os direitos humanos.

O machismo está presente em todos os seguimentos sociais, entre homens e mulheres, crianças e adultos; e vem há anos cavalgando, alimentando mentes e corações que insistem e ser regidos pelo descompasso do falso amor. Certamente muita gente trás na memória alguma experiência machista vista ou vivida. Por exemplo, ao saber o sexo do filho ou filha prestes a vir ao mundo, começa a implantação da cultura machista quando se escolhe a cor azul ou rosa para comunicar o sexo do bebê. É uma prática que se pode dizer “natural” no universo familiar conservador; isso acontece em vários países pelo mundo.

O outro livro que nos leva a reflexão sobre o patriarcalismo, braço opressor e condutor do machismo, é o romance Liturgia do fim, de Marília Arnaud. Aqui a literatura também põe no discurso do narrador, principal personagem, a memória de ser um oprimido no seio da família, dentro de casa, e, posteriormente, um opressor na trajetória de sua própria vida. Os personagens do filho, Inácio e do pai, Joaquim Boaventura, são os vetores sequenciais na escalada reprodutiva do machismo, ficcionado por Marília Arnaud, que traça o fio memorial de histórias de vidas e da opressão sobre a mulher no berço da familiar. Essa avalanche hereditária da opressão patriarcal precisa ser barrada pelos caminhos da cultura e da educação. É um trabalho árduo que deve começar na família, todavia diante do pouco nível de leitura por parte da sociedade, principalmente das classes menos favorecidas, a educação é que deve adotar esse conteúdo em todos os níveis do currículo escolar, trazendo para si essa causa que é de toda sociedade.


                                                                            FotoÇ Internet

O machismo é um comportamento citado na literatura há muito tempo. Enquanto naus navegavam singrando mares entre os continentes, no final do século XV, em pleno Renascimento, início do século XVII, mais especificamente em 1603, Wiliam Shakespeare escreveu a tragédia Otelo. Nesse trabalho, o autor inglês criou a trama, cuja estrutura conflituosa foi trabalhada a partir de fuxicos criados por um assessor de Otelo, que trouxe à cena a desconfiança sobre a fidelidade de sua amada Desdêmona. O ciúme, estimulado pelo machismo, levou a um fim trágico a relação amorosa do casal. Dietrich Schwanitz sintetiza essa obra de Shakespeare afirmando: “Otelo, o negro de Veneza, marido da bela Desdêmona, incitado aos mais violentos ciúmes pelo diabo personificado em Iago, um intriguista maquiavélico cuja maldade despropositada nos inspira o mais genuíno horror” (SCHWANITZ, 2012, P. 260). Iago jogou a centelha venenosa que ateou fogo no machismo do general mouro Otelo, germinando nele um sentimento encolerizado pela sensação de empoderamento e posse que imaginava ter sobre a amada, levando-o a assassiná-la, tornando cinzas o amor que tanto lhe regozijava. A literatura shakespeariana atiça a memória e nos conduz a ilação de que a violência doméstica, o machismo, assim como o ciúme e, consequentemente, o sentimento de posse são tão antigos quanto as mais remotas lembranças passadas da humanidade.


                                                                                Foto: internet

Os diversos gêneros literários podem nos fornecer listas homéricas de obras que abordam o tema, que não vem ao caso listá-las aqui; isso fica para quem pesquisa o assunto. Não obstante, devo registrar que há movimentos sociais engajados nessa questão, que trabalham com a determinação da força do vento em uma tempestade, tornando o tema em pauta o centro de um debate que exige mudança urgente nas relações sociais no seio familiar, no que tange a violência doméstica e a eliminação do machismo através da educação. Essa é uma luta que tem alcançado vitórias, principalmente no que concerne às leis. Só que apenas leis e a judicialização da questão, que é comportamental, não são suficientes para frear esse descompasso social que há séculos assola famílias e vidas. E nós, seres machistas e vítimas do machismo, temos a obrigação moral de resgatar nossas memórias para se reeducar, superar, reconstruir conceitos e procedimentos que resistam à cultura do machismo e, consequentemente, da violência doméstica. Os índices sobre violência doméstica são assustadores, altíssimos; números que relampejam as estatísticas e põem em dúvida todo o conceito de civilidade. Os relatos e as constatações nas delegacias das mulheres e no judiciário têm sido pauta diária nos meios de comunicação e, consequentemente, revolta por parte dos mais esclarecidos. Não obstante essa realidade, a velocidade galopante da violência doméstica continua como se nada estivesse acontecendo, como se tratasse de um cavalo a lado perdido no tempo. Até parece que não há memória história na sociedade sobre essa matéria. Portanto, educação é a palavra de ordem para se espalhar, como flores na primavera, e alcançar novas vitórias, consolidando a paz nas famílias e a evolução tão almejada da humanidade.

