Romance A família Canuto

Romance A família Canuto
Romance A família Canuto e a Luta camponesa na Amazônia. Prêmio Jabuti de Literatura.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

A indulgência como conexão entre o amor e o ódio

A indulgência como conexão entre o amor e o ódio

Carlos Cartaxo

Os museus dizem muito sobre a humanidade, por isso estou sempre me reportando aos museus como instituições formadoras que merecem todo nosso respeito e admiração. Recentemente tive a oportunidade de visitar o Museu da Memória e dos Direitos Humanos em Santiago, no Chile, aberto ao publico em 2010 com o objetivo de documentar os abusos cometidos pelo golpe militar e pela ditadura sangrenta de Augusto Pinochet, que de 1973 a 1990, portanto durante 17 anos, matou mais de três mil pessoas, além de muitos desaparecidos, instituindo o terrorismo do Estado.

O Museu me deixou surpreso, ao mesmo tempo alegre, porque através dele descobri o quanto o povo chileno tem uma formação humana que valoriza a vida e a democracia como bem infinito da humanidade. É claro que no Chile, assim como no Brasil, há seguimentos sociais estúpidos que defendem o terrorismo do Estado e, como consequência, contestam até hoje o papel do Museu. Não obstante essa corrente autoritária, lá como cá, predomina o pensamento plural e democrático. Quando o Museu chileno foi atacado ideologicamente, houve de imediato uma reação social. Essa formação politizada dos chilenos, em torno da justiça e da democracia, justificou o ato massivo de apoio ao Museu, e de desagravo às declarações estapafúrdias do ex-ministro Mauricio Rojas. Milhares de pessoas foram às ruas comparecer a um evento convocado por artistas e organizações de direitos humanos na capital chilena em apoio ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos.
Ao adentrar e cruzar os painéis expostos com as arbitrariedades e carnificina dos militares no dito Museu, muitas questões suscitaram na minha consciência de pai, escritor e pesquisador. A principal foi: o que leva uma pessoa a alimentar o ódio até mesmo quando devia regar o amor?
Painel com fotos dos mortos pela ditadura chilena. Há espaços em branco sinalizando os desaparecidos 
Foto: Carlos Cartaxo
A ditadura no Brasil acusou, prendeu, torturou e matou sem limites crianças, religiosos, mães de família, gente inocente, assim como militantes políticos. O mesmo aconteceu no Chile, da mesma forma que em todas as ditaduras pelo mundo a fora. A diferença marcante, e odiada por alguns, é que todas essas histórias horripilantes têm registros históricos incontestáveis. Portanto esses fatos documentais estão expostos no Museu da Memória e dos Direitos Humanos, que é a instituição que tornou publicou essa realidade dura e crua. Como forma de preserva a memória da história do seu povo, o Chile não deixa por menos e denuncia as atrocidades que os militares e o capital internacional fizeram no país.
E no Brasil? Aqui, infelizmente, há milhares de pessoas que ainda defendem esse procedimento violento, rastro deixado pela ditadura militar! É inacreditável, mas é um fato. Nesses casos de atrocidades contra o ser humano, a indulgência se faz necessária. Essas criaturas desinformadas, ignorantes, doutrinadas ao individualismo, precisam ser reeducadas para pensar no próximo, na cultura da paz e do bem. No livro O evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, no final do capítulo que fala sobre a indulgência, há uma citação de São Luís que diz: “Se as imperfeições de uma pessoa não prejudicam senão a ela mesma, não há jamais utilidade em fazer conhecê-las, mas se podem causar prejuízos a outros, é preciso preferir o interesse da maioria ao interesse de um só. Segundo as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode ser um dever, porque vale mais que um homem caia, do que vários se tornarem enganados ou suas vítimas.” (KARDEC, 2016, p. 108). Essa afirmação possibilita várias interpretações; contudo, quando se trata da violência e degradação da vida humana, museus e outros equipamentos e instrumentos culturais, políticos e sociais devem trazer a tona esse debate pela sua significativa importância.
A falta de leitura leva muita gente a um grau de alienação grave e, por conseguinte, defender o desrespeito ao ser humano, chegando a defender atrocidades como sendo procedimentos legais. Qualquer cidadão que tenha o mínimo de sensibilidade, educação, informação, conhecimento e bom senso, sabe que qualquer regime militar é uma imposição política arbitrária e equivocada para as nações que prezam pela democracia. No Chile, assim como no Brasil, também houve violência, arbitrariedades e rompimento com a democracia e os direitos civis. Por isso o Museu da Memória e dos Direitos Humanos está de porta aberta para desmascarar essas ações político-militares e informar a todos a necessidade da paz e da legalidade no que concerne ao respeito aos direitos civis. Lá, essa questão é tratada com tanta seriedade que o economista Mauricio Rojas foi escolhido do presidente do Chile , Sebastián Piñera, como ministro da Cultura, todavia, anteriormente, tinha criticado o Museu de Direitos Humanos questionando sua importância, logo sua validade, inclusive acusando-o de manipular a história; não deu outra, políticos e artistas exigiram sua renúncia, o que de fato aconteceu três dias depois de tomar posse como ministro da cultura.

O Museu se mostra claro quanto à certeza de que as ditaduras e o quadro político na America Latina têm semelhanças e que estas não são meras coincidências.  Em recente matéria, o Correio do Povo, de Porto Alegre, Brasil, publicou a matéria “Museu da Memória e dos Direitos Humanos alerta necessidade de relembrar passado”. Nesse artigo, o diretor do Museu Francisco Estévez fez uma interpelação à política na América Latina. Ele lembra que 40 mil pessoas foram vítimas das agruras da ditadura militar chilena. Como citado acima, o Museu da Memória e dos Direitos Humanos chileno também é vítima de ataques por parte de correntes políticas de direita que tenta justificar o injustificável, no caso, as atrocidades dos militares. Felizmente há aqueles que defendem o Museu como um espaço que mantém acesa a chama da democracia, fazendo com que nunca mais ditaduras instalem a violência exercida do Estado nos países que têm a democracia como forma política de governo.

