Romance A família Canuto

Romance A família Canuto
Romance A família Canuto e a Luta camponesa na Amazônia. Prêmio Jabuti de Literatura.

segunda-feira, 19 de junho de 2023

A estética Totonina

  A estética Totoniana

Carlos Cartaxo


Há quarenta anos, década de oitenta do século XX, eu fazia o curso de Educação Artística na UFPB quando tive a oportunidade de conhecer, estudar e trabalhar com Carlos Antonio Bezerra da Silva, o talentoso Totonho. Nesse período fui Tesoureiro, depois presidente da FPTA- Federação Paraibana de Teatro Amador. Nessa segunda gestão Totonho também fazia parte da diretoria; e, dentro do planejamento da entidade, eu visitava o Rio de Janeiro com certa frequência para participar de cursos, encontros de artes cênicas, visitas à Escola Nacional de Circo; período em que vi muitos espetáculos teatrais, nos mais diversos gêneros, e muitas vezes me hospedei na Casa Paschoal Carlos Magno no bairro Santa Tereza. Na volta à Parahyba sempre repassava as vivências e os projetos a serem implementados para a diretoria da FPTA. Em uma dessas idas ao Rio, eu tive a oportunidade de presenciar e vivenciar uma manifestação pelas eleições diretas; houve reação da polícia e uma dose violenta contra a manifestação pacífica e democrática. Eu sempre tive engajamento político desde a adolescência e participar daquele ato político, foi, para mim, um momento de aprendizagem e resistência; de modo consequente, ao retorna a Parahyba contei À diretoria da FPTA essa vivência política e vi os olhos de Totonho, que estava presente, um brilho de quem entendia e partilhava da luta pela democracia. Em seguida, dessa fase, Totonho arrumou a mala e foi morar no Rio de Janeiro com a missão de fazer um brilhante trabalho com crianças que viviam em condições de rua; deu continuidade aos estudos fazendo pós-graduação; criou e dirigiu a Organização Não Governamental “Projeto Ex-Cola; ele atuou também no projeto OBA - Oficinas Básicas de Arte, que era ação cultural contra a violência e , por conseguinte, a sua vertente musical.


Foto: Facebook de Totonho
Minha trajetória profissional voltou a se cruzar com Totonho em 2001 quando fui receber o Prêmio Jabuti de Literatura na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro e tive a oportunidade de me hospedar no apartamento de Totonho em Copacabana. Nessa data eu presenteei Totonho com o livro “A família Canuto e a luta camponesa na Amazônia”, romance/reportagem, que foi agraciado com o Prêmio Jabuti de Literatura, naquele ano, da Câmara Brasileira do Livro. Totonho colocou a obra em um baú de livros. Anos depois me disse que havia encontrado o tal romance no seu baú biblioteca. Nunca leu “A família Canuto”! Merece um puxão de orelha! Mas, ninguém lê mesmo; dizem por aí até que meu Jabuti é invenção, até afirmam que é mentira! 

Foto: Bienal Internacional do Livro do RJ, 2001. Acervo pessoal.

Esse final de semana tive a oportunidade de fazer uma imersão na obra musical de Totonho e, especificamente, pude apreciar, ouvir e decodificar, o álbum “Samba Luzia Gorda” de Totonho e os Cabra. De imediato, lembrei dos nossos estudos de estética Aristotélica na UFPB, na década de 80, século XX; não obstante, a estética formal dos conceitos Aristotélicos que fomos introduzidos, situei a estética Totoniana nos conceitos da pós-modernidade, contexto que vivemos nesse início de século XXI, terceiro milênio e que está bem localizada na obra do compositor e cantor aqui lembrado. A estética Totoniana trás consigo as bandeiras pós-modernas de: 1) ser uma obra aberta, disjuntiva e plural, contrariando o espaço disjuntivo e fechado da modernidade; 2) ter uma base na cultura popular; 3) transita entre estilos, ou seja, erudita pela criação rebuscada da literatura de Totonho; contemporânea pelo fato da pluralidade instrumental das composições.