 

Referências

ARNAUD, Marília. Liturgia do fim. São Paulo: Tordesilhas, 2016.

RAMOS. Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1989.

SCHWANITZ, Dietrich. Cultura – Tudo o que é preciso saber. Alfragide, Portugal: D. Quixote, 2012.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Essa escola não serve

 Essa escola não serve

Carlos Cartaxo

 

Eu estava em um programa de rádio em Parahyba para debater sobre o orçamento para educação no estado da Paraíba no ano de 2017 quando fui surpreendido, no intervalo, por um entrevistador que criticou a escola e queria saber minha opinião por esta não está mais reprovando os discentes, ou seja, passa todo mundo. Ele também foi surpreendido quando respondi com uma pergunta: quem disse que a escola é para reprovar? A escola é para educar, formar cidadãos e cidadãs. Contudo, se a escola não está formando com eficiência é irresponsável culpar apenas o/a discente. Esse é um dos argumentos da minha tese de doutorado publicada no Livro “Amor invisível – artes e possibilidades narrativas”. É uma tese sobre arte e educação que aborda sobre a escola na sua amplitude de conteúdos, principalmente a arte, e a realidade da educação no contexto pós-moderno. A tese situa a escola que ainda é moderna no contexto pós-moderno. É uma radiografia que detecta as contradições materiais e pedagógicas em que a educação se encontra e expõe seus discentes dificultando, porque não dizer, inviabilizando a aprendizagem.



A escola, de modo geral, não tem equipamentos técnicos como projetores e/ou equipamentos tecnológicos na sala de aula, sala de cinema, auditório e ou teatro, espaço cultural para arte, quadra esportiva de qualidade e material de trabalho. Parece surreal, mas há inúmeras escolas que não têm papel higiene e água nos banheiros; algumas não têm banheiro! Com essas condições, como exigir disciplina, motivação e aprendizagem dos alunos? As boas condições materiais são condicionantes necessárias para se alcançar os bons resultados desejados à educação. É necessário que todo material, tanto de consumo como técnico, seja de qualidade e acessível a todos os profissionais e os discentes.

Como um organismo que deve ser e se manter vivo, a escola precisa alimentar seus profissionais com constantes atualizações. Exigir formação qualificada só dos professores é muito pouco; é necessário fazê-lo da gestão como um todo, passando pela merendeira, o pessoal da limpeza e manutenção até a portaria. Todo o corpo profissional deve ser atualizado anualmente. A escola deve ter missão, objetivos e metas que devem ser planejadas coletivamente e renovadas para serem cumpridas anualmente; para que esse procedimento se efetive é preciso condições materiais e recursos financeiros. Essa propositura me faz lembrar o musical, belo e primoroso, “Os miseráveis” de Victor Hugo que assisti em janeiro de 2020 em Massachusetts, nos Estados Unidos da América, produção da Framinham High School Drama Company. O detalhe memorável é que era um trabalho de ensino médio. A escola tem um teatro de primeiríssima qualidade com todos os recursos técnicos de um teatro profissional. Saí do teatro muito grato a Luiz Madrid, poeta, e sua esposa Michelle Stavola da Costa, professora e gestora escolar em Framinham, Massachusetts, que me convidaram para ver o espetáculo. Esses agradecimentos são dirigidos também aos aluno/as que comporam o elenco com qualidade técnica de intérpretes e cantore/as excepcionais. Citar um trabalho artístico dos EUA quando poderia citar um brasileiro parece um paradoxo. Cito porque os projetos desenvolvidos em escolas brasileiras deveriam ter apoio e condições materiais e financeiras que impulsionasse a escola com o fim de alcançar resultados qualitativos de excelência. Jamais conseguiremos a qualidade técnica de um trabalho daquele nível em uma escola que não tenha condições materiais, financeiras e pedagógicas para o ambiente educativo aprazível e motivador.