Para o Correio do Povo, Francisco Estévez, afirmou que “É importante educar em uma nova cultura de respeito, de bom trato, da ética dos direitos humanos, recordando o que aconteceu, mas ajudando as pessoas a refletirem sobre o que está acontecendo agora com esses temas, com nossos indígenas, com os temas de gênero, da migração, entre outros”.

Alguns seguimentos religiosos pautados apenas na leitura da bíblia e na doutrina do pensamento único e uniforme se tornam sectários com base na ignorância. Esses milhões de religiosos não sabem decodificar o sentido humano para indulgência, assim como não sabem a conexão existente entre ódio e amor. Por amor a um Deus, que eles também não compreendem quem é, disseminam o ódio como se fosse o amor. Dessa forma alimentam a cultura do agrotóxico, do desmatamento, do extermínio de pobres, negros e índios, da exploração do trabalho humano, entre outros dissabores e desamores. Dentro das próprias igrejas disseminam a tese “pura” da divindade a um Deus que eles não têm noção de quem é porque o Deus bondoso, que a grande maioria devota a fé, só reside no amor.

Diante desses equívocos, haja indulgência para transformar o ódio em amor; o que me leva a concluir que ações positivas urgem! Então a educação, leitura, visitas a museus entre outros procedimentos que alimentem a sensibilidade humana à cultura da verdade, são caminhos transformadores que podem facilitar a conexão que deve converter o ódio em amor.

 

Referências

CORREIO DO POVO. Museu da Memória e dos Direitos Humanos alerta necessidade de relembrar passado. Porto Alegre, 29 de maio de 2019.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o Espiritismo. Araras, SP, IDE, 2016.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

A pós-modernidade já não me surpreende mais



A pós-modernidade já não me surpreende mais 

Carlos Cartaxo 



A relação entre pais e filhos é objeto de estudos em várias instituições de ensino e pesquisa. Eu perguntei a meu filho de 18 anos se ele ia comigo ao ato político por Lula Livre. Ele não se dispôs porque tinha um compromisso, mas não lembrou qual era o compromisso; horas depois lembrou que ia assistir a um jogo de futebol no Estádio. Minha colega, professora de Inglês, me falou que a filha dela é uma ativista nas redes sociais, mas não sai de casa para participar de atos políticos. Uma ex-aluna minha, pesquisadora sobre redes sociais e sobre pós-modernidade também não doa parte do seu tempo, mesmo que seja uma mínima parte, para ir a um ato político de reivindicação e defesa da liberdade e da democracia. O pessoal dos Centros Acadêmicos dos cursos de Comunicação, de Cinema, Relações Públicas, etc., também não foi ao ato de defesa do maior líder político da América Latina, Lula da silva, que é o preso político mais representativo do Brasil diante do mundo, em pleno século XXI. Não sejamos injustos, nesses atos aparecem uns poucos discentes, assim como uns pouco servidores e uns poucos professores que vão às ruas defender um projeto de sociedade justa, igualitária e democrática e, naturalmente, seu mais importante líder. Esses reais representantes da democracia presentes são os militantes que não fogem à luta! 

É claro que a direita convicta, os fascistas “pós-modernos”, discípulos do individualismo e do consumo, adoram essa ausência, essa lacuna política, essa formação ideológico debilitada, muito bem representada pela formação da sociedade do espetáculo, conceito crítico bem definido por Guy Debord em “A sociedade do espetáculo”, que caminha na mesma direção da sociedade líquida tratada por Zygmunt Bauman em “Modernidade líquida”; teorias críticas que nos leva ao limite da fluidez de pensamentos e ações. Há muitos colegas, que não entendem que os princípios pós-modernos, na calada da noite, no silêncio dos moribundos, tornam a todos, quase todos, sujeitos embevecidos pelo consumo e pela busca do indefinido. Por exemplo, selecionei duas imagens da internet para expressar esse comportamento pós-moderno que tem, intrinsecamente, o culto ao corpo, ao consumo e ao individualismo como força alimentar da necessidade de demarcar espaço social e poder. 



Muita gente não quer nem ouvir a palavra pós-modernidade; mas enlouquece se passar uma hora sem o smartphone. É a colonização fruto da dependência tecnológica, ampliando podemos até dizer dependência virtual. A Pós-modernidade não é uma teoria, não é princípio, é uma condição que o capitalismo nos impôs através da repaginação do capital denominado-a de neoliberalismo. Então, não há como contestar essa condição se você não a conhece, mas consome e não consegue viver sem ela. Conhecê-la é essencial para poder contestá-la, já que se convive com a condição pós-moderna no cotidiano. Contudo, alguns paradigmas teóricos aprisionam pensamentos que não nos permite enxergar tal condição. Então, chegou à hora de descolonizarmos os pensamentos para que possamos ser mais críticos com o neoliberalismo e sua cria, a pós-modernidade, sem sermos prisioneiro dele. 



