Romance A família Canuto

Romance A família Canuto
Romance A família Canuto e a Luta camponesa na Amazônia. Prêmio Jabuti de Literatura.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Pié, a arquiteta restauradora e poetisa

  

Carlos Cartaxo


Descobrir coisas novas é muito bom e quando é surpresa torna-se maravilhoso! Foi assim na passagem do ano 2025 para 2026 quando descobri a poesia de Piedade Farias. Eu a conheci no final dos anos setenta para início dos anos oitenta, século XX; eu cursava engenharia mecânica na Universidade Federal da Paraíba e ela arquitetura. De fato não a conheci, apenas convivi, fomos contemporâneos nos estudos e na política; digo na política porque à época o Brasil estava sob a ditadura militar que iniciou em 1964. Um dos canais de formação e resistência ao período ditatorial, foi o movimento estudantil, do qual participamos, e, por conseguinte, teve um papel importante no processo de redemocratização do país e na nossa formação intelectual e ideológica.

  

Há Teorias que separam arte da política; todavia, há criadore/as artístico/as que trazem nas suas realizações a política como conteúdo inserido ao processo criativo. Esse é o caso de Piedade Farias, poetisa que passei a admirar. Aprecio sua poesia pela ligação com a cultura popular e com as causas sociais. Sua arte é suave, ritmada e politizada, sem perder a ternura, além de que, traz também humor e docilidade, características da escritora, conforme se constata na poesia “Corre da praça minha gente que agora a praça é dos crente” (p.113 do livro Cantares de obras).


Como professor da disciplina “Técnica e estética da voz”, no Departamento de Comunicação da Universidade Federal da Paraíba, trabalhei, metodologicamente, com poemas de três livros de Pié nos exercícios de leitura, entonação e inflexão de voz. Alguns poemas que os aluno/as escolheram foram: “A cor verde”, “A cor Branca”, “A cor azul”, “A cor preta”, do livro Arco-íris de alfenim; “Dia de inscrição para futuros alunos” do livro Cantares de obras; “A roda” do livro Balaio, Sinhá. Por coincidência eu também me identifico com os textos selecionados pelos alunos. Então, eu peço licença à autora, Pié Farias, para publicar aqui os poemas citados.


A cor verde


Veio um grilo sorrateiro

Nos meus cabelos morar

Era verde, todo verde

Vivia alegre a pular


Como eu ia lhe chamar?

Alegria ou Esperança,

Esperança ou Alegria…

Que nome eu ia lhe dar?

“Alegrilo”, eu chamaria.

Alegrilo, verde, verde…


Outro, passeando,

Num jardim cheio de verde

Fui carregando Alegrilo

Com seu jeito de ousar.

Alegrilo ia pulando

Pulando pra lá e pra cá.

E pulou dentro das folhas

Se confundindo com o verde!

Eu fiquei a lhe chamar:

Alegrilo, volte, volte…

Vê se não me faz chorar


Procurei de verde em verde

(E se quiser acreditar…)

Meus olhos ficaram verdes

De tanto verde olhar

Procurando Alegrilo.


Quem me ajuda a encontrar?


A cor branca

A cor branca vestiu roupa de fantasma

Ficando mais branca ainda.

Olhou-se no espelho:

Que susto!

Como estava branca!


Então começou a dar tapinhas

Nas suas próprias bochechas:

Por que não ficam rosadinhas?

Foi quando teve uma ideia;

E se eu me enfeitasse?

É. Talvez ganhasse um pouquinho de cor.

O espelho falou:

Quem sabe?


E ela então começou.


Pegou os sapatos da mãe

(aqueles que são bem altos),

Pegou a bolsa e o colar

E cinto igual aos sapatos.

Foi novamente ao espelho.

Nossa! Como ela é descuidada.

Pois não é que tinha posto

Sapatos brancos, tão brancos,

Bolsa, cinto... Tudo branco!

Até as continhas do colar! Coitada!

Ficou tão desapontada

Que perguntou:

E agora, que jeito eu dou?

Foi quando pensou, de leve:

一 Vou brincar de não ter cor.


E virou bola de neve.


A cor azul


Um menino estabanado

Derramou todo o tinteiro

Nas águas turvas do mar.


O mar virou espelho azul

Onde um barco deslizando

Convidava a navegar.


O céu achou esquisito

E veio olhar de pertinho

O que tinha acontecido.


Quando olhou viu refletido

Que também era azul,

De um azul muito bonito.


De azul, pintado o céu,

De azul, pintado o mar

Com um barco a deslizar.


O menino pensou rápido:

"Isso é muito divertido!"

E quis de azul se pintar.


A cor pretra


Quando é noite, a cor preta suspende pelos ares

O seu decote imenso de mistérios

E mares profundos

Onde navegam histórias antigas

De porões escuros, correntes,

Iaras, lobisomens,

Segredos de jurema, matas fechadas

E sacis pretos como a noite!


Contam que, na noite, se soltam os ventos maus,

O mar vira lamento,

A vida, engano.


A mãe pede:

一 É tarde. Dorme, filhinho.



一 Sua bênção, Papai do céu.

Sua bênção, Mamãe do céu.

Sua bênção, dindinha* Lua


A lua branca bóia no mar negro da noite.


(*"Dindinha" quer dizer Madrinha.)


Dia de inscrição para futuros alunos


Nesse tempo de agora

Chegam as meninas grávidas

Aos dezesseis ou dezessete anos

O filho pequeno lhe puxando a saia

Tudo é espanto

Em sua travessia ao futuro…

Também chegam os rapazes

De que lares?


A fila atinge rápido o fim do muro.


Sonha uma instrutora da Oficina

Com a igreja antiga enfim restaurada

E a escultura da praça novamente limpa


A forja (entre outros edifícios) resgatada.


Estranha sina:

Nem a instrutora sabe quanto aprende

Nem o aluno sabe que ensina…






A roda


Roda a roda na calçada

Sobre esse rastro de prata

Que a noite é de luar…


Anda, anda cirandinha

Uma canção vou cantar

Dê-me aqui a sua mão

Vamos todos cirandar…

Atiraram o pau no gato

Acertou em Terezinha

Credo em Cruz, que confusão!

A rosa brigou com o cravo

Naquele momento exato

Em que ela foi ao chão…


Essa é a primeira publicação do blog no ano de 2026, trabalho que me enche de regozijo porque falo da obra de Piedade Farias, poetisa, mulher engajada no universo literário e restauradora consagrada, de uma veia poética que alegra o mundo artístico. Viva Pié Farias e suas criações literárias que se multiplicam na internet através do grupo de WhatsApp Coletivo Anumará e que resultará, é o que esperamos ansiosos, em novos livros para deleite de todos nós!


Referências

FARIAS, Piedade. Arco-íris de alfenim. João Pessoa: A União, 2016.

一 Balaio, Sinhá. João Pessoa: Ideia, 2020.

一 Cantares de obras. João Pessoa: Mídia Gráfica e Editora, 2022.