A arquitetura da escola é outro componente ultrapassado. Há décadas que a arquitetura escolar é projetada de forma geométrica igual a presídios. São quadrados, com as carteiras disposta em filas onde o/as aluno/as ficam um/a atrás do/a outro/a. Em muitos casos, a distribuição do/as aluno/as se dá pelo desenvolvimento cognitivo e/ou social dos discentes. Os “melhores” se sentam na frente, os bagunceiros atrás ou os mais altos atrás ou menores na frente. Esse arranjo físico é seletivo e propicia preconceitos e discriminação. A forma dinâmica que a natureza nos dá é a circular. É a forma da terra, das frutas, do sol, da lua, da nossa cabeça, dos nossos órgãos; enfim, a vida é delineada por curvas, todavia, a arquitetura da escola é quadrada. Essa geometria “curralesca” foge da lógica da visão ocular que é circular, portanto é mais um paradigma que dificulta a lógica do processo educativo. O quadrado escolar é um paradigma difícil de quebrar. Ele se apresenta como uma regra. Quando se vai construir um edifício para a prática educativa, tanto o projeto arquitetônico como o financeiro são condicionados a serem pensados de forma quadrada. São pessoas que entendem muito pouco de educação, assim como de motivação. O resultado disso é que essa escola que temos não serve!

Quanto aos currículos, os conteúdos se repetem com base em metodologias que também se repetem. Projetos são necessários à vida escolar. Não obstante a existência, são poucos e quando há, são implantados com muitas dificuldades. Em muitos casos com recursos do corpo docente. Esse emaranhado de despreparo dificulta o que é essencial no ensino-aprendizagem: inovação. Existem inúmeros estudos sobre currículo. Esse debate é constante e vertente nas universidades, faculdades, secretarias estaduais e municipais de educação. Entretanto a aplicação dessas teorias só faz sentido se existir condições materiais, financeiras e nova contextualização da escola no universo pós-moderno, caso contrário: essa escola não serve, continuará sem chegar a lugar nenhum, ou seja, apresentando índices baixíssimos desde a evasão escolar à aprendizagem.

A pós-modernidade alimenta a individualização do sujeito. O consumo, assim como a estética do olhar apenas para si, isola as pessoas do seu entorno e do pensar e viver de forma coletiva. Por conseguinte, precisamos conhecer essa realidade para compreender e colocar a diferença de classe no seio desse debate. Esses sujeitos imersos, sem autorização, no contexto pós-moderno são os mesmos que constituem a comunidade escolar. Essa realidade exige que a instituição condutora da aprendizagem debata no seu seio a diferença de classe como se fosse um componente químico que separa partículas e quebra a cadeia química do componente escolar. A sociedade está dividida em classes; essa é uma realidade irrefutável. Essa lógica econômica e social é mais um paradigma que precisa ser visualizado e quebrado na escola. A família que está situada na miséria tem uma realidade diferente daquela que está na pobreza e completamente diferente daquela de classe média que não falta comida na mesa e os filhos vão à escola de carro. Esse quadro apresenta valores morais e de conflitos familiares complexos, porém diferentes. Essa realidade chega à escola e trás consigo um notório quadro de desigualdade econômica, educativa e cultural. Então não é possível pensar, planejar e administrar a escola sem considerar a diferença real dos sujeitos ativos no ensino e na aprendizagem.

A escola deve ser o espaço para perguntas e não, necessariamente, para respostas. O sistema de comunicação existente na escola é retrógado. Em muitos casos ainda funciona o bilhetinho para os pais e alguns pais não sabem ler ou não tem tempo e interesse para ler. É como se a escola fosse um depósito de tempo para seus filho/as ficarem. Essa dicotomia que distancia a família da escola é a mesma individualização do sujeito que distancia os filhos dos pais e vice-versa. São mundos distantes e diferentes, é apartação da pós-modernidade. O contexto do pós-modernismo, digo o hoje, se caracteriza por ser plural, aberto e dinâmico, logo susceptível a questionamentos e debates, exatamente o contrário do que é a escola hoje. É como se a educação fosse uma área do conhecimento criado e alimentado por um outro mundo. O que não pode ser esquecido é que nosso mundo é simbólico; portanto essa é uma questão cultural, real, que a escola moderna não consegue trazer para si, muito menos se inserir; de modo que sou induzido à ilação de que essa escola realmente não serve. Felizmente temos profissionais que trabalham na construção de uma escola diferente. Esse é um alento utópico cuja bandeira deve ser erguida cotidianamente.   