É certo que a cultura digital tem provocado mudanças em todos os meios de comunicação. Essas mudanças têm influenciado diretamente o comportamento social. Será que o consagrado escritor Marc Prensky estava certo quando criou os conceitos de nativo digital e imigrantes digitais, através de um artigo que ele escreveu em 2001? Com base na criação da Internet, que se deu em 1969, na criação da web, WorldWideWeb, em 1990, desenvolvido no CERN por Tim Berners-Lee e a acessibilidade do mecanismo de busca do Google Inc., em 1998, Prensky escreveu livros e artigos focando em um projeto para a educação baseado na era digital.


O quadro desenhado no nosso horizonte e que ainda está sendo colorido é a surpreende condição pós-moderna. Então, o que faz um profissional, professor/a ou qualquer outro, não reagir diante de perdas de direito, diante de degradação das condições de trabalho? O que faz um/a jovem não se preocupar com o seu futuro profissional? Essa condição de estagnação e comodismo, em muitas situações até de descaso, é uma condicionante da sociedade líquida em que é melhor olhar para si, cultuar a exposição gratuita, alimentar o álibi do fetiche, do que pensar no futuro, pensar no próximo e no coletivo. A ideia de que “eu” devo ser o foco das atenções exige a ilusão de que devo estar na vibe da moda e me comportar de acordo com a liquidez que toma conta de uma geração e a faz líquida e escorregadia, destruindo sua identidade, seu futuro e o futuro do próximo, consequentemente, futuro de toda uma geração. Como o culto ao corpo, ao individualismo e ao consumo é uma realidade da condição pós-moderna, esta já não me surpreende mais. E haja vazio, se é que o vazio existe.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Feira Cultural e Científica: Brasil e Estados Unidos


Feira Cultural e Científica: Brasil e Estados Unidos

Em novembro de 2017, professores universitários e alguns artistas brasileiros se encontraram em Framingham, Massachussetts, Estados Unidos da América, na I Feira Cultural Brasileira (The Best of Brazil) de 2 a 5 de novembro. Eu tive o prazer de ser convidado para o evento para proferir uma palestra sobre as riquezas culturais do estado da Paraíba e lançar meus livros na Framingham State University. Na oportunidade fiz uma oficina sobre o Teatro do Oprimido na Harvard University com a professora Doris Sommer. O evento aconteceu entre as cidades de Framingham e Boston aproximando culturas e consolidando parte da história da imigração brasileira nos Estados Unidos da América, em especial no estado de Massachussetts.
O bom dessa história é que a experiência não ficou apenas no evento. A partir daí, eu e a professora Dra. Eliana Marcolino da UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce, escrevemos o artigo “Feira Cultural e Científica: Brasil e Estados Unidos” (Feira Cultural y Científica: Brasil y Estados Unidos; Cultural and Scientific Fair: Brazil and the United States) publicado na revista RELACult – Revista latino-Americana de Estudos em Cultura e Sociedade V. 4, n 03, set.-dez., 2018, artigo n⁰ 914, relacult.claec.org e-ISBN: 2525-7870.

