Carlos Cartaxo
Descobrir coisas novas é muito bom e quando é surpresa torna-se maravilhoso! Foi assim na passagem do ano 2025 para 2026 quando descobri a poesia de Piedade Farias. Eu a conheci no final dos anos setenta para início dos anos oitenta, século XX; eu cursava engenharia mecânica na Universidade Federal da Paraíba e ela arquitetura. De fato não a conheci, apenas convivi, fomos contemporâneos nos estudos e na política; digo na política porque à época o Brasil estava sob a ditadura militar que iniciou em 1964. Um dos canais de formação e resistência ao período ditatorial, foi o movimento estudantil, do qual participamos, e, por conseguinte, teve um papel importante no processo de redemocratização do país e na nossa formação intelectual e ideológica.
Há Teorias que separam arte da política; todavia, há criadore/as artístico/as que trazem nas suas realizações a política como conteúdo inserido ao processo criativo. Esse é o caso de Piedade Farias, poetisa que passei a admirar. Aprecio sua poesia pela ligação com a cultura popular e com as causas sociais. Sua arte é suave, ritmada e politizada, sem perder a ternura, além de que, traz também humor e docilidade, características da escritora, conforme se constata na poesia “Corre da praça minha gente que agora a praça é dos crente” (p.113 do livro Cantares de obras).
Como professor da disciplina “Técnica e estética da voz”, no Departamento de Comunicação da Universidade Federal da Paraíba, trabalhei, metodologicamente, com poemas de três livros de Pié nos exercícios de leitura, entonação e inflexão de voz. Alguns poemas que os aluno/as escolheram foram: “A cor verde”, “A cor Branca”, “A cor azul”, “A cor preta”, do livro Arco-íris de alfenim; “Dia de inscrição para futuros alunos” do livro Cantares de obras; “A roda” do livro Balaio, Sinhá. Por coincidência eu também me identifico com os textos selecionados pelos alunos. Então, eu peço licença à autora, Pié Farias, para publicar aqui os poemas citados.
A cor verde
Veio um grilo sorrateiro
Nos meus cabelos morar
Era verde, todo verde
Vivia alegre a pular
Como eu ia lhe chamar?
Alegria ou Esperança,
Esperança ou Alegria…
Que nome eu ia lhe dar?
“Alegrilo”, eu chamaria.
Alegrilo, verde, verde…
Outro, passeando,
Num jardim cheio de verde
Fui carregando Alegrilo
Com seu jeito de ousar.
Alegrilo ia pulando
Pulando pra lá e pra cá.
E pulou dentro das folhas
Se confundindo com o verde!
Eu fiquei a lhe chamar:
一 Alegrilo, volte, volte…
Vê se não me faz chorar
Procurei de verde em verde
(E se quiser acreditar…)
Meus olhos ficaram verdes
De tanto verde olhar
Procurando Alegrilo.
Quem me ajuda a encontrar?
A cor branca vestiu roupa de fantasma
Ficando mais branca ainda.
Olhou-se no espelho:
Que susto!
Como estava branca!
Então começou a dar tapinhas
Nas suas próprias bochechas:
一 Por que não ficam rosadinhas?
Foi quando teve uma ideia;
一 E se eu me enfeitasse?
É. Talvez ganhasse um pouquinho de cor.
O espelho falou:
一 Quem sabe?
E ela então começou.
Pegou os sapatos da mãe
(aqueles que são bem altos),
Pegou a bolsa e o colar
E cinto igual aos sapatos.
Foi novamente ao espelho.
Nossa! Como ela é descuidada.
Pois não é que tinha posto
Sapatos brancos, tão brancos,
Bolsa, cinto... Tudo branco!
Até as continhas do colar! Coitada!
Ficou tão desapontada
Que perguntou:
一 E agora, que jeito eu dou?
Foi quando pensou, de leve:
一 Vou brincar de não ter cor.
E virou bola de neve.
A cor azul
Um menino estabanado
Derramou todo o tinteiro
Nas águas turvas do mar.
O mar virou espelho azul
Onde um barco deslizando
Convidava a navegar.
O céu achou esquisito
E veio olhar de pertinho
O que tinha acontecido.
Quando olhou viu refletido
Que também era azul,
De um azul muito bonito.
De azul, pintado o céu,
De azul, pintado o mar
Com um barco a deslizar.
O menino pensou rápido:
"Isso é muito divertido!"
E quis de azul se pintar.
A cor pretra
Quando é noite, a cor preta suspende pelos ares
O seu decote imenso de mistérios
E mares profundos
Onde navegam histórias antigas
De porões escuros, correntes,
Iaras, lobisomens,
Segredos de jurema, matas fechadas
E sacis pretos como a noite!
Contam que, na noite, se soltam os ventos maus,
O mar vira lamento,
A vida, engano.
A mãe pede:
一 É tarde. Dorme, filhinho.
一 Sua bênção, Papai do céu.
Sua bênção, Mamãe do céu.
Sua bênção, dindinha* Lua
A lua branca bóia no mar negro da noite.
(*"Dindinha" quer dizer Madrinha.)
Dia de inscrição para futuros alunos
Nesse tempo de agora
Chegam as meninas grávidas
Aos dezesseis ou dezessete anos
O filho pequeno lhe puxando a saia
Tudo é espanto
Em sua travessia ao futuro…
Também chegam os rapazes
De que lares?
A fila atinge rápido o fim do muro.
Sonha uma instrutora da Oficina
Com a igreja antiga enfim restaurada
E a escultura da praça novamente limpa
A forja (entre outros edifícios) resgatada.
Estranha sina:
Nem a instrutora sabe quanto aprende
Nem o aluno sabe que ensina…
A roda
Roda a roda na calçada
Sobre esse rastro de prata
Que a noite é de luar…
Anda, anda cirandinha
Uma canção vou cantar
Dê-me aqui a sua mão
Vamos todos cirandar…
Atiraram o pau no gato
Acertou em Terezinha
Credo em Cruz, que confusão!
A rosa brigou com o cravo
Naquele momento exato
Em que ela foi ao chão…
Referências
FARIAS, Piedade. Arco-íris de alfenim. João Pessoa: A União, 2016.
一 Balaio, Sinhá. João Pessoa: Ideia, 2020.
一 Cantares de obras. João Pessoa: Mídia Gráfica e Editora, 2022.
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