Foto: Facebook de Totonho

Encontro da obra de Totonho a fala do meu personagem Rubens do meu romance  “Amor invisível: artes e possibilidades narrativas” quando diz que:

一 A pós-modernidade é um beija-flor que voa ao passado para trazer o pólen que se junta aos problemas do presente, contextualizando o imbróglio do cotidiano 一 pulsando didaticamente 一 como, por exemplo, a contaminação do meio-ambiente, a discriminação racial e a igualdade de gênero. Essa junção de tratamentos ideológicos, culturais e sociais, desperta para uma ordem que provoca uma análise crítica e desencadeia atitudes construtivas, e colocando a sociedade defronte do tão sonhado  progresso que a industrialização tanto propagou” (Cartaxo, 2015, p.363). 

Na música  “Tem mais igreja que supermercado” , Totonho coloca suas composições dentro de um parâmetro estético pós-moderno que possibilita a abertura do conteúdo além de uma abordagem apenas religiosa. Com essa composição, perfilo Totonho na categoria de artista ironista, aquele que extrapola, em muito, o enquadramento apenas romântico ou mesmo emocional. Inclusive, o instrumental da música citada, faz um hino que deveria ser abordado nas ruas, praças, mesas e até em igrejas.

 TEM MAIS IGREJA DO QUE SUPERMERCADO 

(Totonho)

A alma anda roubando o alimento do corpo

Tem mais igreja do que supermercado

Tem muito mais igreja do que supermercado

E a graninha do pacote de feijão

É a mesma grana pra obter a salvação

Tem mais igreja do que supermercado

Tem muito mais igreja do que supermercado


Em nome do pai, do filho, do Espírito Santo

Passe pra esse canto qualquer coisa de valor

Em nome do pai, do filho, do Espírito Santo

Porque Jesus não quer apenas teu amor


Ó Deus, me faz um instrumento teu

Que apenas tu possa me tocar

Que eu não quero virar

O pasto do pastor

A brasa do defumador

Uma parte do terço

A farsa da fé tirada de mim

E vendida pra mim mesmo


Tem mais igreja do que supermercado

Tem muito mais igreja do que supermercado


Foto: Facebook de Totonho


A música Nhém, nhém, nhém é outra obra prima que demonstra sua relação com a igreja e sua transcendência cultural; afinal, seu ser foi batizado; em seguida, ele trafega pelo Tibete, passa pelo Zapatismo mexicano, deságua em uma aldeia Tabajara no litoral paraibano e vai pelo mundo à fora feito um cabra desenbestado; enfim a estética Totoniana é universal. 


Nhém Nhém Nhém

(Totonho & Os cabra)


Desde que fui batizado

Minha alma amarelou

Minha pele era negra, desbotou

Hare Krishna em labareda

Pega teu kichute e dança, uma valsa

Felicites os Tibetanos, pela calma

O furor da inteligência

Fez a USA usar bem

Uma quenga zapatista

No alto de Suassuna

Toque sanfoneiro

Nessa pele de cordeiro

Beba esse chá de bússola

Feito por esse mestiço

Pelas ondas tabajaras

Ouço o rinchar das mulas

Um dia ainda te escrevo

De um banco de praça da cidade do Cabo Canaveral

Porque a areia é fina

Ciranda é uma roda

Por que sonhos não se limitam à artistas

Os tubarões de Pernambuco não toleram surfistas

Nhém nhém nhém nhém

Nhém nhém nhém

Nhém nhém nhém

Hare Krishna em labareda

Pega teu kichute e dança, uma valsa

Felicites os Tibetanos, pela calma

O furor da inteligência

Fez a USA usar bem

Uma quenga zapatista

No alto de Suassuna

Toque sanfoneiro

Nessa pele de cordeiro

Beba esse chá de bússola

Feito por esse mestiço

Pelas ondas tabajaras

Ouço o rinchar das mulas

Um dia ainda te escrevo

De um banco de praça da cidade do Cabo Canaveral

Porque a areia é fina

Ciranda é uma roda

Por que sonhos não se limitam à artistas

Os tubarões de Pernambuco não toleram surfistas

Porque a areia é fina

Ciranda é uma roda

Por que sonhos não se limitam à artistas

Os tubarões de Pernambuco não toleram surfistas

Nhém nhém nhém nhém

Nhém nhém nhém

Nhém nhém nhém


Consciente de minha afeição pela obra de Totonho como compositor, cantor e músico, me coloco na posição de suspeito, por tercer além do aqui escrito, um mergulho filosófico ou estético sobre a obra do egrégio artista; todavia me dou o direito de convidar a todo/as para mergulhar, com profundidade, no trabalho desse nobre cancioneiro paraibano. Como a estética Totoniana toca o âmago da minha sensibilidade; é possível que também lhe emocione tanto quanto faz comigo. Que assim seja, na igreja ou no palco que for!