O artigo aprofunda o objetivo da feira que foi fortalecer a cooperação cultural entre a comunidade brasileira nos Estados Unidos e a comunidade acadêmica norte-americana, assim como proporcionar uma integração entre as comunidades acadêmicas brasileira e a norte-americana compostas por professores e alunos, norte-americanos e emigrantes. Abordamos as atividades que foram realizadas na feira e propomos uma reflexão a partir desta experiência. A maioria dos participantes elogiou a iniciativa da realização da feira, a qual foi destacada como muito enriquecedora para intercâmbio de conhecimentos, por outro lado, merece destaque o “workshop” realizado na Universidade de Harvard com Doris Sommer e a visita técnica ao MIT (Massachusetts Institute of Technology).
 Houve uma visita técnica ao State House, em Boston, quando os(as) professores(as) tiveram a oportunidade de conhecer a casa legislativa do Estado de Massachusetts e visitar oito parlamentares norte-americanos, momento em que foi feito pedidos no sentido de que os políticos norte-americanos pensem na possibilidade de implementarem projetos políticos que possam respeitar os direitos dos imigrantes e, consequentemente, consolidar os trabalhos sociais de relevância ali realizados para eles e por eles.
Além da visita a State House, o grupo visitou o Consulado Geral do Brasil em Boston e foi recebido pela Consulesa Geral e embaixadora brasileira, Glivânia Oliveira. O artigo cita a importância dos participantes conheceram a dinâmica de funcionamento do Consulado. “Em roda de conversa, cada convidado fez uma breve apresentação sobre a sua formação acadêmica e atuação profissional no Brasil. Em seguida, a embaixadora fez um relato sobre as demandas da comunidade brasileira nos Estados Unidos, sendo a saúde do imigrante uma das questões mais preocupantes, principalmente a saúde mental com casos de depressão, síndrome do pânico. Tudo isso pode ser desencadeado pelo consumo excessivo de álcool e drogas. Tenha-se em mente ainda a violência intrafamiliar e o aumento de casos de suicídio na comunidade de imigrantes brasileiros nos Estados Unidos. Casos de brasileiros que chegam ao país com a Doença de Chagas e que não têm nenhuma forma de tratamento, já que é uma enfermidade pouco prevalente no território americano. A consulesa sinalizou a importância da união entre as universidades brasileiras e o Consulado para o enfrentamento desses problemas que foram pontuados”.
No artigo enfatizamos o fato de que “num mundo de individualismo extremado dos sujeitos, fruto da condição pós-moderna em que vivemos, aproximar pessoas é um ato que leva a construir relações saudáveis. A distância geográfica que existe entre países muitas vezes é quebrada com a aproximação cultural. A compreensão de que os povos fazem parte de um mesmo universo cultural é enriquecida quando participamos e vivenciamos de momentos construtivos como foi o que a Feira Cultural e Científica: Brasil e Estados Unidos nos propiciou. A cultura híbrida é uma concepção de vida que se tornou realidade quando pensamos o mundo como um ninho plural, um celeiro humano de diversas raças e diferentes origens. A tese da cultura híbrida é do argentino Néstor García Cancline, professor da Universidade do México, que tem contribuído para reflexão contextual do mundo em que se vive sob a égide de uma condição pós-moderna”.
Outro momento importante do evento foi a visita ao Brazilian-American Center, BRACE, entidade que tem o seu foco na educação de apoio à comunidade imigrante. Lá foi realizado um encontro com as crianças assistidas pela instituição; momento em que os estudantes realizaram apresentações de poesias brasileiras e recitaram a bela Canção do Exílio de Gonçalves Dias. Nessa visita os(as) professores(as) vindos(as) do Brasil fizeram uma mostra de documentários sobre as cinco Regiões brasileiras. Concomitantemente, o artista plástico Josafá Neves e a professora Lêda Gonçalves realizaram oficinas de artes plásticas com o grupo de estudantes.
O artigo fortalece a tese da importância da solidariedade entre os povos e comunidades. Os Estados Unidos da América, assim como qualquer país do mundo, precisam de organizações e entidades sem fins lucrativos que dêem suporte àqueles sujeitos sociais menos favorecidos. Nesse sentido, o BRACE que é uma entidade filantrópica criada em 2012, pelo Padre Volmar Scaravelli, que consolida a compreensão de que o conhecimento e a fraternidade são elementos que devem andar juntos. Como cita o artigo, o trabalho do BRACE “tem um valor de significativa importância porque é realizado nos Estados Unidos da América, mas tem o zelo e a responsabilidade de preservar a cultura e a identidade brasileira por meio de suas tradições, língua, crenças religiosas e a dignidade cidadã”.
No final do evento houve o momento muito esperado, “os(as) professores(as)tiveram um workshop interativo na Harvard University. Metodologia “Pre-Texts”, sobre intervenção de alfabetização precoce coordenado pela professora Doris Sommer. O que surpreendeu os(as) participantes foi saber que a metodologia adotada pela professora Sommer é uma releitura da Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire e do Teatro do Oprimido do artista Augusto Boal, ambos brasileiros”. “O trabalho da professora é fundamentado no pressuposto de que a criatividade pode contribuir para mudanças sociais, assim como proporcionar avanços sociais educando os cidadãos para tronarem-se sujeitos participativos e críticos. Sommer compreende que a arte é uma expressão humana que tem uma participação ímpar da formação da humanidade e por isso deve ser tratada com responsabilidade; princípio com o qual compartilhamos. Complementamos o raciocínio afirmando que a arte gera conhecimento, portanto, deve ser tratada como ciência porque transforma vidas e comunidades”.
A arte realmente é um conhecimento necessário as transformações sociais. Para maior aprofundamento no tema sugiro que os leitores acessem o artigo “Feira Cultural e Científica: Brasil e Estados Unidos”, na revista RELACult – Revista latino-Americana de Estudos em Cultura e Sociedade, para se conhecerem melhor o projeto The Best of Brazil idealizado e executado pela empreendedora brasileira da área de comunicação no estado de Massachussetts, Ilma Paixão, e pela professora e jornalista brasileira Eliana Marcolino.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A educação e o negro no cinema