 

 

Referências

CARTAXO, Carlos. Amor invisível: artes e possibilidades narrativas. João Pessoa, Editora do CCTA, 2015.

GOODSON, Ivor F. El cambio e El currículum. Barcelona: Octaedro, 2000.

JAMESON, Frederic. Posmodernismo y sociedad de consumo. In La posmodernidad. Barcelona: Cairos, 1986.

 

Foto : https://www.metrowestdailynews.com/photogallery/WL/20200109/NEWS/109009978/PH/1 (Os miseráveis)



This school does not serve

 

Carlos Cartaxo

 

 

               I was on a radio program in Parahyba to discuss the education budget in the state of Paraíba in 2017 when I was surprised, at the break, by an interviewer who criticized the school and wanted to know my opinion because it is no longer failing students students, that is, everyone passes by. He was also surprised when I answered with a question: who said the school is to fail? The school is to educate, train citizens. However, if the school is not training efficiently, it is irresponsible to blame only the student. This is one of the arguments of my doctoral thesis published in the book “Invisible love - arts and narrative possibilities”. It is a thesis on art and education that addresses the school in its breadth of contents, mainly art, and the reality of education in the postmodern context. The thesis places the school that is still modern in the postmodern context. It is a radiography that detects the material and pedagogical contradictions in which education is found and exposes its students, making it difficult, why not say, making learning unfeasible.

        The school, in general, does not have technical equipment such as projectors and / or technological equipment in the classroom, cinema room, auditorium and or theater, cultural space for art, quality sports court and work material. It seems surreal, but there are countless schools that lack toilet paper and water in the bathrooms; some don't have a bathroom! With these conditions, how to demand discipline, motivation and learning from students? Good material conditions are necessary conditions to achieve the good results desired for education. It is necessary that all material, both consumer and technical, be of quality and accessible to all professionals and students.

        As an organism that must be and stay alive, the school needs to feed its professionals with constant updates. Requiring qualified training only from teachers is very little; it is necessary to do this from the management as a whole, passing through the lunch box, the cleaning and maintenance personnel to the concierge. The entire professional body must be updated annually. The school must have a mission, objectives and goals that must be planned collectively and renewed to be met annually; for this procedure to take effect, material conditions and financial resources are needed. This proposal reminds me of the musical, beautiful and exquisite, “Os miserables” by Victor Hugo that I watched in January 2020 in Massachusetts, in the United States of America, produced by the Framinham High School Drama Company. The memorable detail is that it was a high school job. The school has a top quality theater with all the technical resources of a professional theater. I left the theater very grateful to Luiz Madrid, a poet, and his wife Michelle Stavola da Costa, a teacher and school manager in Framinham, Massachusetts, who invited me to see the show. These acknowledgments are also addressed to students who compose the cast with exceptional technical quality of interpreters and singers. Citing a US artwork when it could quote a Brazilian seems like a paradox. I mention why the projects developed in Brazilian schools should have support and material and financial conditions that would boost the school in order to achieve qualitative results of excellence. We will never achieve the technical quality of a job at that level in a school that does not have material, financial and pedagogical conditions for the pleasant and motivating educational environment.



            The school's architecture is another outdated component. For decades, school architecture has been designed in a geometric way like prisons. They are square, with desks arranged in rows where the student is one behind the other. In many cases, the distribution of the student is due to the cognitive and / or social development of the students. The "best" sit in the front, the messy in the back or the tallest in the back or the smallest in the front. This physical arrangement is selective and provides prejudice and discrimination. The dynamic form that nature gives us is circular. It is the shape of the earth, the fruits, the sun, the moon, our head, our organs; in short, life is outlined by curves, however, the school's architecture is square. This “curralesque” geometry differs from the logic of ocular vision, which is circular, so it is yet another paradigm that hinders the logic of the educational process. The school square is a difficult paradigm to break. It presents itself as a rule. When building a building for educational practice, both architectural and financial design are conditioned to be thought out in a square way. They are people who understand very little about education, as well as motivation. The result of this is that this school we have does not serve!