Fonte:

Cartaxo, Carlos. Amor invisível: artes e possibilidades narrativas. João Pessoa: Editora do CCTA, 2015.

https://www.last.fm/pt/music/Totonho+&+Os+Cabra/+wiki

quinta-feira, 2 de março de 2023

Amazônia meu amor

Amazônia meu amor

 Carlos Cartaxo

Há coisas na vida que deveriam ser registradas, se possível, através de escritas para ficarem para a eternidade; talvez em livros, inclusive, cada livro com muitos capítulos; deveriam ser documentadas em audiovisuais e visitadas; no caso da Amazônia em especial, essa vivência deveria ser experienciada por todo mundo, para se entender e comprovar a beleza representada pela natureza, que é a vida! A Amazônia é um desses universos encantadores; um mundo repleto de seres vivos que pertencem a outro mundo, na caso o planeta terra; é uma dádiva que está ao nosso alcance, à percepção da nossa vista e a acuidade do nosso desfrute. Viver a Amazônia é trazer para si um redemoinho de sensações, um turbilhão de emoções que alimenta a alma e a matéria.

Iniciar um artigo com elogios talvez não seja a melhor metodologia para escrever; contudo, é necessário ser transparente quantos aos sentimentos quando se fala da natureza e do encantamento de uma grande floresta. É difícil descrever o prazer de um banho em um igarapé. A primeira vez que desfrutei do mergulho em um igarapé em Belém, Pará, foi um capítulo com mais uma lição que introduziu meu amor pela Amazônia. A água limpa e fria, deslizava massageando o corpo sem pedir licença; em um ambiente cercado por árvores que ornavam o lugar com um verde, cujas matizes são colírio para a vista cansada de tanto ler o mundo cruel.

Eu tinha dificuldade de entender, na infância, o porquê do meu interesse em conhecer parte do planeta. O exterior, suas diferenças e suas culturas sempre me fascinaram. De repente, não mais que de repente, em 1989, minha mãe, dona Lindalva, conseguiu um emprego para mim, como engenheiro no grupo empresarial Marcos Marcelino, de um paraibano, em Belém do Pará; momento em que a janela da Amazônia se abriu para mim. Algumas surpresas me chegaram inesperadamente, dentre elas, a de que muitos nordestinos migraram para a Amazônia e passaram a viver naquele universo verde. Encontrei tantos conterrâneos paraibanos e nordestinos, de modo geral, que me senti em casa. Após dois anos trabalhando em empresas privadas, fiz concurso, em Belém, para a saudosa Universidade Federal do Pará - UFPA, passei na seleção e lá fui trabalhar. Através dos projetos de interiorização tive a oportunidade de ministrar cursos no interior do estado, ensinar e aprender com os paraenses e, naturalmente, com o povo da Amazônia brasileira. Como resultado dessa imersão, a cultura amazônida adentrou meu ser e me tocou profundamente; seja na gastronomia, nas artes, no vocabulário, na gentileza, na geografia, na história dos nativos, na fauna e na flora. 

Em Belém conheci a saga da família Canuto; motivado pela trágica história dessa família escrevi o romance: “A família Canuto e a luta camponesa na Amazônia”, agraciado com o Prêmio Jabuti de Literatura; como quase todos os envolvidos nesse caso foram assassinados, inclusive dois deputados, eu fui transferido pelo Ministério da Justiça da UFPA para a UFPB. A Amazônia poderia ter ficado para trás; mas veio dentro do meu coração e, mesmo distante, eu fiquei dentro dela porque meu coração também é verde e faz circular água límpida dos igarapés por minha memória. 


Nesse período que morei em Belém tive a oportunidade de conhecer Rio Branco, no Acre, que tinha uma população em torno de 196 mil habitantes. O tempo voou e chegamos a 2023; pela segunda vez retornei a Rio Branco, hoje com população em torno de 420 mil habitantes. Em 30 anos muita coisa mudou; como era de se esperar, a cidade mudou consideravelmente e, felizmente, a cultura permaneceu forte, exuberante, representativa e agradável. Sempre adotei o princípio de conhecer os mercados públicos nas cidades que visito porque é lá que a vida pulsa. Pois bem, assim o fiz em Rio Branco e fui comer uma rabada no tucupi nas proximidades do Mercado Municipal Elias Mansour e um tacacá na feira gastronômica do Mercado Velho. A nostalgia foi arrebatada pela alegria conduzida pelo sentimento de que a cultura amazônida está muito viva dentro de mim. Meu ser lírico voltou mais poético e consciente de que a Amazônia é a morada de todas as pessoas que amam a natureza e, por conseguinte, a vida. Eu confesso que retornei de Rio Branco com o sentimento de que o  amor voltou mais forte dentro de mim.