A educação e o negro no cinema
Carlos Cartaxo

A arte e a comunicação convergem para a educação, que, por sua vez, conflui para a composição de uma sociedade avançada no que concerne a valores, respeito humano e competências. Essa é uma propositura que é defendida por vários educadores. Esse artigo vem somar e auxiliar essa tendência pedagógica porque significa acúmulo e reforço de conhecimento para quem trabalha com arte e comunicação, levando em consideração os contextos sociais. 
Atrizes interpretando Lisístrata, Luanda, Angola. Foto: Carlos Cartaxo
No livro “A elite do atraso: da escravidão à lava-jato”, Jessé Souza aborda a desigualdade social que impera no Brasil fazendo do país uma sociedade excludente que ainda tem na sua base a escravidão. O conteúdo desse trabalho nos dá um suporte teórico para compreendermos a composição injusta que a sociedade patriarcal tem dado aos subalternos na nossa sociedade. Esse tratamento tem o fim, inclusive, de desqualificar a cultura negra em detrimento da cultura imigrante europeia, que chegou no vácuo da modernidade no Brasil. Como diz o pensamento de Jessé, chegou trazendo o dito progresso, mas desqualificando a população negra, a tal ponto de classificá-la como “ralé”. “Como aspecto adicional que contribui para o desajustamento social que se consolida a partir desse período, com efeitos até hoje, há que se lembrar do cerceamento das expressões culturais do negro” (SOUZA, 2017, p.78). Por muitos anos a expressão cultural foi aprisionada e desqualifica, todavia a arte tem aberto janelas que tem colocado a “elite do atraso” em xeque-mate.
Essa é uma vertente para quem acredita que a arte vai além da perspectiva do deleite, da arte pela arte, da arte enquanto apenas elemento de apreciação estética. Contrário a esse raciocínio, eu parto do princípio de que a arte é conteúdo, portanto seu acúmulo é um fator positivo e necessário na formação cidadã. E, consequentemente, toda sociedade que se propõe a ser evoluída precisa informar e, naturalmente, formar seus membros para que tenham uma base cultural consciente e comprometida com a igualdade social.
A disciplina Direção de Arte, dos cursos do Departamento de Comunicação da UFPB, me tem dado a oportunidade de trabalhar com a arte na perspectiva de formação através da comunicação. Essa é uma disciplina técnica, não obstante essa abordagem voltada à prática permite trabalhar a técnica com a vertente criativa, crítica e analítica, o que possibilita reflexão e contextualização dos conteúdos trabalhados. Por exemplo, o filme “O Grande Desafio” é uma fonte de referência para a disciplina porque, além de ter qualidades técnicas cinematográficas, tem conteúdo que se apropria da arte, através da comunicação, para provocar um choque reflexivo no que concerne a história do negro na sociedade escravista e capitalista.
Escrever sobre cinema tendo como referência de conteúdo o negro nos remete, de imediato, a “O grande desafio”, filme com direção de Denzel Washington, consagrado ator e diretor norte-americano, negro. O filme tem roteiro baseado em fatos reais acontecido no Texas nos Estados Unidos da América, nos anos 30 do século XX. A história está situada em uma faculdade, Wiley, portanto em um universo educativo, tendo como personagens, alunos, professores, trabalhadores rurais, um pastor e, como não poderia deixar de ser, um xerife liderando uma polícia preconceituosa, excludente e opressora. O enredo está centrado no grupo de pesquisa da faculdade, liderado pelo professor Melvin Tolson, interpretado por Denzel Washington, que faz parte da tradição norte-americana de grandes debates. A eficiência científica do grupo, que estuda e pesquisa com afinco, colocou a humilde faculdade como vencedora no centro dos maiores debates nacionais. O grande desafio”, além das inúmeras conquistas, foi vencedor do debate com a Universidade de Harvard. O grande mérito foi fazer enfrentamento com a política excludente norte-americana que, inclusive, na época do filme, tinha o linchamento de negros como um procedimento corriqueiro. O fato do professor Melvin Tolson também ser uma ativista político, além de amante do conhecimento e das palavras, coloca mais uma pitada de conteúdo ao filme, o que fortalece a tese de que os avanços sociais são frutos de luta e da organização política da sociedade. Vale ressaltar que os aspectos técnicos contribuíram consideravelmente para a crítica social do filme. As cenas do linchamento de um negro, do atropelamento do porco, da prisão e soltura do professor, dos debates, inclusive da única derrota, das reuniões do grupo que focava na disciplina da pesquisa e na leitura, da partida no trem para Harvard e da cena do debate final, são ícones que fortalecem a ideia de esforço, conquista, vitória e persistência na luta por liberdade e igualdade.
Então, o que se aprende com um filme como “O grande desafio”? Por que o cinema é uma expressão artística de cunho formativo? E a escola e a mídia devem valorizar o cinema como expressão geradora de conhecimento ou apenas deleite e divertimento? A técnica deve sobrepujar o conteúdo? A estética é apenas uma questão de regozijo? As perguntas podem ser muitas; as respostas, não. O cinema, enquanto expressão artística, é um elemento formador que propicia o acúmulo de conhecimento; enquanto produto que objetiva a mais-valia também traz consigo o valor pedagógico que toda imagem nos propicia.
Aqui vale ressaltar que muitos filmes, pinturas, livros, peças de teatros, espetáculos, músicas, etc., trazem consigo a ressignificação da cultura negra e a ressignificação da beleza, mais do que isso, propiciam um debate sobre a participação social do negro e a importância política da inclusão deste como ser culto, ativo e produtivo no contexto pós-moderno que estamos vivenciando.
O cinema como recurso pedagógico permite aprofundamento de conhecimentos, buscando o aparente indisponível, além do disponível nos livros didáticos. É um recurso que possibilita a ruptura com a dominação do conhecimento, inclusive nas áreas da saúde, exatas e tecnologia, apenas acessível à elite social. Então, há que se concordar que é educativa a propositura que fomenta a arte que expressa criticamente à condição racista em que muitas sociedades estão inseridas.

Referências
SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à lava-jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O mundo está virado

O mundo está virado
Carlos Cartaxo

O mundo não está virado! Parece-me pouco interessante iniciar um texto com negativa, mas a liberdade literária me permite brincar com palavras e sentidos. É inquestionável que muitas “coisas” estão ao avesso; são livrarias fechando, pessoas lendo menos, amando menos, trabalhando mais, pobre pensando que é rico, rico explorando pobre. Gente fumando mesmo sabendo que é veneno. Aluno/as estudando sem saber porquê, outros se tatuam para.. não sei bem o porquê... Talvez culto ao corpo ou rebeldia, auto-afirmação, demarcação de poder; outro/as brincando de fazer sexo, brincando de consumir drogas, de usar veículos para testar a adrenalina trafegando em alta velocidade, “brincando”! Homens agredindo mulheres, pessoas agredindo crianças. Líderes religiosos vendendo indulgência, mentindo em nome de Deus, explorando a pobreza com o dízimo, usando a igreja para eleger corruptos; políticos corruptos sendo eleitos com o argumento de combater a corrupção; empresários defendendo a livre iniciativa, contanto que seja para interesse pessoal; judiciário julgando em causa própria, condenando sem provas, e muito, muito mais. Diante desse quadro nos chega a ideia de que o mundo está virado. Pois é, assim caminha a humanidade.

Foto: Carlos Cartaxo. Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, Espanha.