            As for the curriculum, the contents are repeated based on methodologies that are also repeated. Projects are necessary for school life. Despite their existence, they are few and when they exist, they are implemented with many difficulties. In many cases with faculty resources. This tangle of unpreparedness hinders what is essential in teaching and learning: innovation. There are numerous studies on curriculum. This debate is constant and ongoing in universities, colleges, state and municipal education departments. However, the application of these theories only makes sense if there are material, financial conditions and a new contextualization of the school in the post-modern universe, otherwise: this school does not serve, it will continue without getting anywhere, that is, presenting very low rates since school dropout the Learn.

            Postmodernity feeds the individualization of the subject. Consumption, as well as the aesthetics of looking only at oneself, isolates people from their surroundings and from thinking and living collectively. Therefore, we need to know this reality in order to understand and place the class difference within this debate. These subjects immersed, without authorization, in the postmodern context are the same ones that constitute the school community. This reality requires that the institution that conducts the learning debate within the class difference as if it were a chemical component that separates particles and breaks the chemical chain of the school component. Society is divided into classes; this is an irrefutable reality. This economic and social logic is yet another paradigm that needs to be viewed and broken at school. The family that is located in poverty has a different reality from that in poverty and completely different from that of the middle class that does not lack food on the table and the children go to school by car. This picture presents complex but different moral values ​​and family conflicts. This reality reaches the school and brings with it a notorious picture of economic, educational and cultural inequality. So it is not possible to think, plan and manage the school without considering the real difference of the active subjects in teaching and learning.

        The school should be the space for questions and not necessarily for answers. The school's existing communication system is retrograde. In many cases the note still works for parents and some parents do not know how to read or do not have the time and interest to read. It is as if the school is a deposit of time for your children to stay. This dichotomy that distances the family from the school is the same individualization of the subject that distances the children from the parents and vice versa. They are distant and different worlds, it is a separation from postmodernity. The context of postmodernism, I say today, is characterized by being plural, open and dynamic, therefore susceptible to questioning and debate, exactly the opposite of what school is today. It is as if education is an area of ​​knowledge created and fed by another world. What cannot be forgotten is that our world is symbolic; therefore, this is a real cultural issue that the modern school cannot bring to itself, let alone insert itself; so I am led to the conclusion that this school does not really serve. Fortunately we have professionals who work on building a different school. This is a utopian breath whose flag must be raised daily.


References

CARTAXO, Carlos. Amor invisível: artes e possibilidades narrativas. João Pessoa, Editora do CCTA, 2015.

GOODSON, Ivor F. El cambio e El currículum. Barcelona: Octaedro, 2000.

JAMESON, Frederic. Posmodernismo y sociedad de consumo. In La posmodernidad. Barcelona: Cairos, 1986.

https://www.facebook.com/fhsdramacompany/photos/?ref=page_internal


Photograph: https://www.metrowestdailynews.com/photogallery/WL/20200109/NEWS/109009978/PH/1 (Os miseráveis)

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Livros de autoria de Carlos Cartaxo

 Livros de Carlos Cartaxo

 

  1. Amor invisível: artes e possibilidades narrativas, 2015.
  2. Contatos, 2014.
  3. Geraldeando, 2010.
  4. Teatro determinado, 2009.
  5. Teatro de Atitudes, 2005.
  6. O Ensino das Artes Cênicas na Escola Fundamental e Média, 2001.
  7. A família Canuto e a luta camponesa na Amazônia, 1999



 

Livros - participação em coletâneas

 

  1. Teatro na Educação: caminhos e desafios (Coletânea de Artigos), 2015
  2. Arte-educação: história e práxis pedagógica – territórios híbridos e diálogos entre linguagens (Coletânea de artigos), 2012.
  3. Contos de Sábado (Coletânea de contos), 2012.
  4. Histórias de Sábado (Coletânea de contos), 2008.
  5. Sonho de Feliz Cidade (Coletânea de contos), 2007.
  6. Ação Educativa para Cidadania (Coletânea de artigos), 2007.