Capivaras no Campus da UFAC, Rio Branco, AC.
 

O povo brasileiro conhece pouco a Amazônia; conhece o folclore narrado pela ótica do branco colonizador; contudo, a cultura e a história faltam muito o que conhecer.  Conhecemos pouco sobre a Cabanagem, revolta popular desencadeada na Província Do Grão-Pará, cuja cidade principal era Belém, região considerada a porta da Amazônia.  Esse evento aconteceu na primeira metade do século XIX, exatamente de 1835 a 1840. O que a gerou foi uma grande crise econômica com graves reflexos sociais que afetou aquela localidade, período em que o Brasil imperial estava sob uma administração regencial, ou seja, Dom Pedro I abdicou do trono e Dom Pedro II, seu sucessor, era menor idade, por conseguinte, à luz da lei, o Brasil passou a ser governado por regentes. A cabanagem foi uma revolta violenta liderada por índios, pretos e caboclos, sofrido povo pobre da região. Esse movimento revolucionário popular foi sumariamente dizimado pelas tropas da regência. Além da Cabanagem, conhecemos muito pouco sobre a Revolução Acreana. Na visita ao Palácio Rio Branco, onde se encontram imagens sobre o Acre e sua revolução, encontrei uma trilha imagética sobre o conflito que resultou na Revolução e consolidação do estado do Acre. Foi uma pugna econômica sobre o comércio da borracha, o que resultou em prélio entre Bolívia e Brasil, em pleno período da Primeira República Brasileira. A minha recente estadia em Rio Branco fortaleceu a convicção de que a Cabanagem e a Revolução Acreana são  parte da nossa história que conhecemos muito pouco; por esse motivo precisa ser estudada e divulgada. A história da Amazônia nos ensina que o brasileiro é resistente e combatente em defesa do nosso território e dos nossos direitos.

Mesmo com todo encantamento da Amazônia, há quem defenda o desmatamento e a destruição dos rios, inclusive, com poluição de mercúrio, além do desmantelamento recente realizado na FUNAI, no IBAMA e a transformação do Ministério do Meio-Ambiente em ancoradouro do tráfico de madeira. O falso messias, também conhecido como genocida, anistiou criminosos ambientais e apoiou procedimentos ilegais de grilagem em terras públicas, mineração ilegal, tráfico de ouro  e genocídio contra os indígenas Yanomami e demais povos nativos entre outras regiões do país.

 


É hora de fortalecermos a luta em defesa do meio-ambiente, no mundo inteiro, inclusive contextualizando-a na condição pós-moderna em que estamos vivendo. O atual governo, democraticamente eleito para o Brasil, é um fio condutor que pode viabilizar a continuidade da defesa da Amazônia e dos povos nativos. Por isso, minha volta recente à Amazônia, mais especificamente ao Acre, me estimulou a escrever sobre esse tema tão nobre e reacendeu, em mim, o amor pela região, sua cultura e seu povo.  

Meu compromisso com o meio-ambiente é antigo e está registrado na minha literatura. O meu livro "Teatro de Atitudes" tornou público os textos teatrais “O Espigão Gaiato” e "O Tico-tico Cantador". O primeiro foi escrito para uma montagem do gênero teatro de rua, em Parahyba, e teve o papel de provocar “os meios de comunicação e a sociedade em geral que, por conseguinte, pressionou a Assembleia Legislativo a tomar uma atitude determinante, no caso, a aprovação de um artigo na Constituição Estadual que proíbe a construção de edifícios com mais de quatro andares, gabarito de 32 metros de altura, a menos de 500 metros da praia” quando da maré alta, ou seja, maré de sizígia. Esse artigo constitucional, evidentemente, vale para todo o litoral paraibano; todavia, interesses econômicos modificaram e agora está restrito a 150 metros. Já O Tico-tico Cantador, texto teatral para crianças e adolescentes, eventualmente para adultos, “conduz, ludicamente, o público, independentemente de faixa etária, a atitude sensível e inteligente de coibir a prisão e a caça de passarinhos”. Associar o teatro e a literatura ao meio-ambiente é uma ação natural que trago comigo, seja nas minhas intervenções educativas, políticas, sociais ou artísticas.