Se analisarmos a história da arte, digo a história da humanidade, veremos que o rumo é outro. A humanidade não tem retrocedido, tem evoluído! Da pré-história à pós-modernidade encontramos avanços em demasia. É claro que muitas conquistas são fruto de algum retrocesso. A máxima popular é bem clara ao esclarecer que muitas vezes é necessário “um passo atrás para avançarmos dois à frente”. Perder uma batalha não quer dizer perder uma guerra, assim como perder uma partida não impede de ser campeão. Paradigmas hão de serem rompidos; trilhas hão de serem conquistadas.
Os valores éticos e humanos devem priorizar nosso procedimento diante da sociedade. Essa deve ser a escala comportamental da cidadania. Se observarmos trabalhos como as peças de Sófocles, Aristófanes, William Shakespeare, Paulo Pontes; performances de Vant Vaz; quadros de Picasso, Flávio Tavares; músicas de Villa Lobos, Pedro Osmar, Chico César, estes representando aqui milhares de artistas que expressaram e expressam a alma humana, constataremos que a arte ainda é uma luz no fim do túnel da desilusão.
A arte por si só não diz tanto quanto tem para dizer. Todavia quando há convergência entre a arte e a comunicação, a revolução está pronta para eclodir. A Instalação: Sob os paralelepípedos - o poético e o político em maio de 68 na França, realizada pela ADUFPB no Centro de Vivência da UFPB, em maio de 2018, expõe o quanto revolucionária pode ser a arte, além de instigadora e comunicativa. Revolução fortalecida de sentimentos, de compreensão, de respeito, de compromisso, de atitude e de consciência para com a vida.

Foto: Carlos Cartaxo. Instalação: Sob os paralelepípedos - o poético e o político em maio de 68 na França

Ao ler “Lisístrata”, peça teatral de Aristófanes, dramaturgo grego, escrita em 411 a. C., somos estimulados a compreender o papel da mulher na sociedade como sendo de equilíbrio. Para aqueles que colocam a greve e os protestos no patamar do “comunismo” precisam saber que “Lisístrata” é o primeiro registro literário sobre greve, e greve de mulheres. Aqueles que defendem a moral da família, mas que, hoje, traem a esposa/o e têm filhos de relações extra-conjugais, é bom ler “Édipo rei” de Sófocles, tragédia escrita 427 a.C. No caso daqueles que vão aos cultos, templo, igrejas, pedir votos para corruptos em nome de Deus é bom ler Hamlet ou Otelo de Shakespeare para tomarem conhecimento  do que é traição, lutar por poder, brigas e mentiras.
Diante das ricas possibilidades de aprendizagens que a arte possibilita, me vem à indagação: será que o ensino de arte está trabalhando o conteúdo arte com a perspectiva de contribuir para a evolução social e formação cidadã? Será que o/as discentes vivenciam experiências que tenham como foco a paz, o respeito e a igualdade? Muitas perguntas surgem; algumas delas vêm com respostas; e nós mortais que estamos lendo, podemos questionar: que ações estamos realizando para enquadrar uma nova ordem mundial onde todos possam ter no abraço e na aprendizagem o berço da felicidade e da solidariedade?
Quando a arte se aproxima da comunicação ou vice-versa, me certifico que o conteúdo arte quando chega à comunicação sofre uma tempestade de deformações. Enquanto Aristófanes demonstra em “Lisístrata” a força da mulher e a necessidade de sua organização em grupo na sociedade, vários canais de televisão no Brasil fazem campanha contra a violência doméstica, mas apóiam candidatos que irão representar organizações e pessoas que defendem abertamente a violência propondo uma sociedade de conflitos.  Enquanto o autor grego citado, há século propaga a paz nas suas peças teatrais, vários canais de comunicação, dentre eles a televisão e o cinema, propagam a violência, a ideologia do conflito, de guerra e poder.
No quadro Guernica, Pablo Picasso demonstra toda sua indignação contra o fascismo e o nazismo. Nesse trabalho, que está exposto no Museu Reina Sofia em Madrid, Espanha, o autor expressa toda sua indignação e inconformismo com a bomba lançada por um ataque aéreo nazista, em apoio ao regime fascista espanhol de Francisco Franco, que destruiu grande parte da cidade de Guernica na Espanha, deixando o saldo de centenas de civis mortos entre crianças, mulheres e trabalhadores.
Quando o/a professor/a de arte trabalha a obra de Picasso como conteúdo, na sala de aula, que conexão ele/a faz com a violência urbana no Brasil? A burguesia que vai passear na Europa, quando passa por Madrid, vai ao Reina Sofia, apreciar a famosa obra de Picasso e que associação essa classe burguesia faz com a matança de negros e pobres nas favelas e periferias brasileiras? Como o/a docente trabalha metodologicamente esse conteúdo para que o/as discentes entendam a obra Guernica e entendam o contexto em que vivem na sua comunidade?
Mais uma vez volto o foco a mídia, mais especificamente aos programas policiais e semelhantes da televisão aberta brasileira que faz da dor humana a espetacularização que gera audiência fortalecendo o sentimento de impotência em quem mora a margem da sociedade burguesa. Essa questão não é nova, Guy Debord, no livro A Sociedade do Espetáculo, aborda essa temática de forma crítica. Ele demonstra o quanto essa sociedade dita real é de fato subjetiva, voltada ao consumo desvairado, logo irreal. Mas quem lê esse autor? Os fomentadores da violência e da deseducação, certamente não lêem, e ainda defendem o pensamento da “escola sem partido” que de fato é “escola de um único partido”, um único pensamento, que, por conseguinte, defende a divisão social em classes distintas e distantes, onde os hegemônicos determinam o que os subalternos devem ver, consumir e gostar.
No livro a Utopia do gosto, Waldenyr Caldas, argumenta que gosto se discute porque gosto se impõe e se determina. Essa tese ratifica a compreensão de que não há neutralidade no conhecimento. A publicidade, o marketing e outras ferramentas da administração e da comunicação são trabalhados no sentido de tornar o sujeito um consumidor em potencial e, na maioria das vezes, consumir e gostar de veneno, além de propagar e defender o que é determinado como sendo bom!
É impossível esconder: a ideologia está presente em todos os seguimentos da sociedade, em todos os canais de comunicação. Nesse sentido, uma conclusão surge no nosso horizonte, no caso, é a convergência para a leitura, o debate, o respeito e a pluralidade de ideias. Essa propositura pode resultar em ações, inclusive comportamentais, que podem desvirar o mundo que nos parece estar de cabeça para baixo. Ler com perspectiva crítica e analítica possibilita a todas as gerações acúmulo de conhecimento plural, ético e eclético, o que nos faz compreender que se o mundo parece estar virado, todavia nós podemos e devemos desvirá-lo colocando-o no eixo lógico do que parece certo, mesmo que seja uma certeza relativa.