 


 

A Família Canuto e A Luta Camponesa na Amazônia, 1999 (Romance/Reportagem agraciado com o Prêmio Jabuti de Literatura da Câmara Brasileira do Livro em 2001).



segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

O Estrangeiro e a Cidade

Carlos Cartaxo

“The Stranger and the City", O Estrangeiro e a Cidade é a performance que apresentamos essa semana em Framingham, Massachusetts, nos Estados Unidos da América. Framingham é uma cidade que tem em torno de vinte e cinco mil brasileiros; realidade brasileira com vitórias e fracassos no contexto real norte-americano. É claro que, nesse quadro, muitas personagens se tornam marcantes porque trazem consigo a cultura brasileira, inclusive regional, de desbravamento e resistência e, em alguns casos, de analfabetismo funcional que forçosamente tem que se adaptar, viver e conviver com outra realidade, na maioria das vezes, difícil, dura e árdua.

Foto; Zoe Salvucci

Então, o que faz uma pessoa que trabalha com arte, educação e comunicação no Brasil, sair de sua casa, sua zona de conforto, em pleno verão, para desbravar horizontes e tentar descobrir novos sentidos, olhares e sentimentos?
Essa questão não tem resposta pronta; só sei que essa não é a primeira vez. Em 2011 saí para trabalhar com teatro, por dois meses, em Luanda, angola. Foi uma experiência ímpar tendo em vista a gana, o talento e determinação dos irmãos e irmãs, atores e atrizes, angolano/as. Em 2015 levei para Portugal e Holanda o monólogo “Anayde Beiriz – história a ser contada” produzido pela ADUFPB e o Suspensório Produções Artísticas e agora vim fortalecer o projeto “Babel Theater Project” que montou a performance “O Estrangeiro e a Cidade” em Framingham, Massachusetts.
Foi com o ímpeto de desbravador, pesquisador que não tem medo de ir à busca de novas informações, que deixei minhas férias de verão em Parahyba para vir pesquisar sobre histórias de vidas de brasileiros nos Estados Unidos da América. Os contatos me levaram ao grupo que construiu a experiência de “O Estrangeiro e a Cidade”, cujo tema também aborda a realidade dos brasileiros nos Estados Unidos. Fui convidado para trabalhar na performance e não relutei, abracei a oportunidade de imediato.

Foto; Zoe Salvucci

A vida cotidiana dos brasileiros emigrantes nos Estados Unidos da América não é muito diferente do que acontece no restante do mundo. Há as dificuldades objetivas: trabalho, idioma, moradia, alimentação, saúde, mobilidade, formação técnica ou acadêmica etc; mas há as dificuldades subjetivas: cultura, valores morais e éticos, religião, normas e leis, educação, segurança etc. Então, a conhecida “American way of life”, a maneira, estilo e jeito norte-americano de ser, não é tão óbvio, nem fácil de viver como se imagina. Esses fatores, que muitas vezes, são comportamentais, além de culturais, se tornam muros a serem escalados de forma correta e precisa, o que não é tão fácil o quanto se pensa ser.
Os problemas que aparecem no contexto de emigração são tantas que preocupam as autoridades e as pessoas mais conscientes e preparadas que fazem parte do processo. Essa é a questão central de “O Estrangeiro e a Cidade”. O texto foi escrito por brasileiros e brasileiras que residem nos Estados Unidos da América. De fato são relatos de experiências vividas que se transformaram em literatura. Dirigido por Ana Cândido e interpretada por artistas brasileiro/as que vivem nos EUA. Eu sou a exceção que não mora na América do Norte, mas na América do Sul.
O processo começou com logo na minha chegada a Boston pela manhã do dia 07 de dezembro. Manhã muito fria, dois graus negativos e a cidade tomada de neve. Às 14 horas me agrupei com a equipe, que já estudava o texto, e iniciamos o trabalho. Para minha surpresa encontrei um grupo extremamente qualificado; um elenco repleto de talentos.
O texto, escrito a várias mãos, é rico por ir do drama denso ao humor. O principal valor está nas personagens que de reais se tornaram ficcionais. O espetáculo é itinerante; inicia no Sofá Café, ponto de encontro para se tomar um bom café com tapioca e, apesar do frio, sai em caminhada pelo centro de Framingham para a escadaria da prefeitura da cidade onde há a cena do casamento. Em seguida segue para um prédio de escritório onde há cenas na escadaria, no “hall” central e em uma sala, a cena da imigração. Retornando, em seguida, para o Sofá Café, onde acontecem as cenas finais. São 120 minutos de emoção!
— “Meu amigo você está furando a fila”. — A fala do prólogo já inicia com uma reflexão sobre ética e respeito. Nos EUA, muitos emigrantes agem com a formação cultural própria e, muitas vezes, sem o mínimo conhecimento sobre ética e, consequentemente, valores como respeito e solidariedade. Isso tem causado um descompasso com a realidade cultural do país. No final dessa cena inicial há uma fala densa — “Ô, rapaz, você é um trapaceiro mesmo. Por que você não volta para lá de onde você veio?” —. Entra uma personagem feminina para esclarecer a situação. — “Calma pessoal, o que é isso? Ficaram loucos, é? Vamos lembrar que somos da mesma terra. Somos brasileiros, estamos aqui juntos. Viemos por um motivo. Estamos nessa juntos. Eu, por exemplo, vim aqui porque quero uma vida melhor para mim e minha família.”