A imersão no universo amazônida me tem feito um ser humano melhor; um intelectual em equilíbrio com seu entorno, que morou na Amazônia e a traz pulsante no peito. Sempre que lembro da gastronomia minha boca saliva espontaneamente; o cheiro das ervas limpa da alma aos poros; a simplicidade do povo nativo me faz rever meu ímpeto consumista; as pesquisas desenvolvidas na região enaltecem meu credo na ciência e minha identidade científica. No fundo, sou grato por ter a nacionalidade em que está a maior parte geográfica da Amazônia; sou grato por ter morado na Amazônia e ter conhecido e me convencido de que precisamos continuar a lutar para mantê-la livre das mazelas do consumismo e da ganância devastadora do capitalismo. A gratidão me faz bradar em alto e bom som: Amazônia meu amor.


segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Virando a página

                                                                    Virando a página

Carlos Cartaxo


Sempre que o ano termina muitos de nós planejam virar a página da vida; seja no trabalho, no comportamento, no amor; enfim, virar a página para renovar e evoluir. Da pré-história à pós-modernidade o ser humano tem evoluído de forma surpreendente; essa leitura na linha do tempo me faz terminar o ano de 2022 vendo algumas passagens que me marcaram durante o corrente ano. A efígie que me surge à mente suscita uma análise sobre o nível de leitura e o inesperado efeito que me ocasiona e me faz mais reflexivo. Falar dos benefícios da leitura é pleonástico; por isso, é inevitável trazer à tona a pergunta: por que tanta gente conhecida não gosta de leitura e não tem o livro e o conhecimento como aliado à evolução pessoal e à felicidade? 

Eu fui presenteado por minha amiga Isabel Cristina com o livro de poesias Inquietações de José Florentino Neto. É redundante falar da sensibilidade e nível cultural de minha amiga e irmã Isabel; mas, inspirado na empatia de comungarmos do mesmo apreço, peço licença ao autor para publicar uma poesia do seu livro que é referência para se virar a página através da literatura.


“MARCHA

Diante do quadro caótico

Incentivo ao comércio bélico

Finjo nada bucólico

Semblante quão melancólico


Manifestos e gestos mil

Por esse Brasil varonil

Direita, esquerda, volver

Pra jamais se arrepender


Sem lisura nem doçura

Caminha tranquilo, sereno

Nas ruas dessa cidade

Com um bando de gato pingado


Hoje tem grito de guerra

Somos uníssonos a palar

Sentido forte e sangrento

Por um país tão barulhento


Verborragia é sua cartilha

Pois não passou do bê-a-bá

Segue consigo a matilha

Desfilando sua artilharia


Faixas, cartazes, bandeiras

Imagem que a realidade clareia

Vidas negras importam

Quero te ver respirar”

Foto: Carlos Cartaxo

A publicação do poema de José Florentino Neto não passa por uma crítica de arte de minha parte; afinal, eu não sou crítico literário; contudo, esse trabalho representa a virada de página que a literatura nos possibilita realizar e vivenciar ratificando a possibilidade de ser e refazer o brilho da nossa trajetória.

Abordo essa questão porque presenteei minha amiga Maria com meu livro de contos “Contatos” porque  sei que ela não tem o hábito da leitura e gostaria de tê-lo. A mesma, certa vez, me perguntou o que deveria fazer para gostar de ler; pois, tem bloqueio e, ao iniciar uma leitura, não consegue virar a página para dar continuidade ao mergulho no universo literário. Essa questão também passa por dois amigos, vizinhos, que estão no campo ideológico da direita que, por não lerem, têm uma leitura de mundo egoísta e excludente. Como a leitura nos conduz a viagens inimagináveis, ler pode ser um risco a essas pessoas porque as colocam diante de mundos que podem ser surpreendentes, por isso insuportáveis. 

Foto: Carlos Cartaxo

Esse comportamento de imersão na leitura é "perigoso'' porque possibilita a compreensão das diferenças de classes e das contradições sociais, o que ratifica a tese de que a evolução do ser humano depende da leitura plural e múltipla no que concerne ao gênero, estilo e conteúdo. 