Referências
CALDAS, Waldenyr. Uma utopia do gosto. São Paulo: Brasiliense, 1988.
DEBORD, Guy. A Sociedade do espetáculoRio de Janeiro: Contraponto, 1997.
PROENÇA, Graça. História da arte. São Paulo: Ática, 1995.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A arte não é um mundo à parte!

A arte não é um mundo à parte!
Carlos Cartaxo
A fragmentação da arte em especialidades ou em áreas tem causado um desconforto a quem pesquisa nessa área de conhecimento. Há duas correntes separadas por compreensão teórica que determinam que caminho trilhar. Uma é a concepção da moderna de que a arte deve estar nas galerias, museus, teatros, salões, concertos, para serem apreciados em espaços fechados, geralmente cobrando ingressos. A outra tem princípios conceituais diferentes, parte do fundamen  Essas concepções não são necessariamente antagônicas; claro, em alguns momentos se chocam, em outros se aproximam.
to de que a expressão artística não deve ter como essência interesses financeiros, deve ser livre e não precisa de parecer de críticos, acadêmicos, especialidades para definir o que é ou deixa de ser arte.
O advento no mundo virtual é um exemplo de que a arte fechada e determinada se é arte ou não por um dono do saber não cabe mais no contexto pós-moderno que se configura à nossa frente. Essa questão me remete ao livro Amor líquido de Zygmund Bauman em que o autor aborda sobre os relacionamentos no mundo volátil em que vivemos. Nesse contexto, os relacionamentos virtuais são pragmáticos e efetivos; mas o sonho é um relacionamento real, embora complexo.
No ensino da arte não é diferente, a admiramos expressões artísticas da mais diferentes matizes. Expressões artísticas híbridas, tradicionais ou contemporâneas. Mas na escola tem que ser a caixinha fechada das artes visuais, da música, do teatro e da dança. Será que essas ditas linguagens são tão separadas quanto alguns pregam? Será que a motivação para mergulhar no conhecimento artístico está na arte aberta, plural, híbrida, em rede, fazendo parte de matrizes fluídas com possibilidades múltiplas ou deve ser aquela baseada em linguagens, que nem concordo que são linguagens? Nesse sentido é necessário um debate mais consistente acerca dos princípios metodológicos da abordagem teórica em rede no ensino de arte.
Arte é expressão, não é linguagem. Em algumas situações pode ser linguagem quando se trata de técnicas a serem repetidas; mas quando se fala de livre expressão, de criatividade, de experimentar e vivenciar, o conceito de linguagem na arte vai por ladeira a baixo e perde espaço para concepções em cadeia com base risomática. Essa questão, eu abordo no meu livro “Amor invisível: artes e possibilidades narrativas” com mais profundidade. Lúcia Santaella em “Por que as comunicações e as artes estão convergindo?” também foca no tema em questão. Há pelo menos um século as comunicações estão inseridas nos contextos culturais. Algumas danças nativas, além de artísticas são canais de comunicação que traduzem histórias de vidas.
Foto de Carlos Cartaxo, postada no livro "Amor invisível: artes e possíbilidades narrativas" do mesmo autor.
“Característica marcante da cultura das mídias está na intensificação das misturas entre as mídias por ela provocada: filmes são mostrados na televisão e disponibilizados em vídeo; a publicidade faz uso da fotografia, do vídeo e aparece em uma variedade de mídias; canais de TV a t abo especializam-se em filmes ou em concertos, óperas e programas de arte, etc. Com isso, as misturas entre comunicações e artes também se adensam, tornando suas fronteiras permeáveis.” (SANTAELLA, 2007, p. 14).  
Referências:
BAUMAN, Sygmunt. Amor líquido: sobre as fragilidades dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
SANTAELLA, Lucia. (2007) Por que as comunicações e as artes estão convergindo? São Paulo: Paulus.

domingo, 2 de setembro de 2018

Crianças felizes

Crianças felizes
Carlos Cartaxo
A felicidade é a essência da vida. Essa frase trago comigo há muitos anos e a repito sempre que me deparo com pessoas emocionalmente abaladas ou em estado de depressão. Quem de nós nunca teve uma grande tristeza, uma perda que nos deixou desconsolado? Qual o profissional da educação que nunca encontrou um/a aluno/a, seja na escola básica ou na faculdade/universidade, e não identificou um estágio de letargia ou deficiência na aprendizagem ou outro problema de cunho social, cultural, pedagógico ou psicológico? Também é comum se responsabilizar a escola por essa questão de baixo aproveitamento e rendimento do aluno, o que muitas vezes é problema da família. Não obstante o jogo de responsabilidades, o debate sobre o tema é necessário, então vamos ao assunto.
Consultando a página na internet da Biblioteca Virtual da Antroposofia encontrei um artigo que resolvi divulgar aqui devido a importância do seu conteúdo. As relações de comunicação no seio da família passam por momentos difíceis que merece estudo aprofundado, portanto posto o debate que a Biblioteca Virtual da Antroposofia nos propõe para leitura.