Foto; Zoe Salvucci

Há personagens que narram à saga de sair do Brasil e chegar à terra de Tio Sam. Descrevem os sonhos de: chegar aos Estados Unidos da América, aprender o idioma, ter o Green Card, abrir uma empresa, ser rico e ser feliz. A felicidade é tratada como sendo a materialidade da vida. Essa concepção leva a equívocos como “o jeitinho brasileiro” que rompe com valores como ética e respeito. Esse comportamento é real, inclusive, sobrevive com base em atitudes como ter que derrubar o outro para se “dar bem”.
Em contrapartida a esse comportamento cultural refutado, há as personagens que trabalham com afinco em serviços diversos, doze, quatorze horas por dia, sem direitos trabalhistas, férias, seguro saúde, etc., de segunda a segunda. As cenas de ausência da família e de trabalho escravo, como “au pair”, emocionam porque tratam de questões que vêm de experiências reais; situações que envolvem até suicídio. Há brasileiros que se passam por médicos e exercem a profissão de forma irregular, inclusive provocando a morte de pacientes conterrâneas.   
O Estrangeiro e a cidade é um espetáculo itinerante em Framingham, EUA, com texto de: Eduardo de Oliveira, Heloísa Galvão, Jaime Zimmer, Júlia Aldana, Júlia Jannuzze, Luciana Castrillo,  Luiz Madrid, Poeta Imigrante, Ninho dos Santos, Rossane Correa e Talisgean Beknap; com adaptação de texto e direção de Ana Cândida Carneiro. O elenco é formado pelos intérpetres: Carlos Cartaxo, Catarina Costa, Lucas Laguardia, Luiz Madrid, Pedro Natividade, Pedro Teixeira, Renata da Costa, Sâmia Costa e Simoneide Almeida. A ficha técnica é composta por: Sábato Visconti na Programação Visual (Filtro de realidade aumentada); Pedro Teixeira: voz e violão; Jamie Canaan e Júlia Aldana, na iluminação e áudio; Assistente de produção e realização: Brian English.


A diretora Ana Cândido Carneiro conseguiu reunir um elenco excepcional de brasileiro/as que moram nos EUA. A exceção sou eu que estou de passagem realizando uma pesquisa em Massachusetts sobre “histórias de vidas de brasileiro/as nos EUA”. Na sua página no Facebook Ana expressou sober seu trabalho: “I would like to thank everybody that made "The Stranger and the City" possible: the writers, the actors, the whole production crew, friends and supporters, and the audience that showed up and was ready to go on this "urban theatrical trip" about immigration, and the sponsors - Mass Cultural Council and Consulado-Geral do Brasil em Boston. It was very moving to see the impact of this work on everybody. And this is just the beginning...” “Agradeço a todos os que fizeram com que "O Estrangeiro e a Cidade" fosse possível: escritores, atores, toda a equipe de produção, amigos, e a plateia que embarcou conosco nessa viagem urbana sobre experiências de imigração. Foi muito comovedor ver o impacto deste trabalho na plateia e nos participantes. E pensem que é só o começo... Grande abraço a todos.”