É fato que a falta de leitura limita a visão de futuro, a análise interior, a percepção dos contrários, o senso de solidariedade, a cultura de comportamentos éticos, o entendimento dos direitos humanos, os valores étnicos-raciais, a defesa do meio-ambiente, o respeito para com o próximo, o combate à corrupção, a crítica e autocrítica e o entendimento do que venha a ser o amor.

Foto da internet 

Com o intuito propositivo de abrir portas, janelas e mentes à leitura, abordo sobre o projeto excelso  Literature Vs Traffic (Literatura vs Tráfego), uma intervenção cultural em que livros tomam conta de uma rua de Toronto no Canadá. É um festival artístico em que as ruas se tornam rios de saber com a disposição de livros para permuta e doação. São 10.000 livros que provocam um efeito visual instigador que, naturalmente, introduz o conceito de intervenção artística como fonte de formação cultural. O fácil acesso a livros estimula a cultura da leitura e faz do Canadá um país desenvolvido e, por conseguinte, evoluído. Segundo greenme.com.br, o “Luzinterruptus, grupo anônimo responsável pela intervenção urbana, recebeu os livros do Exército da Salvação. Além disso, mais de 50 voluntários trabalharam por mais de 12 dias para preencher a rua com os livros”. O ruído de veículos e a poluição gerada por estes cedem lugar à luz do conhecimento que são emitidas a partir das páginas ali acessíveis e consultadas. O grupo realizador, segundo o GreenMe, afirma que “Os livros estão lá para aqueles que querem levá-los. Desta maneira a intervenção vai se reciclando e durará tanto quanto as pessoas quiserem que dure“. A intervenção durou 10 horas e marcou o consciente e inconsciente de muita gente, inclusive eu.

                                                                     Foto da internet 

No Brasil há inúmeros projetos de rodas de leitura e estímulo à leitura. Cito dois que estão próximos de mim e me enobrece partilhá-los: 1) a Biblioteca do Mar, em Jacumã, Conde, Paraíba; e 2) Roda de Leitura do CENEP, em Nova Palmeira, Paraíba; contudo, falta uma política pública de acesso e incentivo à leitura. Como exemplo, cito um edital do Governo da Paraíba, através da FUNESC, que lançou o edital N° 017/2022 do Prêmio Literário José Lins do Rego; eu fiquei absorto com o dito "prêmio": é zero em dinheiro!  O livro premiado só pode ter no máximo 90 laudas escritas (entendo páginas). A edição de cada obra terá a publicação de 300 livros e o autor só terá direito a 50 volumes, como pagamento dos direitos autorais. Se é assim, entendo como sendo a usurpação da criatividade e  do trabalho do autor; além de que, a exigência do romance ter no máximo 90 laudas é um acinte; é atrofiar o trabalho úbere do romancista! Em ano de eleições, um edital desse só vai no sentido contrário da candidatura à reeleição do governador e nos leva a crer que é um edital direcionado para apenas um grupo de pessoas! O governador foi reeleito, só nos resta saber se essa política terá continuidade. Se for, é mais um pesadelo da incompetência e do direcionamento indesejável da política cultural em um estado da federação cuja produção cultural é significativa por ser representativa e exponencial.

Apesar do pouco estímulo à leitura, do pouco acesso das crianças ao universo literário e, por conseguinte, do excesso de adultos não leitores, faz-se necessário a virada da página para que continuemos a plantar conhecimento na busca de  colhermos sabedoria.

 


Referências

CARTAXO, Carlos. Contatos. João Pessoa: Editora do CCTA, 2014.

FLORENTINO NETO, José. Inquietações, João Pessoa: Ideia, 2022.


Internet

https://www.facebook.com/nossabibliotecadomar2019/

https://irmaoslivreiros.com.br/artistas-inundam-as-ruas-do-canada-com-10-mil-livros/

https://www.greenme.com.br/viver/arte-e-cultura/63625-10-000-livros-tomam-conta-de-uma-rua-em-toronto/

https://www.facebook.com/590118814398905/posts/1642855609125215/ (CENEP)