TRAGÉDIA SILENCIOSA
Dr. Luís Rajos Marcos
Fonte: Revista Pazes
Há uma tragédia silenciosa que está se desenvolvendo hoje em nossas casas e diz respeito às nossas joias mais preciosas: nossos filhos. Nossos filhos estão em um estado emocional devastador! Nos últimos 15 anos, os pesquisadores nos deram estatísticas cada vez mais alarmantes sobre um aumento agudo e constante da doença mental da infância que agora está atingindo proporções epidêmicas.

AS ESTATÍSTICAS:
-1 em cada 5 crianças tem problemas de saúde mental;
-um aumento de 43% no TDAH foi observado;
-um aumento de 37% na depressão adolescente foi observado;
-um aumento de 200% na taxa de suicídio foi observado em crianças de 10 a 14 anos.
O QUE ESTÁ ACONTECENDO E O QUE ESTAMOS FAZENDO DE ERRADO?
As crianças de hoje estão sendo estimuladas e superdimensionadas com objetos materiais, mas são privadas dos conceitos básicos de uma infância saudável, tais como:
-pais emocionalmente disponíveis;
-limites claramente definidos;
-responsabilidades;
-nutrição equilibrada e sono adequado;
-movimento em geral, mas especialmente ao ar livre;
-jogo criativo, interação social, oportunidades de jogo não estruturadas e espaços para o tédio.
EM CONTRASTE, NOS ÚLTIMOS ANOS AS CRIANÇAS FORAM PREENCHIDAS COM:
– pais digitalmente distraídos;
– pais indulgentes e permissivos que deixam as crianças “governarem o mundo” e sem quem estabeleça as regras;
– um sentido de direito, de obter tudo sem merecê-lo ou ser responsável por obtê-lo;
– sono inadequado e nutrição desequilibrada;
– um estilo de vida sedentário;
– estimulação sem fim, armas tecnológicas, gratificação instantânea e ausência de momentos chatos.
O QUE FAZER?
Se queremos que nossos filhos sejam indivíduos felizes e saudáveis, temos que acordar e voltar ao básico. Ainda é possível! Muitas famílias veem melhorias imediatas após semanas de implementar as seguintes recomendações:
– Defina limites e lembre-se de que você é o capitão do navio. Seus filhos se sentirão mais seguros sabendo que você está no controle do leme.
– Oferecer às crianças um estilo de vida equilibrado, cheio do que elas PRECISAM, não apenas o que QUEREM. Não tenha medo de dizer “não” aos seus filhos se o que eles querem não é o que eles precisam.
– Fornecer alimentos nutritivos e limitar a comida lixo.
– Passe pelo menos uma hora por dia ao ar livre fazendo atividades como: ciclismo, caminhadas, pesca, observação de aves/insetos.
– Desfrute de um jantar familiar diário sem smartphones ou tecnologia para distraí-lo.
– Jogue jogos de tabuleiro como uma família ou, se as crianças são muito jovens para os jogos de tabuleiro, deixe-se guiar pelos seus interesses e permita que sejam eles que mandem no jogo.
– Envolva seus filhos em trabalhos de casa ou tarefas de acordo com sua idade (dobrar a roupa, arrumar brinquedos, dependurar roupas, colocar a mesa, alimentação do cachorro etc.).
– Implementar uma rotina de sono consistente para garantir que seu filho durma o suficiente. Os horários serão ainda mais importantes para crianças em idade escolar.
– Ensinar responsabilidade e independência. Não os proteja excessivamente contra qualquer frustração ou erro. Errar os ajudará a desenvolver a resiliência e a aprender a superar os desafios da vida.
– Não carregue a mochila dos seus filhos, não lhes leve a tarefa que esqueceram, não descasque as bananas ou descasque as laranjas se puderem fazê-lo por conta própria (4-5 anos). Em vez de dar-lhes o peixe, ensine-os a pescar.
– Ensine-os a esperar e atrasar a gratificação. Fornecer oportunidades para o “tédio”, uma vez que o tédio é o momento em que a criatividade desperta. Não se sinta responsável por sempre manter as crianças entretidas.
– Não use a tecnologia como uma cura para o tédio ou ofereça-a no primeiro segundo de inatividade.
– Evite usar tecnologia durante as refeições, em carros, restaurantes, shopping centers. Use esses momentos como oportunidades para socializar e treinar cérebros para saber como funcionar quando no modo “tédio”.
– Ajude-os a criar uma “garrafa de tédio” com ideias de atividade para quando estão entediadas.
– Estar emocionalmente disponível para se conectar com crianças e ensinar-lhes autorregulação e habilidades sociais.
– Desligue os telefones à noite quando as crianças têm que ir para a cama para evitar a distração digital.
– Torne-se um regulador ou treinador emocional de seus filhos. Ensine-os a reconhecer e gerenciar suas próprias frustrações e raiva.
– Ensine-os a dizer “olá”, a se revezar, a compartilhar sem se esgotar de nada, a agradecer e agradecer, reconhecer o erro e pedir desculpas (não forçar), ser um modelo de todos esses valores.
– Conecte-se emocionalmente: sorria, abrace, beije, faça cócegas, leia, dance, pule, brinque ou rasteje com elas.

“A Biblioteca Virtual da Antroposofia é uma iniciativa particular e a seleção de textos e publicações são única e exclusivamente de minha responsabilidade.” – Leonardo Maia


Fontes: http://www.antroposofy.com.br/forum/tragedia-silenciosa/ e Revista Pazes.
Foto: Carlos Cartaxo. Criança: Iaco Cartaxo