sábado, 15 de outubro de 2022

O amor além de 40 anos

 O amor além de 40 anos

Carlos Cartaxo



Nesse momento em que o Brasil volta ao mapa da fome, eu completo quarenta anos de formado como engenheiro mecânico, olhando para trás, enxergando onde estou, e, a espera de um futuro baseado em um presente que, apesar dos espinhos e percalços, tem o aroma de flores que exalam uma história de vida florida, sem medo de erra, com amor. Da minha turma de formandos, todos fizeram carreia profissional que é motivo de orgulho. Essa grupo de jovens senhores está bem e, felizmente, contando belas histórias de vidasLembro que histórias de vidas é uma área do conhecimento que trato no meu livro “Amor invisível: artes e possibilidades narrativas”, resultado da minha tese de doutorado. Esse tema foi fonte de pesquisa do inglês Ivor F. Goodson e despertou em mim a necessidade de seguir essa vereda para encontrar a construção do conhecimento em meus pares e em mim mesmo.

Não obstante, esses avanços pessoaisolho para meu entorno e vejo que há muito o que fazer pelo próximo que está escondido pela invisibilidade das diferenças sociais. Segundo a ActionAid, através do seu programa de combate a fome no Brasil: “A fome dobrou nas famílias com crianças de até 10 anos de idade, entre 2020 e 2022. E o número total de pessoas que passam fome superou os 33 milhões. Uma piora absurda em um cenário que já era inaceitável”. Eu não gostaria de escrever sobre esse tema; contudo, vivemos um momento em que se faz necessário refletir, analisar e criticar a situação a qual o povo brasileiro está imerso.

É assertivo afirmar que a fome tem lugar, classe social, gênero e cor. Essa é uma condição instituída em todo o mundo; todavia, olho para o arrabalde e vejo meu povo humilde mergulhado em uma condição social deplorável; e, eu, como cristão, não posso me eximir de debater o tema. Inicio identificando minha infância pobre e o ingresso, como estudante, na Universidade Federal da Paraíba. Olho a história e identifico a minha turma de engenharia na UFPB, jovens de vários matizes que tiveram acesso a uma universidade pública e gratuita e construíram admirável carreira profissional e pessoal. Essa história deve ser a evolução social e profissional de todo jovem brasileiro em detrimento de sua classe social.


                                                            Fonte: 
Arquivo/Agência Brasil

Em homenagem aos 40 anos de graduados, escrevi o texto abaixo, em forma de conto, para resgatar, mesmo que nostalgicamente, a trajetória dos jovens engenheiros, hoje senhores aposentados ou em fase de aposentadoria. Vejamos:

“Quando amanheço, sem pão e sem trabalho, vendo no meu agasalho, os remendos de outra cor”; com essa música de Linda Batista, a mãe sempre entoava essa canção para o filho quando o colocava no coloA frase sem pão e sem trabalho ficou no inconsciente do garoto, por incrível que pareça, até a fase da sua juventudee, com ela, cresceu e se tornou homem e profissional da engenharia e da educação.

Como era de praxe, sempre que a mãe apresentava o filho para alguém, demonstrava alegria e orgulho, e, perguntava:

 Meu filho, quando crescer vai ser o quê?

Ele sempre queria ser médico, professor, policial, enfim, a resposta dependia do momento e circunstância, de acordo com o universo infantil. Esse foi mais um lexema que ficou gravado e seguiu as mutações fisiológicas e intelectuais do rapaz. Na adolescência, ele ouvia “Amanhã vai ser outro dia”, cancão de Chico Buarque, metáfora que se reportava ao fim da ditadura militar vigente no Brasil à época e a esperança da consolidação de um país democrata. Nessa fase, ele teve acesso aos conceitos de solidariedade e humanidade que tinham relação direta com os princípios cristãos que o mesmo recebeu quando da infância na igreja católica.

Com esforço e dedicação, ele terminou o ensino médio, digo, o segundo grau, apaixonado pelo conteúdo termodinâmica, da física, o que o motivou a prestar vestibular, depois PSS Processo Seletivo Seriado, para o curso de Engenharia Mecânica. Essa escolha resultou na aprovação para o referido curso na Universidade Federal da Paraíba em 1978.

Na universidade, pública e gratuita, mais especificamente, a magnífica UFPBencontrou dezenas de guerreiros, cavaleiros quixoteanos, que empunharam a lança nos estudos com o fim de concretizar o projeto de suas vidas de serem engenheiros. Fora muitas noites acordadas, fins de semanas dedicados aos livros, na sua maioria emprestados, “colas” ou “filas” que reforçavam a segurança para quebrarem os muros das dificuldades didáticasmais uma vez a solidariedade se fez presente na vida daquele jovem.

Assim, a década de setenta adentrou a década de oitenta do século XX e, mais especificamente em 1982, como uma alvorada que nos traz a luz de um novo dia, aqueles cavaleiros rútilos chegaram ao fim da missão estudantil e se graduaram engenheiros mecânicos.

Como a sensibilidade humana é um alimento subjetivo que é construído ao longo do tempo, aquele jovem, hoje senhor, compreendeu que deveria resgatar os valores, as conquistas, as dificuldades e as alegrias. Sempre lembrava do gingado futebolístico de Cerezo; do sorriso autêntico de Risadinha; do brilho avermelhado no fusquinha de Cici; do representativo e volumoso Buda; dos trejeitos do “índio” Potiguara; dPreto caprichoso que, na sala, só sentava na frente; da paixão incomensurável do galã Paqueradordo sertanejo Andorinhada tranquilidade de o Gênio; da Pomba que trafegava por pontesdPitoresco Nonó do sertão; dWolvo engenheiro transformista em juiz; do Bornai de Cruz das Armas; dPoeta baienense; dBaixinho invocado sergipano; do Leo grandão; do cientista que se tornou bancário; e do Cachaça que não era alcoólatra. A idade avançou para aquela criança, inicialmente, aqui citada, e, certamente, o presenteou com o esquecimento do apelido de nobres colegas que não foram citados, mas que fazem parte das vidas de todos os que comungaram daqueles momentos.

O tempo abriu caminho e aquele garoto, ou melhor, aqueles garotos, se tornaram sessentões e tiveram a dádiva de completarem quatro décadas de formados; honrosamente, engenheiros mecânicos. São quarenta anos alicerçados em bravuras, conquistas e vitórias. E uma pequena parte da história da UFPB; é o reflexo de uma sociedade que construída com base no conhecimento se fez realidade. Que a história, banhada por nostalgia, faça com que esses engenheiros e seus familiares sejam muito felizes e gratos pela universidade, no caso, a UFPB, e pela sociedade que propiciou condições materiais e pedagógicas para a consolidação do projeto de vida de todos eles.

Que a felicidade os abrace alimentando a gratidão por serem frutos de uma universidade pública, gratuita e de qualidade.

Viva a UFPB!

Viva os engenheiros mecânicos que, na labuta, fazem história.



                                               Fonte: Arquivo dos engenheiros mecânicos, UFPB, 781.

O texto acima, digo conto, é um álibi que ratifica a importância da educação e, em especial, da universidade pública na formação de jovens e na estruturação de um país que consolida oportunidades para todos, efetivando uma sociedade sem pobreza e socialmente justa, onde as pessoas tenham capacidade de criar mudanças para si mesmas, para o próximo e para suas comunidades.

Dentro do meu conceito de que, para sermos felizes, precisamos disseminar o amor, brado, sem medo de ser feliz, que se faz necessário socializar o conhecimento e, evidentemente, oportunidades concretas e reais para que todos, sem exceção de classe social, gênero, cor e origem, entenda-se lugar, galguem patamares evolutivos, que é a missão de todo ser humano na passagem material pelo planeta terra.

É salutar e conveniente que eu conclua esse breve texto desejando abraçar todas as pessoas, gente que, como eu, defende e pensa pela lógica de valores universais como “respeito mútuo, integridade, equidade, justiça solidariedade com as pessoas que vivem em situação de pobreza e exclusão e que tenham coragem de mudar, evoluindo na busca de assumir nossas convicções com independência e humildade”; princípios da já citada ONG ActionAid. Dessa forma, iluminemos o presente para fazer brilhar o futuro; consideremos que o amor é muito mais que uma simples paixão, muito mais que apenas olhar para o seu próprio umbigo; enxerguemos que no horizonte também se encontra o próximo; um ser vivo, humano ou não, o qual é nosso irmão. Que o amor prevaleça muito além de 40 anos e nos faça criaturas benévolas com o ímpeto de disseminar a semente do afeto e da fraternidadeIsso tem nome: amor.



Referências


CARTAXO, Carlos. Amor invisível: artes e possibilidades narrativas. João Pessoa, Ed. do CCTA, 2015.

GOODSON, Ivor F. Historias de vida del profesorado. Barcelona: Octaedro, 2004.


https://combateafome.org.br/